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Capítulo 8
(propostas) Inspector Moka |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 8 Proposta de Inspector
Moka O
surpreendente aparecimento da prima Sónia fez António Jorge constatar como as
coincidências, ou pseudo coincidências, podem
trazer chuva na eira e sol no nabal. Certo das mentiras da “priminha”, já que
lhe tinha estendido a armadilha do 977081006 que ela infantilmente “mordera”.
Agora, era António Jorge que se esbofeteava por dentro por, com a surpresa,
ter piado audível e desnecessariamente o seu próprio nome! Podia ter apertado
com convicção o braço da Vanessa, em lugar de estar perdido na chuchadeira de
lhe beijocar a mão... e, calando-a, voltar a dominar os acontecimentos. É
que, relembrava, este caso já lhe trouxera outros inesperados cruzamentos,
sacados do buscador informático da “Judite”. “António
Ferreira Neto”, entre aspas, levara aí ao achamento do cadáver
mas conduzira também a uma inesperada pista que começava pela cópia da
pungente carta que um Narciso Filipe, o “Pinguinhas”, tinha escrito meses
antes ao Presidente da Câmara de um ridente concelho estremenho. Recebido nos
Paços do Concelho com outros dois colegas e representando assim 60% da força
de trabalho da falida “Resineira de Santa Leocádia”, relatara como os
trabalhadores da mesma, vencimentos perdidos, deserção do patronato, mal sucedida recuperação de empresa e explicação confusa
de procedimentos, se sentiam espoliados do pouco que ainda restava antes das
portas serem definitivamente fechadas e o terreno desocupado para fins
imobiliários. Ouviu-o o atento presidente, solene como convinha, instalado
entre a bandeira nacional e um busto da República, generosamente patriota. Certo
era que, de há muito, os negócios daquela empresa não andavam bem! Quanto à
“massa” em caixa, então nem se fala! Os donos permaneciam biombados
num anónimo vão de escada gibraltino, o gerente catalão não punha os pés no
estabelecimento e a zona de produção só se manteve menosmalmente
enquanto por ali andou o Eng. Lobato. Farto de promessas por cumprir, o
Lobato acabou por ir de frosque e deixou o quiosque
ainda mais desamparado. Veio
então outro engenheiro, António Ferreira Neto, que logo mostrou preocupar-se
muito com o reactor grande e pertences, tudo
comprado em Itália, num mercado de equipamento químico em segunda mão.
Mediu-o, fotografou-o e pediu ao José da Costa que, daquele amontoado chamado
arquivo, destacasse todos os desenhos e documentação que lhe respeitassem. O
processo de recuperação de empresas dera já o que tinha a dar. Continuavam a
não pagar vencimentos, primeiro em partes, depois no todo. O dinheiro
mantinha-se em “nenhum” e os credores “em muitos”. Destes, os principais,
tinham-se entendido bem quanto ao espaço e nada quanto à viabilização
industrial. Criaram-se duas sociedades, a imobiliária e a outra, remetendo
para esta o pessoal. Recusando saídas claramente abaixo do que pensavam poder
esperar, os trabalhadores limitavam-se a vigiar o espaço que fora também
deles, sem outro sítio para onde ir ou esperança a que recorrer. A falência
tornara-se um facto real e um reaparecido António Neto viera desempenhar
pouco claras funções dentro de um processo que parecia não mais ter fim.
Assim, foi com dificuldade que o regressado engenheiro lá os convenceu,
naquele fim de ano de 2001, a abandonar os portões entre o Natal e o dia de
Reis com o argumento de que, findas essas duas semanas, estaria a tempo de os
readmitir e de reatar a produção com um rentável fabrico a feitio que iria
contratar, matérias-primas da conta do cliente, produto a levantar contra
dinheiro fresco, deixando-os então imediatamente compensados de tudo o que
por agora se lhes ficara a dever. Entretanto, durante as festas, a fábrica
ficaria fechada a cadeado, ninguém se chatearia por isso e pronto! Foi
com surpresa e revolta que, regressado em Janeiro, o
pessoal se apercebeu da ardilosa saída do reactor
grande e suas adjacências. Um vizinho da fábrica contou que, no fim de uma
daquelas tardes de festa, tinha chegado um camião coberto, de matrícula
espanhola, que entrara às arrecuas no pátio e que só saíra na manhã seguinte.
Um tipo mal encarado apareceu na venda, comprou
conservas e cerveja e, em provocada conversa, disse terem vindo trazer uns
bidons de matérias-primas para o novo fabrico. Confortou os presentes com
isso, a ponto de gerar um passa-palavra tranquilizador. E de facto os bidons
lá estavam, mas usados, amolgados e vazios, verdadeiramente de “para
português ver”. Dos
adquirentes da firma nem notícia, do Eng. Neto muito menos, só tinha
aparecido por ali o advogado da imobiliária a verificar se o espaço estava já
liberto. Apertado com perguntas foi evasivo: o processo de falência estava
concluído, os trabalhadores teriam direitos certamente acautelados. Quanto ao
reactor, fez-se de novas e disse que de nada sabia,
arriscando que poderia ter sido vendido como sucata ou até devolvido aos seus
legítimos proprietários pois constara-lhe que tal equipamento nem sequer
tinha sido totalmente pago. Assunto entre o tribunal e os credores e de
disposição da massa falida, em extensão que não sabia o falante precisar. Logo
a seguir à constatação do despojamento, Narciso “Pinguinhas” e colegas
subiram ao escritório e arquivo para ver se ainda lá estavam as coisas que o
José da Costa coleccionara para o António Neto.
Faltava tudo isso e não só, onde só restava a memória: o José da Costa
lembrava-se do que colocara junto da secretária do interessado engenheiro,
dos desenhos do reactor, enfiados em envelopes
entretelados e azuis, dos dossiers de correspondência, de duas ou três
pesadas caixas de madeira que continham os manuais técnicos e os livros
diários de fabrico. E
agora, senhor presidente, aqui estamos para lhe narrar isto, pedir-lhe as
providências da Câmara e um aconselho sobre o que devemos fazer?! Só
me saem duques do baralho, pensou o presidente! E começou o “discurso-modelo
três” dos momentos desgraçados de crise. Sabem, meus amigos, não há muito que
a Câmara possa fazer nestes casos. Falem já com o vosso sindicato e com o
vosso advogado, aquele que o sindicato designou e que acompanhou o processo e
expliquem-lhes tudo tim-tim por tim-tim. Recordem os elementos que puderem
sobre isso do reactor, do camião e dos documentos.
pois pode ser preciso ir ao tribunal ou à guarda falar-lhes nisso ou, sei lá,
formalizar mesmo uma queixa, no caso da saída ter
sido irregular. Mas, sem dúvida, comecem é já pelo sindicato e pelo vosso
advogado. Hoje mesmo! E só por curiosidade, qual é o tamanho daquilo? E o
material, qual é? Ah, um inox especial… está bem de ver! Há sucateiros por aí
que adoram inox! Poderia aquilo interessar a alguém tal como está? Dizem
vocês que daria para fazer quase tudo… essa é boa! Digam isso também ao
advogado e, se for preciso, ao delegado, à guarda, à direcção
regional do ministério da economia, já agora, e aos rapazes do ambiente, que
são muito sensíveis a essas coisas… Por ora, não vos vejo outra solução.
Sindicato e advogado já! Nisto de crises, os principais pagadores acabam
sempre por ser os mesmos… como na história do mexilhão! Agora desculpem,
tenho de ir inaugurar o espaço para o futesal no Abelhense. Obra asseada! Entramos com um subsídio para
aquilo… E digam-me coisas do que resultar! Sempre à vossa disposição! Mexeram-se
bem os rapazes, como lhes tinha sido dito. Ou pelo sindicato, pelo tribunal
ou pela guarda, a verdade é que parecia ter havido um descaminho de
património em processo pendente. O nome de António Ferreira Neto vinha-lhe
enrolado e o computador dera com ele. Curioso! Os
desenhos deixados no “carro do morto” batiam certo com o tal panelão fabril algures desviado. O 977081006, “número não
atribuído”, reincidia no computador através, também, do pícaro negócio que se
passara “em casa do Oropesa”. Até segundos atrás pudera esperar que a tal Sónia lhe viesse amanhã dizer algo de interessante! Jogava na surpresa, no cenário, no enquadramento, no “acagaça-se um bocadinho, lacrimeja o suficiente e acaba por cantar tudo”! E agora tinha-a ali, desnecessariamente ali, uma verdadeira porra de incomodidade e uma potencial nuvem negra a fazer mais negrume numa noitada que esperava radiosa! Jogando nas vantagens dos inconvenientes, olhava a brasileira ao seu lado e a prima à sua frente, deixando vir-lhe à esquentada cabeça quantos significados bizarros se podem utilmente apegar ao anglicismo “sanduíche”! Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Maio de 2004 |
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© DANIEL FALCÃO |
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