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no dia 30 de Agosto …] |
EPISÓDIO FINAL DE NOVE (Tempicos obrigado a descobrir o criminoso)
“Mas tem a certeza de que mataram o Sr. Marquês?
Como foi?” “Uma seta? Não pode ser, quem ia fazer uma coisa
dessas?” “Hum… aquele estupor não morre à primeira. O
senhor viu-o mesmo morto?” Murmurou um em surdina. “Coitadinho, assim abatido sem se poder
confessar. É preciso avisar o Sr. Cónego.” “Se o Sr. Marquês ainda está vivo, não será
melhor chamar uma ambulância?” Tempicos levantou a voz para serenar os ânimos e sentenciou: “Chamem a polícia
e também uma ambulância, à cautela. Ninguém pode sair do Castelo sem a minha
autorização. Dentro de cinco minutos quero saber quem foi para o bosque e
quem ficou por aqui. Todos são suspeitos e o melhor que cada um tem a fazer é
não arranjar sarilhos suplementares. Fiz-me entender?” O pessoal aceitou, temeroso, as ordens de Tempicos e organizou-se o melhor que soube para as cumprir.
O nosso detective empalidecera, não por causa da
corrida que fizera da floresta para o Castelo, mas por estar preocupado com a
péssima posição em que se encontrava devido ao mau hábito de dar bocas. Tendo
feito constar, a fim de promover uma peça para a Broadway, que iria haver um
crime em Chamborg, viu o dito crime acontecer e,
agora, para se salvar, não tinha outro remédio senão descobrir o criminoso no
curto espaço de tempo que a polícia francesa levaria a chegar ao Castelo. Enquanto meditava na sua triste sorte, algo que
ele não sabia bem se era a de ser suspeito de um homicídio ou a de ter que
trabalhar à pressão, apareceu-lhe o inefável cónego Novenat
de mãos postas, orações a saírem da boca e um ar sobremaneira compungido. O padre afirmou ter estado na capela a tentar
descobrir um mistério, não acabando a explicação porque, entretanto,
começaram a chegar os convivas da caçada, menos o morto, coitado, que lá
ficou para ser observado pelos peritos, “in loco”, como manda a lei. Arnéss e Kátinha choravam agarradas uma à outra. Frau Jeremein controlava mal os
soluços, mas mantinha garbosamente a cabeça erguida. Anardá
vinha com ar de quem tinha realizado uma façanha. Madame Lilly
carregava as linhas dos sobrolhos com ar inquisitivo, enquanto se apoiava no
braço esquerdo de Joseph. Este, ao contrário do que lhe era habitual e do que
a gravidade do momento aconselhava, exibia um sorriso malicioso. Um criado
empunhava um pau com um forte baraço pendente, que Anardá
depressa foi guardar. Outro criado trazia dois animais pela arreata, um deles
com os cestos dos lanchinhos ainda por abrir. Salvador Santi
chegou em último lugar a assobiar, muito baixinho, uma área da Tosca. Tempicos disse para si mesmo. “Isto, se calhar, foi uma conspiração. Não me
fio em nenhum.” O tempo urgia. A grande novidade, o resultado mais palpável do
interrogatório, era uma certeza de Anardá, a sua
convicção absoluta de ter morto um veado como nos tempos antigos. Mas não
disse onde estava o cervídeo nem como o matou. Era coisa, segundo ele, que só
mais tarde poderia revelar. O nosso detective
pôs-se a cruzar dados a uma velocidade que lhe deixou o cérebro a ferver.
Teve de pedir água. Aquilo não estava a resultar, apesar da certeza
incriminatória do Anardá, mas pouco credível. O
mistério, em vez de se desfazer, adensava-se. E por falar em mistério, havia
que saber mais coisas do cónego Novenat. Tempicos resolveu então aceder a um pedido do padre e acompanhou-o até à
capela. Aí chegados, dirigiram-se para o altar de S. Sebastião, onde Novenat, apontando para imagem do mártir, perguntou “Que
lhe parece?” O detective disse que a imagem lhe
parecia bem proporcionada e acabada, muito realista. “Não dá por falta de
nada?” Tempicos concentrou-se e viu um furo na
atlética barriga do santo, sem a respectiva seta. O
cónego, percebendo que o seu interlocutor dera pelo buraco, apressou-se a
informar “Era a flecha maior, capaz de matar um javali. Só dei pela falta
hoje, quando já todos tinham partido para o bosque”. Entre o pensar e o perguntar, entre o pensar e o
responder, Novenat lá foi informando, com desgosto,
que Madame Lily se dizia muito devota de S. Sebastião e, amiúde, se ajoelhava
junto da imagem do santo, a meditar. Estavam a sair da capela e o rosto do padre
apresentava-se vermelho como se tivesse apanhado um banho de sol. O caso não
era para menos. Como homem atormentado pela carne, mas admirador das
virtudes, via-se obrigado a lançar suspeitas sobre quem com ele se deitava,
sem conseguir esquecer-se desse aspecto erótico e
da perda em perspectiva. Tempicos, entretanto, já começava a ver mais claro. Rápido voou, como mocho sábio, sobre aqueles que,
a partir de então, pareciam ser os dois principais suspeitos: Madame Lily e Anardá. Em três minutos espremeu-os. Já se ouviam as
sirenes da ambulância e dos carros da polícia. Madame Lily planeara tudo e convencera Anardá de que se matasse um veado à maneira antiga, com
arco e flecha, quando o animal passasse em determinado sítio, não poderia ser
acusado de violar as leis cinegéticas e ganharia fama suficiente para
alcançar um lugar no cinema. Mas que tivesse cuidado, não levantasse a presa
antes do lusco-fusco nem desse com a língua nos dentes cedo demais. Por outro
lado, persuadira o Marquês a seguir por determinada vereda onde o Anardá, um pouco afastado, o pudesse tomar por um bicho
com uma boa armação na cabeça, vistoso enfeite que, como sabemos, não faltava
ao fidalgo. E assim se consumou o hediondo crime. Quando Tempicos, depois
de colhido este sumo todo, se preparava para relaxar, assaltou-o novo
pesadelo. Agora era preciso muita concentração e ronha para fazer com que a
polícia francesa saísse dali inteiramente convencida de ter sido ela a
deslindar o caso. De outro modo, os garbosos agentes franceses até seriam
capazes, pensava Tempicos, de inventar um criminoso
diferente, só para não aceitarem conclusões tiradas por outrem. Fim de “Os Mistérios do Castelo de Chamborg” Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 23 de Agosto de 2026 TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da
Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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