Autor

José Augusto da Silva

 

Data

25 de Julho de 1957

 

Secção

Quem Foi? [127]

 

Competição

Torneio "Detective Sem Nome"

 

Publicação

Mundo de Aventuras [415]

 

 

A MORTE FOI À BIBLIOTECA

José Augusto da Silva

 

Era uma noite de rigoroso inverno. O inspector Pinheiro, còmodamente recostado numa poltrona no seu gabinete particular, dispunha-se a mergulhar na leitura amena da sua revista dilecta quando, abruptamente, a campainha do telefone retiniu.

Com uma praga atendeu.

– Estou… Sou, sim. Guerra! Carlos Guerra? Lembro-me, sim… O quê? Mas… Está bem… Irei Imediatamente…

 

O vento começara a soprar forte, e no céu espessas nuvens negras ameaçavam chuva quando o inspector Pinheiro chegou à residência do rico industrial Carlos Guerra, sita num dos mais aristocratas bairros da capital. Eram 23 horas e 20 minutos.

Um criado apressou-se a conduzi-lo à biblioteca, onde, caído por detrás de vasta mesa, jazia o corpo sem vida do industrial.

O inspector inclinou-se sobre o corpo e verificou que a morte havia sido causada por um tiro no peito.

Maquinalmente, sacou do canhenho e dispunha-se a colher elementos do criado, quando bateram à porta. Ele próprio foi atender. Era o médico legista que chegava.

Após breve e superficial exame ao corpo, este informou o inspector de que a morte deveria ter ocorrido há cerca de uma hora.

Posto isto, o inspector dispôs-se a ouvir o criado, que, nervosamente, começou a falar:

– Chamo-me António Ramiro, e estou ao serviço desta casa há um bom par de anos. O senhor gostava muito de mim e eu, sinceramente, retribuía o seu afecto.

– Que fez entre as 22,30 e 23,30 horas? – interrompeu o inspector, disposto a entrar directamente no assunto.

– Bem… estive a ler o jornal, e depois saí a fim de executar uma ordem do patrão.

– Que lhe mandou ele fazer?

– Pediu-me que procurasse no clube um tal Rui Seabra, e que lhe dissesse que não esperasse por ele, por estar adoentado.

– Mas, porque não utilizou o seu patrão o telefone?

– Pela simples razão de estar avariado, senhor inspector.

O inspector abeirou-se do telefone e constatou que, com efeito, o criado não mentia.

– Muito bem. Prossiga…

– Depois de ter transmitido o recado ao tal Seabra, que me pareceu ficar desapontado, regressei imediatamente a casa. Estranhei vir encontrar apenas encostada a porta da rua, dado que tinha a certeza de a ter fechado. Dirigi-me logo para aqui… e é tudo!

– Havia mais alguém em casa quando saiu?

– Não, senhor inspector. Um primo do senhor Guerra, que também vive cá, estava fora há já algumas horas. Deve estar a chegar, pois disse que regressaria a esta hora, pouco mais ou menos.

O inspector olhou o relógio e deixou-se cair num maple. Era meia noite e dez.

– Por ora não necessito de si, caro doutor – disse para o médico. – Esperarei pelo seu relatório. Boa noite!

Era meia noite e meia hora quando o primo da vítima chegou.

Em poucas palavras, o inspector pô-lo ao corrente do que se passara. O homem ficou estupefacto ante a triste notícia. Não podia crer no que via e ouvira.

– Agora, que já sabe da morte do seu primo, espero que me diga por onde andou e o que fez desde que deixou a casa. Desculpe-me, mas são formalidades…

– Fui direito a um café, onde escrevi uma carta para um amigo meu que reside cm Faro. Eram 23 horas e 15 minutos quando entrei na Estação do Rossio, tendo registado a carta, que era urgente, pelo que comprei o selo respectivo. Tinha todo o interesse de que a carta chegasse amanhã ao seu destino. Lembro-me de que o empregado teve certa dificuldade em fazer o troco dos 2$30… Bem, isto não lhe interessa certamente.

– Como pode o senhor precisar o momento em que chegou à Estação, se não usa relógio, o que estou verificando?

– Casualmente, olhei o relógio à entrada da «gare».

– Absolutamente admissível. E que fez depois?

– Regressei ao café, e ali joguei uma partida de bilhar com uns amigos, após o que regressei aqui. E é quanto posso adiantar, inspector…

 

Na manhã do dia seguinte, o inspector Pinheiro ordenava a captura de um dos dois homens, acusado de ter morto o industrial Carlos Guerra.

 

PERGUNTA-SE:

– Quem recebeu voz de prisão?

– Quais os pormenores que o levam a fazer semelhante afirmação?

 

 

© DANIEL FALCÃO