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PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 2 Autor: Inspector Moka A Páscoa, em 2002, foi a 31 de Março e, piada velha, calhou ao domingo. Com ela a costumeira febre de consumo, o exodo das cidades, a nacional hecatombe nas estradas. O ano trazia o ónus dum popular provérbio, lembrando que “Páscoa em Março ou é fome ou é mortaço”, mas nem pela lembrança desse ditado, por muito que a festa se escondesse no último dia do mês, nem pelas tolerâncias de ponto concedidas para segunda-feira de manhã, iriam estas jornadas acolher acrescida prudência. A leste da cidade, num dos arruamentos ainda sem termo definido da zona já órfã da Expo 98 e agora em progressiva ocupação urbana, a norte da via férrea, o Rover 414 verde e sujo permanecia solitário, com a legenda “Trata 977 081 006” em cartolina branca, encostada e presa à superfície interna do vidro lateral, do lado do condutor, por uma simples etiqueta de correio-azul. No banco traseiro, desenhos e jornais dobrados. O fim de semana prolongado interrompera a actividade babélica da construção civil e esvaziara muitas das instalações comerciais próximas – evitando assim que nenhum abelhudo viesse questionar a estranha presença daquele carro. Aliás, como depois se comprovou, ninguém sabia exactamente “desde quando”, embora alguns arriscassem que já o teriam visto ali uma ou duas manhãs antes da desmobilização civil iniciada na quinta-feira santa. Certo é que, passada a “ponte”, tal permanência iria ainda manter-se escassos dias, até que o estroncamento maldoso dum retrovisor lateral, o crescente questionar na vizinhança quanto à origem e propriedade do automóvel, a hipótese de que fora roubado e que, como tal, poderia beneficiar eventuais alvissareiros, tudo cumulado com a crescente fedorina que dele se exalava, contribuíram para que, finalmente, fosse comunicada à PSP a enigmática ocorrência. Não, não havia qualquer participação de roubo relacionada com aquele veículo, registado em nome de um António Ferreira Neto, com morada na Amadora. Sem telefone na lista. Uma tentativa de contacto no endereço indicado iria assustar uma rotunda mãe de família cabo-verdiana quando tranquilamente preparava o jantar. Corroborada em tudo pelos vizinhos, afirmou ali morar há mais de dois meses, ter “alugado” a casa em agência que indicou, e mais declarou, com o nervosismo que lhe causavam fardas, que não conhecia nem queria conhecer qualquer anterior morador da “sua casa”, fosse ou não fosse Neto ou avô. No prédio, de dois andares e seis fogos, dois ou três vizinhos recordavam-se do locatário do 2º direito, que tivera passagem efémera, de pouco mais que meio-ano, e que não viam desde que se fora embora, à cerca de uns três meses. Entrava e saía a desoras e era ou dizia-se engenheiro. Vivia só, sem familiares, sem qualquer bicharada conhecida, mas às vezes entrava-lhe em casa uma moça muito mais nova, desenvolta, que passava lá a noite e que aguçava a curiosidade (e certamente o apetite) do pessoal masculino local, levantava sérias reservas ao mulherame e a quem, jurariam, o engenheiro chamara algumas vezes de Madalena. Pois! (interjeição acompanhada de um piscar de olhos). O homem, esse tinha de facto um carro verde que, pela descrição, não destoava do tal Rover abandonado. Em conversa ocasional e rara, queixara-se da dificuldade de conseguir rapidamente um telefone fixo. Relativamente novo, pendia já para uma meia-idade que a calvície nascente denunciava. Era muito educado, apesar do cheiro a charuto que por vezes inundava a caixa da escada e, mais raramente, do ruído duma “música séria”, que ficava a tocar um pouco alto. Deixara o andar bastante sujo, com jornais e revistas empilhados e com alguns tarecos que nunca mais veio reclamar e que acabaram, quase todos, junto ao mais próximo contentor do lixo. A persistência do cheirete, cada vez mais pútrido, e a inoperância das diligências empreendidas acabaram por levar a polícia a abrir as portas da viatura – o que tornou o ambiente próximo simplesmente insuportável. Levantada a tampa da mala, logo descobriram a causa. Vestido de forma convencional, parcialmente coberto com uma manta de viagem e deitado em posição fetal, o cadáver tinha ainda postos os auscultadores ligeiros e de boa marca que se ligavam a um leitor portátil de CD’s. Introduzido neste, o disco com quatro “Concerti Grossi” do Opus 6 de Haendel deixara há muito de se ouvir e de ser ouvido. A respectiva caixa juntava-se a outras duas, uma com peças sortidas de Mozart, outra evocativa de Gilbert Bécaud, a abrir com o conhecido “Et maintenant?”, que tantos corações fizera romanticamente palpitar desde 1975. Ainda, naquele espaço limitado da mala, foram recolhidas e devidamente acondicionadas diversas embalagens vazias de um barbitúrico forte, uma garrafa também vazia de “JB” e uma palhinha de refrigerante, como constava do relatório policial. O exame dos documentos contidos na carteira, mantida no bolso interior esquerdo do casaco, com cartões de crédito, alguns cheques por utilizar e uma quantia modesta em notas novas de pequeno valor, confirmou tratar-se, de facto, de António Ferreira Neto, engenheiro mecânico, 47 anos, natural de Sousel e, de acordo com o BI, residente na Amadora. Poucos cartões de visita, de execução esmerada mas de cantos já deformados, repetiam a morada onde hoje sabiam viver uma mamalhuda senhora, demasiado tisnada pelo sol de sucessivas gerações. Nos bolsos pouco mais: uma “bic-cristal” preta, meio consumida, uma lapiseira, duas chaves tipo Yale, o porta-chaves do automóvel, com o respectivo “comando”. Um envelope aberto, sem destinatário, guardava uma carta dactilografada em computador, assinada a esferográfica azul, que o “de cujus” dirigia à sua ex-mulher, comunicando, de forma telegráfica e seca, como de correspondência comercial, a decisão definitiva e reflectida que tomara de por termo à sua vida. Sem invocar qualquer razão, sem revelar qualquer sentimento ou provisão, sem um adeus que fosse, até sem data e sem nome para além do “A minha ex-mulher” que escrevera como primeira linha. Quem primeiro a recebesse, que procurasse a destinatária, num ali surpreendente estilo “toma e embrulha”. Também na mala do carro, uma pasta de cartolina verde-claro, com abas e elásticos, continha uma colecção de doze desenhos, dobrados como é de uso. Na face exterior, a lápis ténue, podia-se ler a palavra “Almansor”. No banco traseiro, uma outra colecção de desenhos acompanhava meia dúzia de “diário de notícias”, nenhum dos quais posterior a 23 de Março. Os desenhos de ambas as colecções, de evidente natureza técnica, reportavam-se a equipamentos há muito vendidos como sucata, após o desmantelamento de uma instalação química situada a norte de Lisboa, ironicamente epilogada num processo de “recuperação de empresas” em que os bancos credores abriram mais os olhos para o imobiliário afecto à produção que para o prosseguimento da actividade industrial e a manutenção de emprego. Nasceria ali mais uma urbanização! O tema até tivera honras de aparição num noticiário das oito, com trabalhadores idosos por detrás de cartazes, e levara alguns desmancha-prazeres da oposição a ousarem de perguntar, em sessão aberta da câmara, se tão apetitosos terrenos estavam comprovadamente descontaminados para os fins habitacionais a que, com público clamor, eram agora votados. Não deixava de ser curioso que o conjunto de doze desenhos contidos na pasta estivesse totalmente repetido no conjunto do assento traseiro, que, além destes, continha mais cinco diferentes e “desemparelhados”. Outra diferença existia: nos desenhos da pasta alguém desenhara grandes “balões” a marcador vermelho, em torno de certas peças do equipamento fabril, que numerara de #01 a #16, ao passo que todos os desenhos, no outro conjunto, se apresentavam como saídos do aparelho de cópia, sem qualquer marcação aposta. Longe dali, no outro extremo da cidade, Madalena chegava a casa. Acendeu um cigarro, colocou um CD na aparelhagem Sony que tinha comprado tempos antes para se dar companhia. Sentou-se no sofá, descalçou os sapatos e já tranquila, distendida, olhando o nada no tecto, pensou rapidamente na viagem que, em breve iria fazer e que esperava a conduzisse a secretos objectivos. Gilbert Bécaud, enchendo a sala, repartia o espaço com o fumo que subia do cigarro. “Et maintenant…”. Fonte: Blogue Local do Crime, 28 de Novembro de 2003 |
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© DANIEL FALCÃO |
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