Autor

Sete de Espadas

 

Secção

Em Fim de Livro

 

Competição

I Torneio

Problema nº 2

 

Publicação

Colecção XIS – nº 29

 

 

 

 

 

 

 

UMA SOCIEDADE DESFEITA…

Sete de Espadas

 

Começamos assim:

A cena passa-se em Lisboa, entre dois desenhadores que constituíram uma sociedade. Há tempos já que desconfiam um do outro, e naquela noite…

… Cerca das 23 horas e 30, o telefone tocou no gabinete do Inspector Caldas Payo.

Até aqui, nada de extraordinário. Mas como sabemos que o Inspector é o chefe duma das Brigadas de Homicídio, sabemos já do que se deve tratar… Acompanhamo-lo, com o seu inseparável sobrinho RICARDO Jorge.

O carro parou em frente dum velho edifício.

 

Depois desta abertura, façamos uma descrição do local:

 

As salas de desenho situavam-se no primeiro andar do edifício e subindo a escada de degraus carcomidos, deparámos com o corpo, no escuro corredor, caído de bruços, com a cabeça muito perto do primeiro degrau da escada. Os braços, atirados para a frente, o chapéu mais além, quase a meio do patamar, e nas costas, atravessando o impermeável azul, o casaco e a camisa, um furo – e à volta dele, manchas de sangue. Junto ao rodapé do corredor, à direita do corpo, uma pistola com impressões digitais (aqui, para nos segurarmos, o narrador afirma:) – que depois se averiguou pertencerem ao morto – e mais além, uma cápsula dessa arma, recentemente deflagrada.

 

Isto viu o narrador logo ao subir a escada. E até à sala de desenho…

 

Passámos duas portas à direita e entrámos na terceira – um dos gabinetes de desenho. Logo à entrada, quase a tocarem na meia porta fechada, dois grossos casquilhos, mostrando pertencer a fortes lâmpadas, e vidros das mesmas.

Ao fundo do gabinete, uma ampla mesa com diversos desenhos, vário material e tintas – com um pequeno candeeiro de mesa ligado à parede, de lâmpada acesa, única iluminação no aposento. As duas enormes suspensões sobre a mesa de trabalho e a um metro desta, no sentido da altura, não tinham lâmpadas.

 

E pronto. Estas foram as observações colhidas no primeiro momento, descrevendo-se as várias cenas e os respectivos objectos, que podem, ou não, ter interesse para a solução do caso. Depois disto, só nos resta uma coisa; ouvir e interrogar o único suspeito, neste caso. Vejamos como se porta ante o olhar profundo e quase magnético do Inspector Caldas Payo. 

 

- «Estava a trabalhar neste gabinete, desde as 21 horas, no máximo silêncio – declara Eugénio Rodrigues – quando senti passos cautelosos no corredor. Como único inquilino ainda em serão e sem nada poder fazer de momento, apaguei as luzes. Depois, desenrosquei as fortes e pesadas lâmpadas de cima, preparando-me assim, com uma em cada mão, para fazer face ao intruso. Senti abrir ligeiramente a porta e distingui um vulto. Nessa altura, lancei, uma após outra, as duas potentes lâmpadas, que se partiram com dois estampidos que mais pareciam dois tiros. Pressenti o vulto a retroceder e fugir. Corri para a porta e ao passar pelo meu casaco colocado no bengaleiro, à entrada, tirei a pistola e fui também para o corredor. E logo soaram dois tiros – o dele e o meu! Depois uma queda e silêncio. Aproximei-me e acendi o meu isqueiro – no corredor não há luz, porque a única claridade é a fornecida pela lâmpada à entrada, no vestíbulo do rés-do-chão – e foi então que percebi que tinha atingido o meu sócio. Procurei-lhe o pulso - e nada. Estava morto e com um só tiro, dado na escuridão. Mas enfim, podia ter sido eu o atingido e há que verificar que agi em defesa própria – e o mesmo já não posso dizer dele, com os seus passos furtivos e a sua fuga».

 

Xis- Bem, bem! Isso não tem interesse – cortou o Inspector. – E depois?

- «Pouco mais. Acendi a luz deste pequeno candeeiro; telefonei aos senhores e ao médico – que ainda não chegou; juntei os vidros das lâmpadas, para não estarem por aí espalhados e com tanto azar o fiz que cortei estes dois dedos – e mostrou o indicador e o polegar da mão direita, onde, de facto, somente se viam os dois golpes».

E mais não disse o único suspeito e o narrador volta a descrever:

A sua pistola estava sobre a mesa, faltava-lhe uma bala e a cápsula foi encontrada junto à porta, fora, no corredor.

 

Chegámos ao fim da história e fechamo-la com os seguintes comentários:

 

O Inspector resmungou um hum! hum! e depois disse, frisando bem as palavras:

- O senhor considere-se preso. Há mais de 20 minutos que nos está a contar mentiras sobre mentiras – pensando talvez que o seu plano estava bem arquitectado e bem defendido. Enganou-se e falhou redondamente, amigo, pois se esqueceu de muita coisa que não devia ter esquecido, ou melhor: que não se dariam assim, no caso de nos estar a dizer a verdade. E assim, esqueceu lamentavelmente, que o crime não compensa.

E voltando-se para o sobrinho, o nosso jovem amigo e camarada de jornada, Ricardo Jorge:

- Aí tens mais uma ideia para os teus problemazinhos… Como viste, na vida real, os criminosos também sabem mentir… Nada lhes vale, porque a Justiça não dorme na defesa dos bens e das vidas do nosso semelhante.

E numa transição:

- Já agora, responde-me:

 

1.º - Porque verifiquei que o homem mentia?

2.º - Onde está o seu maior erro?

3.º - És capaz de me apresentar uma dedução lógica, focando os factos necessários e basilares?

© DANIEL FALCÃO