Regulamento

Capítulo 8

Capítulo 9 (propostas)

Inspector Moka

Ma(r)ta Hari

 

 

 

 

 

 

 

 

PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

CAPÍTULO 9

Proposta de Ma(r)ta Hari

A noite está calma que nem criança dormindo no aconchego do leito materno; quente que nem peito de mulher abraçada ao amante há muito desejado em sonhos arrebatadores; … e Sónia treme que nem seara verde em madrugadas de ventos ciclónicos!... Correntes de suores frios, quase gelados, rebentam por todos os poros do seu jovem e delicado corpo de mulher ainda quase menina. A testa lateja, as pernas fraquejam. É de tal forma a sua súbita palidez que Vanessa fica preocupada: “Que tem, ‘minina’? Não está se sentido bem?”. António Jorge acerca-lhe uma cadeira e aconselha: “Sente-se. Tome um copo de água”. Sónia não quer absolutamente nada… a não ser, talvez, um buraco por onde tome sumiço, por onde desapareça no nada. O que se passa não se resume a um simples pesadelo de onde possa sair incólume com um despertar salvador. O que ela vê, ouve, sente, está mesmo a acontecer-lhe, não é ficção ou sonho! O sinistro plano engendrado há já algum tempo pela empregada do “Pão de Canela” tem de ser mais uma vez abortado. É muito arriscado, perigoso até, “meter” um polícia em tal façanha. Para mais, este não é um polícia qualquer. Ele sabe decerto muita coisa que não devia saber. E se ele sabe, outros polícias o saberão. É indispensável recuar, já! Tentou segredar algo nesse sentido a Vanessa mas não foi possível. António Jorge não se “desgruda” delas. Há até um sorriso malandro, assim como uma espécie de brilho de gigolo triunfante, nos olhos do inspector. Para ele, a experiência poderá até ter algo de erótico e de sensual: de um lado, tem uma brasileira boazona aparentemente no “papo”, caídinha por ele; do outro, tem uma jovem estudante atemorizada com algo que não consegue descortinar, mas que não deixará de ser estimulante para um “macho” que “tirou” a noite para uma aventura “a dois” e que de repente (“milagre, meu Deus!” – dirá ele) parece poder ser “a três”… Mas se ele soubesse o que o espera!...

Noutro canto da vida, no extremo oposto da grande cidade, num modesto mas recente e bem equipado apartamento de quatro assoalhadas, algures entre os “dormitórios” citadinos Olivais e Bela Vista, António Rosa está triste, pesaroso, desalentado. Acabou de deitar a prole nas suas camas e tem Otília à espera, sentada num sofá em frente à televisão, na sala de estar. Apetece-lhe estar só consigo mesmo, mas não vai ser possível porque ela já fez questão de lhe fazer saber que não deixará. Segundo ela, há muito, muitíssimo, para conversar! Durante o todo o jantar ele disse apenas meia dúzia de frases: “vai lavar as mãos, Rui; “traz o pão para a mesa, Rita”; “segura como deve ser na faca, Rui”; “deixa o teu irmão sossegado, Rita”; “deixem-se de brincadeiras, moços”; “passa-me a fruta, Otília”. E agora ali está ela, a mulher que lhe deu filhos e pouco mais, à espera que ele lhe conte tudo, “tim-tim por tim-tim”, desde que saiu de Lisboa, após a Páscoa, até ao seu regresso a casa. Mas o que lhe há-de ele contar? Que o seu coração não resistiu aos encantos de Madalena? Que o seu amor está todo ele naquela estranha mulher que o abandonou quase desfalecido, entregue à sorte, numa cama de hotel em Espanha, após uma sexualmente prometedora noite de copos e animação numa discoteca manhosa? Que Madalena o enfeitiçou de tal maneira que já nada será como dantes, em casa, com Otília e com os seus próprios filhos?… Que a modista, estilista, da Praça das Flores não é apenas a “mulher dos trapos”, como a designa Otília com desdém, só para rebaixar a rival com quem ele terá cometido, na sua opinião de fêmea ofendida, um “pequeno” devaneio? Não! Na verdade, Madalena não é “só” a mulher que ele ama! Madalena é a mulher que ele sempre amou em todas as mulheres que teve!!! A mulher que ele desejou em todas as noites de insónias vividas nas muitas camas que fez e desfez na vida, a amiga que ele buscou em todas as horas de desespero e de inquietação entre sonhos feitos e desfeitos em castelos de areia, a companheira que ele procurou em todas as lutas que travou com a sorte e com o destino que lhe quiseram impor em cada dia da sua vida. Ela é a sua irmã, a sua mãe, a sua amante, a sua alma… gémeas de si, feitas do mesmo sangue, da mesma carne, do mesmo sal!!! Mas isto Otília não vai querer ouvir!...

Em Paris, Madalena devia estar alegre, bem disposta, sorridente… mas não está. Tem à sua frente, a alguns dias, semanas ou meses, o futuro que sempre ambicionou. Para tal, basta apenas que deixe correr lesto o tempo por entre desenhos e paletas de cores determinadas pelo seu talento para que o sonho aconteça! Mas não, isso não é agora o mais importante. O seu pensamento está distante, tão distante, a muitas serras, estradas, rios, mares e marés, céus e estrelas, satélites e planetas de distância, entre Paris e … o além, julga ela. Para Madalena, António Rosa é já nada, pó, corpo inerte, sepultado com todos os rituais religiosos, chorado por mulher e filhos, recordado com saudade por amigos de infância e por companheiros de faculdade e de trabalho. Ela matou o homem que ama… que sempre amou! Levou-o para uma viagem de que ela sabia não ter retorno. Lutou contra si própria até ao momento em colocou o veneno fatal na bebida de António Rosa. Nessa ocasião, o que ela mais desejava era abraçá-lo com a toda força do seu ser, beijá-lo vezes sem conta até sufocar e partilhar com ele a noite dos amantes, de todos os amantes! Voar pelos céus e dançar ao som dos sinos celestiais tocados por querubins do amor e do sexo. Mergulhar na cama da luxúria e no prazer e entregar-se incondicionalmente, sem reservas, preconceitos ou tabus. Dar-se, enfim… finalmente!

Em Lisboa, nas docas de Alcântara, o crime espreita por entre desejos de sexo e temores à polícia. No lado oriental da cidade, o desespero e o despeito de quem não sabe tolerar ameaçam incendiar uma relação em fim de vida. Em Paris, a saudade fala mais alto do que a ambição de uma mulher que se perdeu de amores por um homem… “morto”. Tudo isto no mesmo dia e à mesma hora em que Abílio Mata Moscas, deitado na sua cama de corpo-e-meio de solteiro incorrigível, dá voltas e mais voltas por entre os lençóis, atormentado por uma insónia inusitada provocada por um pesadelo inquietante: o corpo do inspector António Jorge deu à costa na margem do sul do Tejo, com uma bala enfiada na cabeça!!!

 

Fonte:

Blogue Local do Crime, 21 de Junho de 2004

© DANIEL FALCÃO