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22 de Março
de 1957. É publicado, na revista “Flama”, o 1º número da Secção “O Gosto do Mistério…”,
orientada por Jartur – curiosamente, por lapso tipográfico, identificado como
“Mr. Dartur”. Domingos
Cabral, com 15 anos completados recentemente, responde ao problema naquela
inserido – “O Táxi Misterioso”, transformando, assim, em “casamento” o
“namoro” que à modalidade vinha fazendo há algum tempo, através do contacto
com a Secção do “Mundo de Aventuras”, de que era leitor há alguns anos. Sabendo,
por isso, que era habitual o uso de pseudónimo, e perante a dificuldade que
sentiu na escolha, rápida, de um, acabou, por associação, por perfilhar o
“Inspector Aranha”. É que, naquele problema, o investigador (Marcos Dias),
concebido pelo Autor (Jartur), após resolver o caso, dirige–se para o “Clube
do Aranhiço”. Escolha pouco feliz, de facto, já que ninguém inicia a
construção de um edifício pelo telhado e o principiante começava, nada
modestamente, por se designar “Inspector”… De qualquer forma, iniciou–se,
assim, um longo caminho… In Mundo dos Passatempos, 1 de Setembro de 2007 Correio Policial, 24 de Dezembro de 2021 |
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA por DOMINGOS CABRAL
(do livro com o mesmo título, a editar) 67 3º PARTE – CICLO SECÇÃO “PROBLEMA POLICIAL”
– DE A. ARAÚJO PEREIRA SEMANÁRIO JUVENIL “O MOSQUITO”
Problema n° 17 O inspector Rosan
passava perto dum desfiladeiro talhado na rocha, quando ouviu gritos
provenientes da planície que se encontrava a seus pés e viu dois homens que
tentavam trazer um outro que se debatia. Procurou um caminho que
lhe permitisse chegar perto dos contendores e não viu senão um, a 50 metros
de distância, aproximadamente. Correu nesse sentido e depressa se juntou ao
estranho grupo. O homem que agarravam vestia um fato azul. Os seus
perseguidores trajavam, um de caçador e o outro de jardineiro. – Que se passa? –
inquiriu Rosan. O que vestia de caçador,
respondeu: – Chamo-me André Tagrat
e sou o proprietário daquela vivenda lá no alto. Este homem, a quem eu dera
hospitalidade, aproveitou-se de uma breve ausência minha, roubando-me oito
mil escudos que eu deixara sobre a secretária. Tentou depois fugir, mas, com
a ajuda do meu jardineiro corri em sua perseguição. Ele desceu o
desfiladeiro, enquanto que nós nos encaminhámos pela vereda. Quando o
apanhámos, revistámo-lo, mas não encontrámos os oito mil escudos;
evidentemente desfez-se deles durante a fuga… O homem vestido de azul
protestava a sua inocência: – É falso. Este homem
atacou-me neste caminho deserto para se apoderar duma letra que eu lhe vinha
cobrar… Deve-me vinte e cinco mil escudos. – Não sei se é verdade,
respondeu Rosan, – no entanto o seu acusador mente. PORQUÊ? * * * Problema n° 18 – Meu caro Rosan, não há
dúvida que se trata de um suicídio, – dizia o chefe da polícia, – mas não
encontro a forma como a vítima se enforcou. – De facto, é estranho, –
disse Rosan, – que profissão tinha? – Era carroceiro da
fábrica de cerveja. Rosan inspecionou
cuidadosamente o quarto, onde, além de um fogão de parede, que se encontrava
aceso, e de uma grande poça de água no sobrado, precisamente partindo do
sítio sobre o qual se balouçava o corpo do infeliz, nada mais havia. Nem o
mais pequeno móvel, nenhum pequeno móvel, nada… De que se serviria a
vítima para atingir a altura a que se enforcara? De súbito, Rosan
exclamou: – Encontrei! E O LEITOR? * * * Solução do
problema nº 17 Se a vereda permitia
chegar à planície mais rapidamente que descendo o desfiladeiro, o homem
vestido de azul, que poderia escolher à vontade, tê-la-ia preferido. Se pelo contrário, o
desfiladeiro não encurtava caminho, os dois perseguidores não o podiam ter
alcançado. Portanto, o homem
vestido de caçador mentia. Solução do
problema nº 18 Facilmente se conclui
que o suicida utilizara uma pedra de gelo, que com alguma rapidez se derreteu
com o calor emanado do fogão que se encontrava aceso – como demonstrava a
poça de água no sobrado. * * * CONSIDERANDOS E continuam os problemas
muito curtos, de textos pouco trabalhados, de fácil resolução (mais o segundo
que o primeiro, como é obvio – e por isso a significativa diferença no número
de respostas recebidas), e sem o recurso a imagens gráficas. * * * CHUVA E LÁGRIMAS DE NATAL Conto de NATÉRCIA LEITE Caía uma chuva intensa e
gelada, mas apesar disso as ruas estavam cheias de gente e as lojas
profusamente iluminadas. A mulher aconchegou mais
o casaco ao corpo magro e levantou tanto quanto pode a gola no pescoço. Do
chapéu-de-chuva escorriam torrentes de água. Apressou o passo furando
por entre a multidão que se agitava nos passeios, nas suas compras, e pensou
o quanto as suas tinham sido poucas e mais que modestas. Quedou-se depois
abismada na montra duma pastelaria onde, dispostos em vários andares, os
doces e os bolos eram uma tentação. Vinha do interior da
loja um calor morno de forno e um cheiro delicado de doçaria. A mulher olhou
a montra e viu aquelas maravilhas. Chamou-lhe a atenção um bolo grande,
redondo, coberto de chocolate e coco ralado, que seria exactamente ao gosto
de Fredie. Chocolate e coco. Os preços estavam
marcados. Para ela eram pequenas fortunas. Há cinco anos que os Natais eram
tristes e solitários com Fredie na prisão cumprindo a sua pena. Criara o seu filho com
tanto amor e cuidados, mas desde pequeno fora uma luta constante com a sua
rebeldia e revolta, com a pobreza, a vida que a mãe levava, o meio que o
rodeava. Adolescente, tinham
começado os primeiros delitos e a vida da mãe um sobressalto constante. Durante dias Fredie
desaparecia, sumia da vizinhança. De pequenas coisas sem importância de
maior, tornara-se um jovem marginal, revoltado contra tudo e contra todos -
tendo por único refúgio, consolo e consideração a mãe. Depois da casa de
correcção e da subsequente saída, Fredie parecera melhorar um pouco. Aida
arranjara alguns pequenos empregos, mas onde pouco tempo se mantivera. Conhecera Rosie e
acalmara. Rosie era doce e bonita e a mãe viu nela a salvação para o filho.
Mas Rosie trocara Fredie pelo filho mais velho do penhorista do bairro e
então Fredie ficara bravo de verdade. Foi nessa altura que
Fredie se meteu com péssimas companhias, dando pequenos golpes donde vinha
sempre com dinheiro. Até que deram o assalto na loja do penhorista (o que de
certo modo resultara da raiva e frustração de Fredie por aquela gente). Assalto à mão armada, o
penhorista bastante machucado, a loja escavacada. Dias depois tinham sido
apanhados e as penas, após o julgamento, foram pesadas. A velha mãe chorara de
meter dó e a solidão pesava-lhe de há 5 anos a esta parte como um tormento e
uma culpa. Não sabia em que faltara na educação do filho, e quanto mais o
aconselhava e o acarinhava mais rebelde ele lhe parecia em relação ao meio e
à sociedade. A mulher abriu a bolsa e
contou o dinheiro que possuía. No dia seguinte iria visitar o filho,
levar-lhe umas pequenas lembranças e, se pudesse, aquele maravilhoso bolo de
coco e chocolate. Entrou na loja e fez a
sua compra. O bolo ficou muito bem-acondicionado numa caixa de cartão com um
bonito papel de fantasia no exterior e uma fita colorida. Sempre que visitava o
filho voltava mais esperançada. Os assistentes sociais, o psicólogo, o
próprio director falavam-lhe bem de Fredie. O seu comportamento era óptimo. –
quem sabe não cumpriria a pena toda… Trabalhava na pensão em
relojoaria e tomara o gosto… Ansiava sempre pelas visitas da mãe – que o
achava cada vez mais caído e mais triste. Ah, não poder modificar
a vida, viver uma outra casa com outras condições, num outro bairro de gente
ordeira e sossegada, ter um outro trabalho mais bem pago que aquele numa
fábrica de cartonagens. A mãe preparou,
temperou, cozinhou um frango. Pôs de lado a fruta da época – belas, grandes e
sumarentas laranjas – o relógio barato que comprara a prestações, as meias
listradas de lã fina, a caixa de cartão com o belo bolo de Natal para Fredie. Algures em milhares de
casas haveria ceias alegres, luzes, lareiras acesas, bebidas boas jorrando. E
muita luz! Ali era escuro, pobre,
triste. A mãe arrumou as suas
coisas e preparou-se para se deitar. Foi olhar por detrás dos vidros. Chovia
ainda copiosamente. A chuva batia nos vidros e escorria. A escorrer pareciam
lágrimas de um choro desfeito. Amanheceu triste,
cinzento e chuvoso na mesma. A mãe levantou-se e vestiu o seu robe sem forma
e quase sem cor. Estava frio no quarto.
Andou de um lado para o outro arrumando coisas e preparando tudo para ir
visitar Fredie – levar umas migalhas de Natal a Fredie. Bebeu o seu café com o
pão da manhã. Estava pensando que o
seu "menino" iria ficar encantado com o enorme bolo de chocolate e
coco. Ainda faltavam dois ou
três Natais em que passaria só e triste. Mas depois tinha fé que o seu Fredie
tomasse tento na vida e enveredasse pelo caminho do bem e duma vida normal. Enquanto dava as suas
voltas pela pequena casa que procurava manter limpa e tanto quanto possível
acolhedora, as lágrimas corriam pelo rosto da mãe. Nos vidros, de igual
maneira escorria o pranto. Tocam à porta. Quem será? No dia de
Natal, no caso desta pobre viúva? Abre. É o seu Fredie – o seu Fredie que vem
com redução de pena, que a abraça e levanta ao ar –que mistura as lágrimas
com as dela. Ainda está aparvalhada.
Tonta, nem quer acreditar! O filho coloca-a no
chão, olha-a muito sério, afaga-lhe a face. Milagre de Natal – pensa
a mãe… Natal de Paz e Alegria,
com bolo de chocolate e coco. E cai chuva, escorre
chuva, escorrem lágrimas de felicidade.
Fontes: Secção Correio Policial, 24 de Dezembro
de 2021 | Domingos Cabral Blogue Repórter de
Ocasião, 15 de Setembro de 2026 | Luís Rodrigues |
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