INTRÓITO

Homenagem e Ficha Técnica

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EPISÓDIO FINAL de Nove

 

EPISÓDIO FINAL DE A. RAPOSO & LENA

Tempicos corria afogueado para o portão principal do Castelo de Chamborg. Tropeçando aqui e ali, e gritando o mais que lhe permitia a sua voz de falsete.

– Acudam, depressa, chamem um médico, o Marquês foi atingido, sangra que nem um javali! Berra como um bezerro! Está a esvair-se em sangue. Não tarda que se fine.

Ao portão, em sentido, e já de seringa em riste a Frau J parecia aguardar o toque de alvorada para avançar com a cavalaria.

Tempicos tentou refrear a corrida, tropeçou, foi cair aos pés de Frau J e esta com o choque, tomba e enfia a agulha da seringa na bimba de Tempicos.

Ai. – Foi só o que ele disse antes de desmaiar.

Tempicos reposto do acidente, tinha já reunido na sala grande do castelo os ilustres habitantes. Estavam lá todos. Frau J. e Anardá, Madame Point, Joseph, a criada Arnéss e Novenat que fora a correr tentar dar, em vão, os últimos sacramentos ao Marquês. Kátinha chegou finalmente pois andava com a bexiga solta - a natureza é soberana e quando a vontade aperta há que dar sequência às “besoins”. Seria talvez uma cistite em evolução. Queixava-se de ardor e calafrios. Eram os sintomas, garantiu-lhe Frau J. que sabia da poda.

Suspeitos eram todos, mas Tempicos, apesar de um pouco depauperado, lá foi iniciando a sua ladainha ao jeito de Hercule Poirot.

Não sei se sabem. Tempicos foi um homem que se fez a si mesmo, subiu na vida a pulso, com algumas golpadas pelo meio, é certo, mas subiu. Não teve da parte dos seus progenitores uma grande ajuda pois aos 13 anos já andava na construção civil. Fora para o “bâtimment” em Paris, a salto, nos anos 60. Entrou no Maio de 68 porque na altura catrapiscava uma lourinha, chamada Toinette e aos domingos escreviam frases nas paredes, antes de irem até ao pequeno apartamento de Tempicos numa água-furtada em Montmartre fazer amor até aparecer a lua nas vidraças. C´était le temps des cerises. Escreviam frases nas paredes, que só o tempo as foi apagando mas que ficaram na memória de muitos, tantos anos depois:

 

Todo o poder é abusivo. O poder absoluto é absolutamente abusivo.

Os obstáculos ao prazer excitam o prazer de viver sem obstáculos.

Poderão cortar todas as flores, mas não vão impedir que chegue a primavera!

 

Essa foi a revolução de costumes que Tempicos assistiu. Mas não se sabe se foi pela política se foi pelas saias da sua lourinha Toinette. Um bom e saudoso engate. Diga-se.

Tempicos, entretanto, especializou-se.

Era afagador de tacos. Um trabalho duro. Depois subiu e, sempre no ramo, acabou em afagador de viúvas. Trabalho mais “soft” mas prazeroso e remunerador, porém muito desgastante. Sempre dava para umas férias na FNAT, da Costa da Caparica, no verão.

Mas a nossa história tem a ver com a descoberta do crime sobre o Marquês de Mendés. Competia a Tempicos a sua descoberta e não havia meio. Utilizando a técnica de Poirot. Lera alguns romances da sua criadora, começou por acusar a criada Arnéss mas esta tinha um álibi indestrutível. Estava na cozinha a lavar as panelas e isto foi confirmado por Anardá que inclusivamente ajudava a ensaboar o esfregão e a passar por água o fervedor. Por aqui, nada feito!

Kátinha tinha um álibi indestrutível. Estivera na capela do castelo a tratar das velas. Substituindo-as. Novenat confere pois ele também lá estava a passar “solarine” num Cristo metálico que estava ferrugento. Tinham um álibi mútuo.

Madame Point disse que o arco e as flechas do Marquês tinham por ele sido esquecidos e ela tinha enviado Joseph entregar o material ao patrão.

Joseph confessou que foi fazer o recado à Madame e embrenhou-se no bosque em busca do patrão. De repente, no meio do bosque teve uma vontade fortíssima e largou o material e resolveu o problema atrás de uma moita. Quando regressou o arco e as flechas tinham sumido. Poder-se-ia incriminar Joseph só por ter satisfeito uma necessidade básica e sólida? Seria injusto.

Tempicos finalmente acusou Frau J. mas esta liminarmente recusou a acusação dizendo ter estado com a Madame Point a dar-lhe uma massagem na coluna. Madame Point confirmou. Tempicos pela primeira vez na sua longa carreira de detective teve que dar a mão à palmatória e não conseguiu, para mal dos seus pecados, resolver o assunto. Este caso acabou arquivado na polícia local por falta de provas. O tempo passou e madame Point ficou a herdeira universal de Mendés que lhe tinha feito testamento, só deixando à filha o que o código civil obrigava.

Tempicos, em Punta Cana, deitado numa espreguiçadeira, chupava por uma palhinha um fresquíssimo sumo de coco. As águas mornas da baía azulavam o horizonte. O seu chapéu de palha regional tapava o sol e permitia ler uma carta que acabara de receber de França. do Loire. Da Madame Point. Com ela vinha um cheque de um milhão de dólares.

Um bilhetinho, escrito à mão acompanhava o grosso cheque e rezava:

 

Caro amigo Tempicos.

Nunca um investigador foi tão eficaz e ao mesmo tempo tão brilhante. Para quê descobrir criminosos onde não os há?

Espero que continue a aplicar a sua inteligência e perspicácia ao serviço dos seus interesses. Neste caso os meus são coincidentes. Venha passar uns tempos ao castelo, garanto-lhe que o prazer será nosso.

Espero que a verba esteja de acordo com a nossa combinação.

Hasta la vista, amigo.

Madame Point.

 

Honni soit qui mal y pense

 

Fontes:

Blogue Repórter de Ocasião, 16 de Agosto de 2026

TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da Lei, Ano de 2011

 

© DANIEL FALCÃO