Regulamento

Capítulo 9

Capítulo 10 (propostas)

Ma(r)ta Hari

 

 

 

 

 

 

 

 

PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

CAPÍTULO 10

Proposta de Ma(r)ta Hari

A noite está calma que nem criança dormindo no aconchego do leito materno; quente que nem peito de mulher abraçada ao amante há muito desejado em sonhos ardentes e arrebatadores; … e Sónia treme que nem seara verde em madrugadas de ventos ciclónicos!... Correntes de suores frios, quase gelados, rebentam por todos os poros do seu jovem e delicado corpo de mulher ainda menina. A testa lateja, as pernas fraquejam. O seu estado geral, físico e psíquico, é quase catatónico. Ela não consegue esquecer a vergonha da experiência vivida naquela manhã num escarafunchoso e húmido gabinete de um sombrio e triste inspector da Polícia Judiciária, que dá pelo nome de António Jorge, mas cuja “graça” parece estranhar quando assim é chamado, dando sinais de inquietação quase infantil, através do seu bigode farfalhudo mimado por constantes carícias, que parece eriçar enquanto o seu rosto ruboriza, como criança apanhada numa qualquer mentira inconsequente.

A noite anterior fora passada em claro e o sono acabou por não ser bom conselheiro. Sónia trocou os pés pelas mãos, gaguejou entre afirmações pouco consistentes e explicações esfarrapadas para justificar o injustificável. No meio do interrogatório ficou a saber que afinal o suposto número de telemóvel que ela havia descoberto casualmente numa das agendas de Madalena não era de nenhum “celular da brasileira Vanessa”, como a prima sustentou quando questionada sobre aquele estranho número que começa por 97. Madalena convenceu-a de que se tratava de um número de uma operadora móvel brasileira coberta por um qualquer satélite instalado algures na Europa. A explicação terá sido na altura convincente mas o que é certo é que ela nunca mais esqueceu o número. Podia ter experimentado ligar para aquele “97” só por curiosidade, mas na verdade nunca o fez. Se o tivesse feito, teria logo percebido que se tratava de um logro.

Agora Sónia sabe que há algo mais para além daquilo que ela julgava saber sobre as razões de tantos crimes cometidos em nome de uma suposta seita ou religião secreta que promete a vida eterna, orientada por uma velha mãe de santo que reclama sangue humano em troca de favores terrestres e de vida luminosa e farta noutra esfera, dimensão ou plano astral. Na Judiciária fala-se em armas nucleares, em algo muito, muito sério... de terrorismo até! Sónia já não sabe o que sabe, nem quer saber mais do que sabe. E sobre querer, apenas sabe que não quer nada, absolutamente nada… a não ser, talvez, um buraco por onde tome sumiço, por onde desapareça no nada. O que se passa não se resume a um simples pesadelo de onde possa sair incólume com um despertar salvador. O que ela viu, ouviu e sente, está mesmo a acontecer-lhe, não é ficção ou sonho!

Noutro canto da vida, no extremo da grande Lisboa, num modesto mas recente e bem equipado apartamento de quatro assoalhadas, algures entre os “dormitórios” citadinos Olivais e Bela Vista, António Rosa está triste, pesaroso, desalentado. Acabou de deitar a prole nas suas camas e tem Otília à espera, sentada num sofá em frente à televisão, na sala de estar. Apetece-lhe estar só consigo mesmo, mas não vai ser possível porque ela já fez questão de lhe fazer saber que não deixará. Segundo ela, há muito, muitíssimo, para conversar!

Durante o todo o jantar ele disse apenas meia dúzia de frases: “vai lavar as mãos, Rui; “traz o pão para a mesa, Rita”; “segura como deve ser na faca, Rui”; “deixa o teu irmão sossegado, Rita”; “deixem-se de brincadeiras, moços”; “passa-me a fruta, Otília”. E agora ali está ela, a mulher que lhe deu filhos e pouco mais, à espera que ele lhe conte tudo, “tim-tim por tim-tim”, desde que saiu de Lisboa, após a Páscoa, até ao seu regresso a casa.

Mas o que lhe há-de ele contar? Que o seu coração não resistiu aos encantos de Madalena? Que o seu amor está todo ele naquela estranha mulher que o abandonou quase desfalecido, entregue à sorte, numa cama de hotel em Espanha, após uma sexualmente prometedora noite de copos e animação numa discoteca manhosa? Que Madalena o enfeitiçou de tal maneira que já nada será como dantes, em casa, com Otília e com os seus próprios filhos? Que a modista, estilista, da Praça das Flores não é apenas a “mulher dos trapos”, como a designa Otília com desdém, só para rebaixar a rival com quem ele terá cometido, na sua opinião de fêmea ofendida, um “pequeno” devaneio?

Não! Na verdade, Madalena não é “só” a mulher que ele ama! Madalena é a mulher que ele sempre amou em todas as mulheres que teve!!! A mulher que ele desejou em todas as noites de insónias vividas nas muitas camas que fez e desfez na vida, a amiga que ele buscou em todas as horas de desespero e de inquietação entre sonhos feitos e desfeitos em castelos de areia, a companheira que ele procurou em todas as lutas que travou com a sorte e com o destino que lhe quiseram impor em cada dia da sua vida. Ela é a sua irmã, a sua mãe, a sua amante, a sua alma… gémeas de si, feitas do mesmo sangue, da mesma carne, do mesmo sal!!! Mas isto Otília não vai querer ouvir!...

Em Paris, Madalena devia estar alegre, bem disposta, sorridente… mas não está. Tem à sua frente, a alguns dias, semanas ou meses de distância, o futuro que sempre ambicionou. Para tal, basta apenas que deixe correr lesto o tempo por entre desenhos e paletas de cores determinadas pelo seu talento, amparada pelos amigos parisienses Antoine e Monique, para que o sonho aconteça! Mas não, isso não é agora o mais importante. O seu pensamento está distante, tão distante, a muitas serras, estradas, rios, mares e marés, céus e estrelas, satélites e planetas de distância, entre Paris e … o além, julga ela.

Para Madalena, António Rosa é já nada, pó, corpo inerte, sepultado com certeza segundo todos os rituais religiosos, chorado por mulher e filhos, recordado com saudade por amigos de infância e por ex-companheiros de faculdade e colegas de trabalho. Ela matou o homem que ama… que sempre amou! Levou-o para uma viagem de que ela sabia não ter retorno. Lutou contra si própria até ao momento em colocou o veneno fatal na bebida de António Rosa. Nessa ocasião, o que ela mais desejava era abraçá-lo com a toda força do seu ser, beijá-lo vezes sem conta até sufocar e partilhar com ele a noite dos amantes, de todos os amantes! Voar pelos céus e dançar ao som dos sinos celestiais tocados por querubins do amor e do sexo. Mergulhar na cama da luxúria e no prazer e entregar-se incondicionalmente, sem reservas, preconceitos ou tabus. Dar-se, enfim… finalmente!

Em Troino, os remorsos dos males cometidos, e os medos das suas consequências, arrasam os nervos de uma jovem estudante trabalhadora que enfrenta o doloroso arrependimento das horas extraordinárias gastas ao serviço do crime, e que agora serão provavelmente pagas, crê ela, em muitos dias e noites de cadeia.

Em Lisboa, na parte oriental da cidade, o desespero e o despeito de uma “esposa traída” que não sabe tolerar ameaçam incendiar uma relação em fim de vida, talvez mais por culpa própria do que por causa alheia.

Em Paris, a saudade fala mais alto do que a ambição de uma mulher que se perdeu de amores por um homem… ”morto”, de morte falhada.

Na alfacinha Praça das Flores, o gozo e a satisfação de dever cumprido dão um estranho brilho ao olhar da brasileira Vanessa, que faz inusitadas arrumações nocturnas na confeitaria Pão de Canela.

Tudo isto à mesma hora em que Abílio Mata Moscas, deitado na sua cama de corpo-e-meio de solteiro incorrigível, dá voltas e mais voltas por entre os lençóis, atormentado por uma terrível insónia provocada por um pesadelo inquietante: o corpo do inspector António Jorge deu à costa na margem do sul do Tejo, com uma bala enfiada na cabeça!!!

 

Fonte:

Blogue Local do Crime, 21 de Outubro de 2004

© DANIEL FALCÃO