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Capítulo 1
(propostas) Inspector Moka |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 1 Autor: Inspector Moka Todos
os dias úteis de todas as semanas, desde há mais de um ano, vinham a mirar-se
longamente ao pequeno almoço. Ele escolhia invariavelmente um “bretzel” que
acompanhava com meia de leite, ela pedia um “croissant” com manteiga, com
pouca manteiga, insistia, e um chá verde. Não se falavam. Não se
cumprimentavam sequer. Ele abria o “Notícias”, ela lia o “Público”. Lá fora,
na Praça das Flores, espaço verde na lisboeta encosta entre o Príncipe Real e
S. Bento, sucediam-se as estações, as ramagens, as iluminações de Natal, as
festas populares em Junho, os nevoeiros de Novembro e de Fevereiro. Os
lugares que escolhiam na característica sala eram, também, quase sempre os
mesmos – apenas alterados quando alguém chegava mais cedo e lhes trocava as
voltas. Dir-se-ia que se evitavam. Um
dia, a casualidade aproximou-os. A fartura de sucursais bancárias, em
esquinas fronteiras, tornou-se subitamente fome, quando ambos os
estabelecimentos caíram nos braços de patrões que os fecharam, que
“reestruturaram” o respectivo pessoal e, sobretudo, que levaram consigo as
hoje imprescindíveis caixas atm. Os comerciantes e moradores da área
lamentaram-se, fizeram listas de assinaturas, escreveram para os jornais,
colaram papelinhos nos troncos onde antes se anunciava, em fotocópias mal
tiradas, que havia uma sessão de fado vadio em pleno Bairro Alto ou que o
"Boby" se pirara dos carinhos da dona, arrebatado pelos odores
caninamente irresistíveis duma fêmea em cio. António Rosa, com a pasta
cansada em que guardava os processos que estudara ao serão, tendo de ir a S. Bento
para se abastecer de algumas notitas das novas, cheias de europas, pontes e
estilos, chegou ali mais tarde que o costume, mal disfarçando o desagrado de
encontrar na sua habitual mesa um casalinho em aparente fim de noite e, pelo
ar já derreado que ambos mostravam, em pouco promissor início de manhã.
Madalena olhava o jornal e anotava, em folhas A4 dobradas em caderno, algumas
ideias soltas, que poderiam influir na criação de um novo vestido para um
outro outono que ainda vinha longe. Ficaram próximos. Suficientemente
próximos para António apanhar o volume do “Kaputt” que, mal pousado na
convexidade do assento da cadeira à direita de Manuela, não escapara ao
movimento da empregada brasileira, apressada a trazer o habitual “bretzel”
para o não menos habitual cliente. Lê
Malaparte, perguntou ele. Leio, respondeu ela. Eu também…mas agora que
Malaparte caiu em desuso, vendendo-se em saldo em qualquer supermercado… Eu
também sei, cortou Madalena, mas gosto da forma como consegue descrever o que
viu e o que talvez não tenha visto, segundo muitos… Falaram sumariamente do
autor e da obra. António prometeu-lhe trazer alguns outros livros da sua
biblioteca. Madalena agradeceu. No decorrer do tempo, que passava para além
do normal e que deixara os jornais abertos esquecidos, António questionou: E,
já agora, conhece a casa de Malaparte em Capri? A casa que ele construiu nas
arribas do Cabo Masullo e que baptizou de “Casa como eu”? Não, não conheço…
Sabe, eu também não, a não ser em fotografia. Mas de há muito eu sonho poder
visitá-la. Só que não encontro quem queira ir lá comigo! Não sei porquê,
lançou ela surpreendida com a inesperada ocorrência de tal degelo em manhã de
Outono ainda quente, se alguém me convidasse eu não desprezaria uma
oportunidade de ir a Capri, com casa de Malaparte ou sem ela! Quer então vir
daí? Isso é um convite? É uma sugestão! E por que não… é coisa a pensar! E
o diálogo daquela manhã passou a ser a regra. O “bretzel” iria irmanar o
“croissant”, nas mesmas manhãs, no mesmo prato, começando até a cutucarem-se
bem cedo, em até então inéditas manhãs de sábado. Lá fora, no rito de todos
os anos, as árvores despiram-se e as gotas de chuva perlaram os ramos,
marcando os tempos litúrgicos que vão do nascimento do menino à morte do
homem. Decidida a utilização da viatura de António, iam montando
cuidadosamente a viagem, cujos meandros desenhavam com o apoio de mapas, de
itinerários colhidos no “local” www.michelin.com e de um sonho que passara a
ser conjunto, expresso nas mãos que se iam gradualmente tocando. Saíram
de carro, duas semanas depois da páscoa. Tinham acordado dizer o mínimo a
amigos e conhecidos. Tinham também acordado, apesar da menor experiência de
Madalena, em revezar-se ao volante. No escritório, António distribuiu
processos, assinou substabelecimentos, deu instruções suficientes para que os
colegas pudessem assegurar o expediente da próxima quinzena. No “atelier”,
Madalena deixou igualmente instruções. Em casa, à mulher e aos filhos,
António sugeriu uma viagem de serviço, que o levaria a França por duas
semanas. Madalena, tirando uma prima distante que estava colocada no
Politécnico de Setúbal e que equilibrava o preço do alojamento em Troino com
um meio-tempo prestado numa seguradora, não tinha mais família a quem deixar
recados. Dois
levantamentos de dinheiro, feitos em Faro, foram os últimos sinais por ambos
deixados em terras portuguesas. Previdente, António movimentara antes da
partida alguns fundos, incluindo reforços que transferira para a conta
conjunta e que destinava a prevenir despesas domésticas extraordinárias, como
habitualmente fazia quando das suas deslocações. Madalena deixara na míngua
as suas duas contas. De acordo com instruções transmitidas a alguns
escritórios com quem mantinha relações e tendo em conta aquele confuso
período de troca de moedas, António tinha previsto a possibilidade de
levantar dinheiro em Castellón, Sète e Ventimiglia. Bastante dinheiro até.
Madalena incumbira-se de, sem avançar grandes detalhes, cobrar, em Barcelona,
uma dívida de uma cliente catalã do “atelier”, proporcionando-se assim a
disposição de um razoável montante de pesetas. Provar-se-ia mais tarde que o
levantamento em Castellón teve lugar, como previsto, mas nem em Sète, nem em
Ventimiglia, nem em Barcelona tinha sido reclamado qualquer montante. Não
houve mais levantamentos, cobrança ou notícias. Na confeitaria da Praça das
Flores prolongava-se a ausência de ambos, enquanto a Primavera se ia
resolvendo nas últimas chuvas, enxota-pombos precedendo a aproximação de um
Verão que se adivinhava quente. As
duas semanas tinham-se completado, sem novas nem mandados. Na segunda feira
seguinte, a mulher de António telefonou para o escritório, a saber de
notícias. Conhecia-se de há muito o laconismo entre ambos, o que justificou o
“devem estar a acabar-lhe as massas e por isso se lembra dele!”, com que o
dr. Aurélio comentou o facto, enquanto afiava meticulosamente o lápis com que
teimava em anotar as minutas e que não trocava por qualquer lapiseira, por muito
AG Spalding que fosse. Aliás, no escritório, nada tinham de mais para dizer.
Dias depois, era do “atelier” de Madalena que procuravam a
trabalhadora-estudante, para desta saber se tinha recebido qualquer mensagem
da prima… Negativo, também! À terceira semana houve notícias. Alguém voltou. Mas apenas um dos que tinham partido. Fonte: Blogue Local do Crime, 28 de Outubro de
2003 |
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© DANIEL FALCÃO |
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