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FINAL de Inspector Boavida |
EPISÓDIO FINAL DE DETECTIVE JEREMIAS Tempicos sentiu um frio fininho a descer pela espinha. ’Tava tramado! O plano magnífico, sem um único defeito, tinha
falhado. Sentia-se só, triste e abandonado. E agora? Como é que poderia sair desta? Tinha passado os últimos tempos na horizontal,
entre a rede espreguiçadeira e a toalha fofa est icada no areal, a beber sumos de fruta tropical e a
ver as vistas. Os seus “colaboradores” iam alinhavando as cenas da produção
teatral enquanto ele descansava. Estava no seu direito, caramba, pois, bem
vistas as coisas, ele é que era o cérebro, o ideólogo, enfim o motor de um
sucesso teatral garantido. Tempicos até já tinha imaginado o seu nome em néon na Broadway. A peça, graças
a ele, seria um sucesso de bilheteira. Era uma história com drama e paixão,
com um clima espiritual e profano em simultâneo, com um toque de gastronomia
e de religião q.b., com crime … ah e não esquecer o nu integral de Anadrá que garantiria o letreiro “ESGOTADO” durante
semanas a fio e a venda de bilhetes no mercado paralelo. Tudo terminara com a entrada de Santi em cena. Ao fim e ao cabo Salvador Santi era o “patrão” de Tempicos
e o homem que garantiria o pagamento chorudo por transferência bancária ou em
notinhas novas cor púrpura de 500 € perfiladas em maços numa mala de marca.
Mas fora precisamente o Santi que metera a boca no
trombone ao falar na exploração dos “colaboradores” de Tempicos,
na boa-fé de escritores ilustres… patati patatá… Estes tinham conhecimento do negócio. Bom, mais
ou menos tudo… Quase tudo… Para falar verdade, todos
eles desconheciam que existia uma verba elevadíssima prestes a dar entrada no
bolso, ou melhor, no cofre do Tempicos. A Broadway
não brinca em serviço. Por tudo isto os “colaboradores” de Tempicos uniram-se e disseram-lhe a uma só voz: “Queres
um final para a história? Encaixa a caneta nos dedinhos e desvenda tu o
crime!”. Agora Tempicos estava
metido na chamada camisa-de-onze-varas. Quem poderia ele escolher para
culpado do assassinato do Marquês? Salvador Santi estava
fora de causa. Tempicos ainda tinha pensado nele.
Mas Santi leu-lhe os pensamentos e, abandonado a
sua classe de produtor teatral, sussurrou-lhe uma ameaça velada com voz
rouca: “Se me pões como culpado nem vês a cor do dinheiro”. A Madame de Chamborg e
o motorista Joseph d´Ambrósio também não podiam ser acusados. Ela esticada
das plásticas e ele chupadinho das carochas não
teriam força para jogar ao berlinde, quanto mais para atirar uma seta. Com
estes dois, setas só as do Cupido. Tempicos pensou que poderia incriminar a enfermeira Frau
Jeremein ou a cozinheira Arnéss
ou ainda o cónego Novenat, mas para falar verdade
tinha medo deles. Uma estava armada com seringas gigantescas, outra com
facalhões, ou pior ainda, com venenos naturais e o cónego tinha poderes para
o excomungar. A Kátinha nem pensar! A sua Kátinha nunca poderia ser a culpada. Era uma questão de
princípio! Restava-lhe o Anadrá.
Neste ponto, Tempicos sentiu o friozinho na espinha
para cima e para baixo. Imaginou as consequências tenebrosas que lhe estariam
destinadas caso tivesse o atrevimento de apontar o Tarzan Anadrá
como assassino do Marquês. Tempicos pensava, pensava. Tempicos desesperava. Nada de nada, nem uma única pista para encontrar
um culpado e um desfecho à maneira. Finalmente enxergou uma luz ao fundo do túnel. Só
lhe restava uma saída. Apesar de preferir os detectives
americanos do policial negro, via-se obrigado a optar por uma saída à Poirot. Convocou todos os envolvidos (com excepção do morto) para a biblioteca do castelo e deu
início a uma prelecção. Tempicos
fazia acusações e deixava os ouvintes inquietos. É bem verdade que cada um
deles tinha culpas no cartório. Tempicos, implacável, não deixou ninguém falar. Estava prestes a
transformar-se no alvo onde se iriam cravar as flechas da indignação, da
revolta e da ira do grupo: da marquesa, de Joseph, de Jeremein,
de Arnéss, de Novenat, de
Anadrá, de Santi e até da
doce Kátinha. Mas ficaram todos congelados, em suspenso, como
uma velha cassete-vídeo avariada quando ouviram as derradeiras palavras de Tempicos: “Quem
assassinou Mendés-de-Chamborziac
fui eu, Tempicos, detective
Tempicos, o detective-criminoso!”
Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 4 de Outubro de 2026 TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da
Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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