Regulamento

Capítulo 10

Capítulo 11 (propostas)

Inspector Huga Booga

 

 

 

 

 

 

 

 

PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

CAPÍTULO 11

Proposta de Inspector Huga Booga

A brasileira Vanessa está mais alegre e misteriosa do que nunca. Os seus olhos de amêndoa faíscam raios de uma cor brilhante e luminosa que encadeiam quem os olha. A sua voz jovial está ainda mais fresca e melodiosa do que habitualmente, dando uma graça especial ao seu açucarado sotaque carioca. Ela distribui sorrisos, simpatia e boa disposição por todas as mesas da confeitaria. Uma graça aqui, um dichote acolá, uma carícia na face da velhinha que veio madrugar para o “Pão de Canela” e um “bom dia” quase cantado para um cliente desconhecido que entra apressado para um bretzel e uma meia de leite, antes da chegada de um colega que o vem buscar às oito para mais um dia de labuta na estrada com um camião TIR nas mãos. Vanessa desenha o seu encanto em cada passo que dá, esboça em cada sorriso a felicidade que lhe vai na alma, espelha em cada gesto a beleza que percorre todo o seu corpo de mulher, retrata em cada palavra a doce ternura de fêmea disponível para o amor.

O rapaz apressado deixou de ter pressa de sair e faz fé de que não deseja abandonar tão cedo aquele lugar. Agora, mesmo que o colega aguardado tenha pressa no partir, ele ficará! Há um certo deslumbramento no seu olhar. A brasileira fez disparar o “clic”de macho no seu corpo de homem feito. Já lá vão vinte e oito primaveras bem vividas e nunca tinha sentido tal estado de forma tão arrebatadora. Veio ao “bretzel” e agora quer pastelaria ainda mais especial! Vanessa tem ondas de mar encapelado nas ancas e dunas perfeitas nos seios: e ele não sabe o que prefere, se estender-se dolente nas areias macias e firmes do seu formoso peito ou mergulhar até ao naufrágio no mar imenso que começa calmo na cintura enlaçada nas suas coxas e rebenta em turbilhão na “bundinha” vizinha do seu ser mais íntimo. Até a clientela habitual parece estranhar a sensualidade da empregada do “Pão de Canela” naquela manhã. Paira no ar um misterioso clima de sedução. Ela está, de facto, mais provocante e sedutora do que nunca…

Abílio Mata-Moscas entrou de rompante na confeitaria e veio, como que por magia de bruxa má, desfazer o encanto daquela manhã límpida, clara e sensual. A hora é a mais apropriada para o pequeno-almoço, mas ele não vem à procura de nada que aconchegue o estômago. Ainda não se deitou e já lá vão mais de nove horas que não mete nada no “bucho”, mas o que o traz ao “Pão de Canela” não se compra nem se vende naquele estabelecimento – arranca-se dali! Ele veio em trabalho e quando trabalha quase não come nem bebe. Traz cara de poucos amigos, um ar bruto, sério e decidido. A sua missão é dar ordem de prisão à esbelta e sensual brasileira. “Está presa. Acompanhe-me”. Um empurrão e Vanessa cai redonda no chão. O rapaz apressado mete-se ao “barulho”, para defender a “sua dama”, e acaba estendido entre duas mesas, com um bretzel enfiado “inteirinho” na boca e uma meia de leite entornada sobre a sua pobre cabeça. O agente que veio com o Mata Moscas pegou-o por um braço e arrastou-o até à Praça. Ele já não saiu dali de camião, mas de carro… da polícia judiciária!

A sirene do carro da “Judite” ouviu-se em quase todo o Bairro Alto, quando chegou ao Príncipe Real. A pressa era muita e o trânsito àquela hora não facilitava. Na Praça das Flores o assunto tornou-se tema de conversa obrigatória em cada canto. Que terá feito a pobre da Vanessa? – pergunta o “mulherio” que acorreu à confeitaria, logo que a notícia circulou pelo bairro, de janela em janela, de porta em porta, de boca-a-ouvido. E o rapaz, coitado, que fez ele para ser tratado daquela maneira? O motorista colega do rapaz quando chegou percebeu logo que ele tinha estado no sítio errado a horas impróprias e que tomou o partido menos aconselhável numa situação em que o bom-senso recomenda muita prudência. “Mas não havia de necessidade de serem tão brutos” – diz a mulherzinha que veio madrugar para a confeitaria e que vai já no quarto bretzel e no segundo galão, sem que tenha pago um “chavo” (“o dia está correr-me bem” – disse ela para com os seus botões). “Estes polícias estão cada vez estão piores. Em lugar de virem aborrecer quem trabalha, por que é que não vão atrás dos ladrões e drogados que se passeiam pelo bairro sem que lhes aconteça nada?” – sentenciou uma velha matrona de nariz avermelhado e de olhos em alvo, que começou cedo a visitar a tasca do galego Xosé “Blanco ó Tinto” e já vem bem aviada.

Abílio Mata-Moscas está furibundo. Coça furiosamente a cabeça mais vezes do que o costume, morde a “bigodaça” com raiva e rosna palavras imperceptíveis e estranhas ao linguajar dos humanos. Atira com Vanessa para cima de uma cadeira que está a um canto do seu gabinete e grita: “quieta!!!” A brasileira está pálida, branca, e estremece de medo. O assistente do inspector António Jorge pega no telefone e reclama rapidez na execução da detenção da “outra” em Paris. Ele exige que Jeff Cohen deixe imediatamente o que está a fazer e traga a “piquena” para Lisboa, seja de que maneira for. “Quero lá saber que ela esteja num restaurante de luxo a comer caviar e a beber champanhe francês. O americano que entre lá e que a traga de rastos, pelos cabelos. Estou farto de atitudes brandas, seus merdas!” Ele sabe que a coisa é complicada, que ela está em território estrangeiro, que as coisas têm de ser feitas nos limites da legalidade, que não podem ser feitas assim de qualquer maneira... “Estou-me cagando!... Estou-me cagando para a polícia francesa, estou-me cagando para as relações bilaterais… e estou-me cagando para a Torre Eiffel, para o Arco do Trinfo e para o Chirac! O americano que traga a gaja, e já!”. Mas falta ainda a prima da costureirinha… “Onde está ela, porra?!”

Sónia chega à Judiciária quase arrastada por um homenzarrão de negro blusão de cabedal vestido, que a despeja numa das pequenas salas que servem para interrogatórios mais “íntimos” e de pouca “importância” para os relatórios, mas que são vitais para a descontracção de quem tem dificuldades em falar. E há muita gente por aí que sofre de graves problemas de expressão!... A sala tem muito pouca coisa. Três cadeiras, uma pequena secretária com um bloco de notas, algumas canetas, um rádio a pilhas, um telefone que só faz chamadas internas e muitos objectos de decoração de tamanho considerável, feitos de madeira revestida com borracha, um tudo-nada semelhantes a tacos de basebol, a cabos de chicote, a cassetetes de polícia de giro. Um quadro numa das paredes exibe a equipa de futebol do glorioso Benfica dos anos sessenta, com o pantera negra em primeiro plano agarrado a uma bola escura e gasta de tanto chuto. Sónia está agastada e muito mais pálida do que as brancas paredes sujas e húmidas daquela sala escura. O homem que a trouxe de Tróino sentou-se à secretária e pegou no telefone. “Já aqui tenho a catraia. O que faço? Começo já ou espero pelo Mata Moscas? Está bem. Mas ele que se despache depressa que eu tenho muita dificuldade em conter-me”. É grande o nervosismo e tenso o ambiente que se vive na “judite”. E a causa não é para menos.

António Jorge deu à costa naquela madrugada. Um tiro em cheio entre os olhos deitou-o ao mar. Presume-se que o trágico acontecimento tenha ocorrido alguns momentos depois de ele ter entrado em contacto com a “central” para confirmar as suas suspeitas de que havia “coisa química” altamente perigosa naquele misterioso caso das mortes dos “antónios”. As “dicas” do seu amigo e ex-colega de Faculdade “Quiabos” ajudaram-no a desvendar a ponta da meada deste caso que, a princípio, apenas parecia configurar um “serial killer” de pacotilha, daqueles que são motivados por qualquer desequilíbrio psicológico ou por razões de foro psiquiátrico. Mas desde o início que ele pensou que não estava perante um simples criminoso psicopata. E foi por isso que decidiu agir sempre com muita prudência. Ele costumava dizer que “cautelas e caldos de galinha” nunca fizeram mal a ninguém, máxima popular que não respeitou naquela noite. Quando desligou, disse que ia tomar um copo ao cais de Alcântara e que só depois iria “passar pelas brasas”, durante quatro ou cinco horas. Havia muito trabalho a fazer e ele queria começar o dia cedo!... António Jorge parecia bastante confiante e entusiasmado. Sentia-se alguma excitação na voz, na respiração. Perto de si talvez estivesse alguém que ele sonhava levar para o seu ninho de amor mas que não partilhava do mesmo sonho e tinha intenções pouco “recomendáveis”: vê-lo caído, morto, no rio!

A priminha de Madalena continua de pé, sem saber o que fazer. De repente, a porta abre-se. Entram Abílio Mata Moscas e Vanessa. O homem grande de cabedal de blusão negro liga o rádio, muito alto. A partir daquele momento os diálogos passam a ser gritados e fora daquela sala só se ouvia música. “Todos de pé. Aqui ninguém se senta, porra! Vamos acabar com isto depressa. As meninas querem colaborar ou preferem ter festa à maneira? Tu, minha cara, onde andaste ontem à noite? Será que estiveste à pesca nas docas? Cheiras a lodo e a peixe de água doce, que tresandas? Ou é tudo impressão do meu estúpido nariz, que confunde os cheiros, e tu cheiras é a morte?!...” Vanessa perdeu o equilíbrio devido a um leve safanão nos ombros e foi chocar com o homem do blusão de cabedal. “Chega para lá, que não fazes o meu género, ó piquena” – gritou o homenzarrão... E Vanessa ficou de testa colada à parede. Um fio de sangue escorre do seu sobrolho direito. Sónia desata a chorar. “Caluda! Aqui ninguém chora”. O sinal luminoso do telefone piscou. O homenzarrão baixou o rádio e… “Abílio, temos merda da grossa. Tens de ir lá dentro, já!”

 

Fonte:

Blogue Local do Crime, 21 de Novembro de 2004

© DANIEL FALCÃO