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EPISÓDIO FINAL DE INSPECTOR BOAVIDA
Cerca de meia hora depois de se terem ouvido os
gritos de Tempicos, toda a gente que habita no Castelo
de Chamborg rodeava já o marquês. Salvador Santi, lavado em lágrimas, tinha acabado de comprovar que
ele e os leitores da Bancada Directa haviam caído
numa novela da vida real. O marquês era de facto o “seu” marquês, o homem da
sua vida, o Jeff Château Blanc!
E Lilly de Chamborg era
mesmo a Betty Frank Stein, a sua rival, a mulher que convertera o seu amor à
realidade heterossexual, destroçando, assim, o seu pobre coração de menino
apaixonado. Mas o seu infortúnio tivera ainda outro grande responsável. O chaufer Joseph, que Santi
sempre conhecera como o “papa milhas”, também teve muitas culpas no cartório! Nessa altura, o “papa milhas” andava de olho no Santi e meteu na cabeça que havia de o sentar no seu utilitário.
Ele queria dar umas voltinhas com Santi, mas o
rapaz só tinha atenções para o marquês. Convencido de que, lançando o Château
Blanc nos braços daquela que viria a ser a sua
patroa, ganharia espaço no coração de Santi, o
“papa milhas” começou por montar um esquema no Castelo, com a cumplicidade do
cónego e do sacristão, que visava demonstrar que o rapaz gastava mais tempo
agarrado à batina do padre do que a cuidar do bem-estar do marquês. E para
ajudar à “festa” a enfermeira alemã jurava ter visto Santi
entretido com os binóculos do sacristão em posições pouco ortodoxas e em
trajes menores… na sacristia! Mas há mais. Não se pense que a cozinheira do
Castelo era uma santa. Também ela entrou no jogo. Algum tempo antes de o
marquês trocar Santi por Betty, a bretã dos tachos
e das panelas sussurrou ao ouvido do patrão que tinha visto o seu jovem
amante num bar, em Paris, embevecido com um cantor muito em voga, um tal de
Johnny Hallyday que encantava meninas e meninos
nesses idos de 60. O marquês não resistiu e foi ver com os seus próprios
olhos. E foi aí, por entre copos, risos, haxixe, beijos e abraços, que o
marquês virou macho, para desespero de Santi. Betty
Frank Stein ganhou um homem, um castelo e o título de marquesa! Santi perdeu o seu amor e ganhou um ódio visceral a toda
a gente que rodeava o marquês. Betty cantou
Brell, Aznavour, Becaud,
Greco e… António Mourão! «Ó tempo
volta para trás» foi o tema que mais comoveu Santi
naquela funesta noite no Caveau de la Huchette, no Quartier Latin. Por entre os efusivos aplausos que premiavam a
“cantora espontânea” (Betty, a maviosa voz dos states,
estava inspirada!), Santi chorava o desgosto de
perder o seu amor. O marquês já não largava a futura marquesa. Ele que fora
na sua juventude a Tatiana Kuleva, o mais louco e
sensual travesti das noites parisienses, transformara-se de repente num
homem, num verdadeiro homem em toda a acepção da
palavra (até que uma recaída o traga de novo ao mundo da bichice – dizia-se).
Enquanto isso, Santi chorava baba e ranho pelos
cantos. Santi foi
arrancado dos seus pensamentos por um súbito alarido. «É ele. É ele. Foi ele.
Prenda-o» – gritou Tempicos, que se aproximou do
grupo que rodeava o cadáver do marquês. Vinha acompanhado de um belo jovem
gendarme, que conquistou de imediato as atenções de Kátinha.
Tempicos continuou: «Assassino! Assassino!»,
enquanto se aproximava lentamente da marquesa, que esboçou um malicioso
sorriso no momento em que ele se juntou ao grupo. «Prenda-o, senhor gendarme»
– continuou Tempicos. Mas o jovem polícia só tinha
sentidos para Kátinha, que estava toda derretida a
olhar para ele desde a sua chegada. O gendarme perdeu a timidez e sussurrou,
enquanto beijava as mãos da jovem: «O meu nome é Tou,
S Tou». «Prenda-o, gendarme, prenda-o» – repetiu Tempicos, no que foi acompanhado em uníssono por quase
todos os presentes. Porém, o gendarme S Tou não
tinha essa intenção. Há várias semanas que vigiava o Castelo de Chamborg, por denúncia do animador do blogue Bancada Directa, que andava intrigado com o processo de escrita
da novela proposta pelo detective Tempicos e temia que algo de grave pudesse estar por
detrás daquilo. Ao saber que a gente do marquês de preparava para realizar um
piquenique no Bosque, o gendarme montou guarda de proximidade no local. Mas
ele só percebeu a verdadeira gravidade da situação quando viu toda a gente do
Castelo a afastar-se do marquês sob os mais diversos pretextos. Quando o marquês ficou só, Tempicos
apareceu de arco e flecha em riste. E… zás! O gendarme correu no seu encalço.
Tempicos, ao vê-lo, já fora do Bosque, pensou
tratar-se de um encontro ocasional e pediu que o acompanhasse, pois tinha
assistido a um assassínio. S Tou fez-lhe a vontade.
Sempre queria ver até onde ia a hipocrisia de Tempicos.
«Este homem, este ser híbrido, é um assassino. Eu vi. Ele matou o marquês.
Prenda-o» – insistia Tempicos. Mas como é que ele
podia saber que quem jazia no chão era marquês? – interrogava-se S Tou. E como é que ele podia questionar a masculinidade de
Santi, se não o conhecesse? E o que andava ele a
fazer por ali? A resposta podia ser esta: Tempicos
havia engendrado tudo aquilo. Katinha não se conteve. Ela tinha ouvido na véspera uma conversa entre o
sacristão e a enfermeira que a deixou de pulga atrás da orelha. Segundo a
alemã das seringas, a partir do dia seguinte não iria faltar dinheiro no
Castelo. Já antes, aliás, Kátinha ouvira a
cozinheira dizer ao cónego que a despensa iria finalmente ser abastecida.
Para além de que avistara depois o “papa milhas” a dar saltos de
contentamento, enquanto dizia que ia poder voltar a atestar o depósito do
Ferrari. A marquesa, por seu lado, rejubilava com algo que a fazia garantir
de que, a partir de agora, o forreta do marquês não conseguiria impedir que o
dinheiro jorrasse naquela casa. E toda esta agitação teve lugar após ela ter
recebido um telefonema de um tal Tem Picos. Conjugando
as informações recolhidas no local com os capítulos já publicados na Bancada Directa, sobretudo o último da autoria de Inspector Boavida, o gendarme S Tou
não hesitou nem mais um instante: mandou prender todos! Todos, excepto Salvador Santi, que
continuava debruçado sobre o cadáver do “seu” marquês alheio a tudo o que se
passava à sua volta, recordando os momentos felizes com ele vividos na sua
juventude. Até os autores dos sete capítulos da novela da vida real iriam ser
intimados a explicar muito bem – na justiça francesa, porque a portuguesa é
muito lenta – o seu envolvimento em toda aquela tramóia.
E quanto a Kátinha, essa já está condenada. Irá
viver para sempre prisioneira… do amor de S Tou! Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 27 de Setembro de 2026 TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da
Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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