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Capítulo 7
(propostas) Madame Eclética |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 7 Proposta de Madame Eclética Abílio Mata-Moscas passou por duas vezes o dedo polegar da mão esquerda pelo bigode, primeiro do centro para a esquerda e depois no sentido inverso partindo do mesmo ponto, fez uma breve pausa “expressiva” de concordância relativamente ao que lia, recostou-se na cadeira, coçou de novo a cabeça junto à nuca onde uma pequena careca reluzente reflecte a luz do candeeiro que ilumina o gabinete sombrio em que diariamente, e há cerca de cinco anos, as suas meninges e os velhos músculos já cansados de quase cinquenta anos de vida dura procuram dar corpo às missões que lhe são incumbidas pelo inspector António Jorge, um dos mais combativos e inteligentes quadros da secção de homicídios da “Judite”, e voltou a mergulhar sôfrega e apaixonadamente na leitura da página “tantas” do relatório que tinha à sua frente sobre a secretária. Molhou novamente o dedo indicador da mão direita na ponta da língua e folheou mais uma página. “Madalena, jovem de pouco mais de trinta anos, morena, de olhos grandes e negros, nasceu perfeita, bela e sadia, em Abril, numa chuvosa e cinzenta sexta-feira de Páscoa, no seio de famílias humildes. Cresceu depressa e quase não foi criança. Deixou cedo a escola e abandonou a aldeia natal na pré-adolescência para aos quinze anos começar a trabalhar na grande cidade, no atelier de costura de que hoje é co-proprietária. Revela profundas preocupações sociais, contribui financeiramente para a formação académica de uma prima de cuja existência andou perdida e não se lhe conhecem antecedentes criminais” – lia-se. É aquele belo exemplar de mulher, de perfil quase angélico, sobre quem recaem enormes suspeitas de quatro crimes de homicídio qualificado, que o judeu Jeff Cohen, americano nascido em Bóston e há dez anos residente em Paris, colaborador da judiciária portuguesa em terras de França, tem de acompanhar passo-a-passo a partir de hoje. Mata-Moscas avisou-o: as boas aparências às vezes escondem espíritos negros e sombrios, capazes das mais terríveis atrocidades, pelo que todo o cuidado é pouco. Jeff não teme nenhum desafio por mais arriscado que seja. As experiências vividas e dissecadas ao longo da sua extensa e brilhante folha de serviços vacinaram-no contra todos os perigos, os mais imprevisíveis e delicados, os mais complexos e transcendentes, pelo que o “pessoal” da “Judite” que dirige as operações em Lisboa pode ficar tranquilo – Madalena não tem hipóteses de escapar ao seu olhar de lince. Ele vai viver em função do que ela viver e ao ritmo da vida que ela fizer. Jeff será o espelho dela, a sua sombra em cada momento, esteja ela onde estiver, vá ela para onde for. Nada escapará ao faro profissional do judeu americano de Paris mais português de que há memória na história da Polícia Judiciária! Não há dúvida: quanto a Madalena, estamos conversados. O inspector pode descansar, que ela vai ser seguramente mantida “debaixo de olho” e sobre rédea curta. No que respeita ao Rosa, a coisa também parece tranquila e pacífica: ele está sob escuta e a sua “queridinha” esposa tão cedo não o deixa pôr os pés na rua! Relativamente à Vanessa, o “chefe” decidiu assumir pessoalmente a função de a vigiar e com ele nada falha. O seu grau de eficácia nas tarefas a que se propõe é de tal forma elevado que a “coisa” está segura. Resta-nos a Sónia. Quanto a esta, para já, a estratégia é ligar-lhe anonimamente para casa de quando em vez e aparecer uma vez por outra no politécnico às horas em que ela tem aulas ou junto da seguradora onde mantém um matutino part-time. Há cerca de uma hora atrás ela estava em casa. Mata Moscas volta a ligar-lhe e se Sónia atender o telefone, ele pode ir finalmente descansar, que amanhã também é dia de serviço. “Mas, que raio, ela não atende. São dez e meia da noite e a pequena não está em casa!…” – pensou, com ar grave, o detective Abílio Mata Moscas, ao mesmo tempo que coçava mais uma vez a sua pequena careca reluzente e mordia o seu farto bigode com os dentes do maxilar inferior. Sónia tinha acabado de sair no preciso momento em que Mata-Moscas decidiu ligar-lhe para casa pela segunda vez naquela noite. Ela tinha recebido alguns minutos antes um telefonema de Vanessa a reclamar a sua presença em Lisboa, nas docas de Alcântara, para um “servicinho de luz branca”. A priminha da “emigrante” Madalena não perdeu tempo. Vestiu à pressa os jeans mais justos que possui no seu guarda-roupa, calçou uns ténis cor-de-rosa salpicados de estrelas azuis que lhe dão um ar gaiato e provocador, trocou a camisa largueirona e desbotada que usa no seu dia-a-dia de casa por uma T’Shirt anã que lhe destapa o seu tentador umbigo, soltou os cabelos ao vento, pegou no carro e lá foi ela, “acelerador a fundo”, rumo à capital. O seu velho Fiat na A2 treme por todos os lados, com um ruído de chapa capaz de fazer perder a cabeça a um santo surdo. Sónia, que já conhece muito bem as manhas daquela máquina dos anos oitenta do século passado, vai dizendo baixinho e a sorrir: “vá, ‘treme-treme’, vamos depressa que serviço é serviço e a vida não está fácil para ninguém. Se te portares bem, amanhã encho-te o depósito antes de ir ter com o tal inspector ‘não sei quantos’ à Judiciária”. A noite está cálida e clara. É tanta a gente que passeia junto ao rio que até parece que Lisboa resolveu sair à rua para festejar a chegada do verão nas docas de Alcântara. A luz da lua, gorda de cheia, deixa ver o Tejo em toda a sua extensão entre margens, calmo, como se estivesse dormindo, protegido pelas estrelas que guiam os justos e embalado pelo som do voo das gaivotas. No outro lado do rio, Cristo, o todo poderoso, envolve a cidade com os seus longos braços abertos numa bênção dos céus. Ali bem perto, Sónia prepara-se para atravessar a ponte ao volante do seu velho Fiat de vinte anos que quase desmaia aos roncos quando pára junto da portagem. O portageiro sorri descaradamente de troça, mas ela nem dá por isso, ou simplesmente não quer tomar conhecimento, porque, apesar do aspecto, o seu “treme-treme” “gasta” pouco e chega sempre onde chegam todos os outros carros. Mais devagar, mas chega. A verdade é que saiu de Troino há pouco mais de quarenta minutos e ela já consegue ver ao longe, da ponte, Lisboa e as suas docas. António Jorge e Vanessa passeiam junto ao Tejo, falando de banalidades, numa conversa feita de lugares comuns e de frases feitas, como se as palavras de ambos apenas quisessem encobrir o que os dois pensam de facto. Ele fazia conjecturas menos profissionais do que devia, mais interessado na mulher do que na “suspeita”, mais preocupado em ser “caçador” do que em ser polícia. Ela tinha o pensamento em Sónia e num estranho plano que as duas vinham arquitectando há já algum tempo e que têm adiado por falta “caça” apropriada. Ao passarem por uma esplanada muito animada, com gente muito jovem, António Jorge propõe que se sentem. Vanessa sugere um local mais discreto e menos ruidoso, que ela conhece, um pouco mais adiante. Um candeeiro de via pública apagado e quatro mesas abandonadas de uma esplanada sombria, na periferia da animação que nasce no Cais do Sodré e acaba ali, já quase em Belém, é o que primeiro se retém do local escolhido pela brasileira. O inspector tomou aquela escolha como um convite a uma maior intimidade e pegou-lhe na mão. Ela não o repeliu. Sentou-se a um sinal dele e respirou fundo. António Jorge “avançou” mais um pouco e os seus lábios poisaram ao de leve na palma da mão direita de Vanessa. De súbito, e antes que António Jorge progredisse ainda mais nos seus devaneios, a empregada do “Pão de Canela” levantou-se. “Olha quem ali vem. Sónia! Sónia! Sónia!” “Muito prazer. O meu nome é António Jorge”. Sónia ficou paralisada de medo. Aquela voz é a mesma do telefonema da tarde… e o nome. Meu Deus!… Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Abril de 2004 |
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© DANIEL FALCÃO |
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