INTRÓITO

Uma iniciativa inédita nas páginas do Código Secreto

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EPISÓDIO 2.

O MISTERIOSO DR. FORTES

Joe Lance

Após ter ouvido as “amáveis” palavras do Dr. Fortes, olhei-o de alto a baixo, dizendo para os meus botões que, embora todos os habitantes da aldeia recorressem aos serviços do médico, que há alguns anos se tinha vindo instalar naquele lugar escondido no meio da serra, ninguém sabia ao certo quem ele era, nem de onde tinha vindo.

Senhor de uma forte compleição física, reforçada pelo morenão tropical que lhe cobria os poros da pele, o Dr. Fortes nunca deixava escapar uma palavra, onde uma pessoa de inteligência média não poderia deixar de reconhecer a existência de um estudo prévio à sua pronúncia. Parecia esconder qualquer coisa de muito grave, que tinha o máximo cuidado em ocultar.

Na aldeia corria a história, em que os mais crédulos acreditavam piamente, que o Dr. Fortes vivera na África portuguesa, mais propriamente em Moçambique, e que aí fizera tais atrocidades aos negros que só escapara com vida e regressara a Portugal, após a independência daquela ex-colónia, graças a uma fuga rocambolesca que não ficara a dever nada a qualquer boa história de “suspense”. A crendice local ia ainda mais longe, e afirmava que o exílio do Dr. Fortes naquele ermo, perdido, tinha como objectivo esconder-se dos serviços secretos do novo país, que o procuravam afanosamente para o fazer pagar a dívida que tinha para com a raça negra.

Abstraí-me dos meus pensamentos e do mito popular que envolvia a personagem, lançando-lhe um olhar dissimulado, mas penetrante. Sem que desse conta, percorri-lhe todo o corpo, como se os meus olhos fossem munidos de uma potente lupa, detendo-me fracções de segundo nos mais pequenos detalhes. Tudo estava normal, exceptuando um pequeno pormenor que logo me intrigou.

As unhas da sua mão esquerda – a mesma que levantou em tom ameaçador quando me chamou, indirectamente, parvo – estavam cheias de uma finíssima serradura.

 “Não vale a pena zangar-se com o que acabo de dizer. O que for se verá. Não há crimes perfeitos. Deixe que me apresente – disse-lhe estendendo a mão – O meu nome é EFE... EFE Mendes”.

 

Fontes:

Secção Código Secreto nº 217, 28 de Abril de 1988

Blogue Repórter de Ocasião, 15 de Abril de 2026

 

© DANIEL FALCÃO