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EPISÓDIO FINAL DE A. RAPOSO & LENA
– Acudam, depressa, chamem um médico, o Marquês
foi atingido, sangra que nem um javali! Berra como um bezerro! Está a
esvair-se em sangue. Não tarda que se fine. Ao portão, em sentido, e já de seringa em riste a
Frau J parecia aguardar o toque de alvorada para
avançar com a cavalaria. Tempicos tentou refrear a corrida, tropeçou, foi cair aos pés de Frau J e esta com o choque, tomba e enfia a agulha da seringa
na bimba de Tempicos. – Ai. – Foi só o que ele
disse antes de desmaiar. Tempicos reposto do acidente, tinha já reunido na sala grande do castelo os
ilustres habitantes. Estavam lá todos. Frau J. e Anardá, Madame Point, Joseph, a
criada Arnéss e Novenat
que fora a correr tentar dar, em vão, os últimos sacramentos ao Marquês. Kátinha chegou finalmente pois andava com a bexiga solta
- a natureza é soberana e quando a vontade aperta há que dar sequência às “besoins”. Seria talvez uma cistite em evolução.
Queixava-se de ardor e calafrios. Eram os sintomas, garantiu-lhe Frau J. que sabia da poda. Suspeitos eram todos, mas Tempicos,
apesar de um pouco depauperado, lá foi iniciando a sua ladainha ao jeito de Hercule Poirot. Não sei se sabem. Tempicos
foi um homem que se fez a si mesmo, subiu na vida a pulso, com algumas
golpadas pelo meio, é certo, mas subiu. Não teve da parte dos seus
progenitores uma grande ajuda pois aos 13 anos já andava na construção civil.
Fora para o “bâtimment” em Paris, a salto, nos anos
60. Entrou no Maio de 68 porque na altura
catrapiscava uma lourinha, chamada Toinette e aos domingos escreviam frases nas paredes,
antes de irem até ao pequeno apartamento de Tempicos
numa água-furtada em Montmartre fazer amor até aparecer a lua nas vidraças. C´était le temps des cerises.
Escreviam frases nas paredes, que só o tempo as foi apagando
mas que ficaram na memória de muitos, tantos anos depois: Todo o poder é abusivo.
O poder absoluto é absolutamente abusivo. Os obstáculos ao prazer
excitam o prazer de viver sem obstáculos. Poderão cortar todas as
flores, mas não vão impedir que chegue a primavera! Essa foi a revolução de costumes que Tempicos assistiu. Mas não se sabe se foi pela política
se foi pelas saias da sua lourinha Toinette. Um bom e saudoso engate. Diga-se. Tempicos, entretanto, especializou-se. Era afagador de tacos. Um trabalho duro. Depois
subiu e, sempre no ramo, acabou em afagador de viúvas. Trabalho mais “soft” mas prazeroso e remunerador, porém muito
desgastante. Sempre dava para umas férias na FNAT, da Costa da Caparica, no
verão. Mas a nossa história tem a ver com a descoberta
do crime sobre o Marquês de Mendés. Competia a Tempicos a sua descoberta e não havia meio. Utilizando a
técnica de Poirot. Lera alguns romances da sua
criadora, começou por acusar a criada Arnéss
mas esta tinha um álibi indestrutível. Estava na cozinha a lavar as panelas e
isto foi confirmado por Anardá que inclusivamente
ajudava a ensaboar o esfregão e a passar por água o fervedor. Por aqui, nada
feito! Kátinha tinha um álibi indestrutível. Estivera na capela do castelo a tratar
das velas. Substituindo-as. Novenat confere pois
ele também lá estava a passar “solarine” num Cristo
metálico que estava ferrugento. Tinham um álibi mútuo. Madame Point disse que
o arco e as flechas do Marquês tinham por ele sido esquecidos e ela tinha
enviado Joseph entregar o material ao patrão. Joseph confessou que foi fazer o recado à Madame
e embrenhou-se no bosque em busca do patrão. De repente, no meio do bosque
teve uma vontade fortíssima e largou o material e resolveu o problema atrás
de uma moita. Quando regressou o arco e as flechas tinham sumido. Poder-se-ia
incriminar Joseph só por ter satisfeito uma necessidade básica e sólida?
Seria injusto. Tempicos finalmente acusou Frau J.
mas esta liminarmente recusou a acusação dizendo ter estado com a Madame Point a dar-lhe uma massagem na coluna. Madame Point confirmou. Tempicos pela
primeira vez na sua longa carreira de detective
teve que dar a mão à palmatória e não conseguiu, para mal dos seus pecados,
resolver o assunto. Este caso acabou arquivado na polícia local por falta de
provas. O tempo passou e madame Point ficou a
herdeira universal de Mendés que lhe tinha feito
testamento, só deixando à filha o que o código civil obrigava. Tempicos, em Punta Cana, deitado numa
espreguiçadeira, chupava por uma palhinha um fresquíssimo sumo de coco. As
águas mornas da baía azulavam o horizonte. O seu chapéu de palha regional
tapava o sol e permitia ler uma carta que acabara de receber de França. do
Loire. Da Madame Point. Com ela vinha um cheque de
um milhão de dólares. Um bilhetinho, escrito à mão acompanhava o grosso
cheque e rezava: Caro amigo Tempicos. Nunca um investigador foi tão eficaz e ao mesmo
tempo tão brilhante. Para quê descobrir criminosos onde não os há? Espero que continue a aplicar a sua inteligência
e perspicácia ao serviço dos seus interesses. Neste caso os meus são
coincidentes. Venha passar uns tempos ao castelo, garanto-lhe que o prazer
será nosso. Espero que a verba esteja de acordo com a nossa
combinação. Hasta la vista, amigo. Madame Point. Honni soit qui mal y pense Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 16 de Agosto de 2026 TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da
Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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