|
Capítulo 9
(propostas) Inspector Moka |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 9 Proposta de Inspector Moka Não é fácil fazer uma sanduíche quando o fiambre se encontra preocupado – e esta metafórica expressão traduzia bem o sentir de António Jorge. Sempre aprendera que uma das qualidades do investigador é não acreditar nas coincidências, e – aparentemente – ali estava uma a ser-lhe servida em travessa, com batatinha na boca, como se ele a fosse comer ou ser comido. Imediatamente pensou como poderia raspar-se de uma forma minimamente airosa, certo de que a reacção quase imperceptível da moça lhe dera uma notícia de alarme e de que, dentro de horas, a deveria ter pela frente na «sala das perguntas» que prolongava o seu gabinete. Que se lixasse, pois, pelo menos por agora, o sonho fugazmente sonhado de substituir os lilases no «Le Printemps» de Tamara de Lempicka! Não havia tempo a perder! Só lhe restava uma habilidosa simulação, mandando-se para a piscina, arrastando consigo a toalha e o cinzeiro, murmurando um «não me estou a sentir bem», caindo com convicção e experiência de judoca, contando que não houvesse um médico prestimoso e próximo e esperando que fosse rápida e eficaz a redentora chegada do «nóninóni». Saiu-se bem! Quando o levaram, queixou-se de tremuras e suores frios. Com voz razoavelmente arrastada declarou ser diabético e não ser aquela a primeira crise. Passado o perigo, a recuperação daquele aparente episódio hipoglicémico iria revelar-se surpreendentemente rápida. O telefonema para Abílio Mata Moscas apanhou-o em cuecas, à mesa da sala de jantar, mais uma vez debruçado sobre a sua colecção de «Ceres». «Recolhedor do cuspo universal», como já alguém tinha apodado depreciativamente os filatelistas, este diligente funcionário policial era não menos cultor de tal actividade desde que, aos catorze anos, arrematara numa rifa beneficente, por tuta e meia, um velho album que alguém descarregara por imprestável para ali, mas que continha surpreendentes exemplares dos selos que, tendo sido os primeiros a arvorar valores em Escudos na jovem República, continuam a ser uma dor de cabeça favorita para muitos filatelistas portugueses. Mata-Moscas orgulhava-se da sua colecção que, secreta mas insistentemente, ia enriquecendo e estudando. Chegado tarde, depois do último telefonema para Sónia, o tal que ficara sem resposta e que, porque «encostado» à sessão do dia seguinte, iria repetir só mais uma vez às onze e meia, através da Central, estava por isso ainda desperto quando António Jorge lhe telefonou: – Ei, Chefe! Esperei por si até tarde… tenho seguido telefonicamente a Estudante…, que estava em casa às nove e meia da noite, mas já não estava às dez e meia, e como o Chefe não apareceu deixei-lhe uma mensagem na central telefónica e vim para casa… – Certo! Preferia que a fulana não andasse tão solta, mas isto da economia de meios… Agora note bem: amanhã você vai mais cedo para evitar fífias no cenário, ela aparece para falar comigo, você recebe-a sem dizer o seu ou o meu nome, ou nome algum, faz-lhe as perguntinhas que sabe dever fazer, tudo discretamente video-gravado, despacha-a com a nota de que voltaremos a querer falar com ela… ou avisa-me se acaso surgir algo de peixe grosso que justifique que a gente imediatamente a recolha no piso de cima… – Mas… e se a dita perguntar quem sou eu? –Vai ver que não pergunta, o que será muito significativo. Mas se perguntar, você diz que é um colaborador meu e que eu estou desde a manhã de hoje em serviço urgente fora de Lisboa! Registe toda e qualquer demonstração de surpresa. Ela está convencida que acaba de estar comigo nas docas e que eu me esquivei de qualquer artimanha que ela ou a Moreninha ou ambas me estariam a armar! Não dê o flanco: o seu chefe, hoje ou ontem, porque o dia já está a passar-se, não pôs mesmo o cu nas docas. Se havia um fulano parecido lá, seria certamente outro e não o seu chefe. Talvez alguém a passar-se por ele! Mas vai ver que ela não vai perguntar nada… Ok? – Certo, chefe! – Depois diga-me qualquer coisa! – Use o meu gabinete. Se quiser falar comigo, o único problema que tem é sair da sala e ligar pelo télélé ou pedir a ligação à Imprescindível, da secretária dela! Eu, entretanto, aproveito o dia para ir falar com o «Quiabos», ao quiosque dele. Vou até lá. Muito cedo, como convém, para o apanhar livre e fresquinho. Boa noite! No dia seguinte, a conversa com o «Quiabos», antecipada por um simples telefonema, iniciou-se na Faculdade às oito em ponto. Colega de António Jorge no liceu e amigos desde aí, o «Quiabos» tinha escolhido a Química e depois a Engenharia Química como actividade profissional e, mercê de uma dedicação furiosa, tinha facilmente subido na escala académica, sem desprezar uma componente profissional externa permanentemente actualizada. Muito embora a «instituição» que empregava António Jorge tivesse o seu próprio «staff» científico, os seus laboratórios e, bem assim, o seu rol de peritos, este costumava ouvir «à capucha» as opiniões daquele Zeferino Eleutério Ribeiro, de forte cepa ribatejana, mais conhecido pela insólita alcunha que celebrava a bem-sucedida tentativa de cultivar quiabeiros em Alpiarça. António Jorge relatou os factos anteriores em toda a sua nudez e complexidade, desde o desaparecimento do «reactor», até à cena parva de Oropesa, desde a morte de António Neto, engenheiro, até à suposta movimentação dos personagens. Exibiu os desenhos e esquemas cedidos pelos frustados trabalhadores e retirados do espólio recolhido no «carro do morto». Facultou registos e escritos, incluindo o estranho número que parecia de telemóvel, recolhido em dois sítios bem diferentes e motivador duma mentira num terceiro. O «Quiabos» ouviu tudo, com o comportamento gravador que todos lhe invejavam. Examinou meticulosamente os desenhos e documentos, traçando, a lápis, garatujas estenográficas em folhas A4 dobradas na vertical, formando caderno. Quis saber se havia notícia de alguém, pessoa singular ou colectiva, que se tivesse interessado pelo reactor, de algum ferro-velho conhecido que dele vendesse peças ou porções, de qualquer passagem de fronteira que fosse assinalada. – Sabes que com isto se pode fazer muita coisa, boa ou má? Que há gente que se pelaria por ter na mão um porta-aviões destes? – Por eu adivinhar mais ou menos isso e porque tudo me cheira a esturro nesta história é que eu venho ouvir a tua opinião e pedir as tuas sugestões! Que te parece? – Parece-me que, à pala de sucata, alguém quer uma prenda muito especial, é o que me parece. E, porque há legislação sobre estas coisas, temos que ver se não se aplica ou se está a ser «bypassada»! Para além do equipamento, resta saber o propósito. E é aí, em toda a restante caldeirada que inclui um furto na fabriqueta falida, a morte do engenheiro que andou metido nisso, o pretexto de uma gaja que vai para a estranja com embalagens e indicações que também a ligam ao caso e depois se pira daquela forma, que tudo me cheira mais a esturro! Mas esperemos que não seja nada. O povo é sereno… Para já vou fazer algumas contas, já tomei nota do essencial e dir-te-ei brevemente alguma coisa. Só ao fim da tarde voltou ao gabinete. Sabia já, pelo telefone, o que se tinha passado entre uma Sónia que de facto nada quis saber de quem tinha à frente e só mostrava vontade de, apavorada e perplexa. se pirar dali depressa, e um Mata-Moscas calvo e bigodudo que não era quem ela esperava que fosse, e que lhe prometeu que tudo não ficaria por ali, regressou a casa anormalmente cedo. Sem vontade de jantar, pois tinha aproveitado a tarde para entremear algumas «caapelinhas» com outras tantas livrarias, petiscando numas e noutras, deixou o tempo passar no exame de diversos dossiers pendentes e só despertou quando tocou o telemóvel, pelas dez da noite. Era o «Quiabos», em grande excitação, disparando logo: – Ouve lá, posso falar? Estás perto de algum computador? Que tenha «net»? – Podes! Estou no gabinete e tenho um dos computadores sempre ligado… e posso imediatamente ir à «net»! – Olha lá, o tal pseudo-número de telefone que me deste e que apareceu duas vezes era mesmo o 977081006? – Deixa ver! Era mesmo… – Então vai a um motor de pesquisa qualquer e consulta-o sobre o «CAS 77-81-6», assim mesmo, como te digo. Com espaço, hífens e tudo! – Um momento… estou a consultar! está … Porra! – Porra digo eu! Temos mesmo de conversar! – Pois temos…! Centaurea cyanus! – Lineu! Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Junho de 2004 |
|
© DANIEL FALCÃO |
|
|
|
|