Autor Data 25 de Novembro de 2001 Secção Policiário [541] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2001/2002 Prova nº 4 Publicação Público |
O CASO DO DETECTIVE REFORMADO A. Raposo Ainda não se tinha passado
um mês sobre a data da reforma do detective Tempicos e já as saudades começavam a roer. Parece que não, mas passara
muitos anos naquela instituição – a PJ – e começava a sentir saudades do
‘stress’! Guardara as cópias, como
recordação, da última investigação que iniciara, mas que não tivera tempo de
levar até ao fim. Paciência, a vida é assim. Recordou o caso desde o
início… Três raparigas viviam na
mesma habitação. Todas solteiras e bonitas. Duas eram enfermeiras e
trabalhavam num hospital. A vítima, essa era professora de inglês. Mary viera
de Londres, a convite do Instituto Britânico. As outras duas eram do Porto e
vieram para a capital por uma questão de vagas. Naquele domingo, Mary
aproveitara a viatura que os seus pais tinham trazido e fora fazer um
piquenique, junto à praia da Caparica. Alguém fora com ela e
tratara-lhe da saúde, não se sabia quem… Apareceu ao volante do
carro, com uma facada no pescoço, apanhando a carótida pelo caminho e
deixando o corpo sem vida, com a cabeça encostada ao vidro da porta. O crime
tivera lugar dentro do carro. A brigada da PJ, chamada ao local do crime, deu
esse facto como definitivo. Quem fez o trabalho, teve o
cuidado de limpar todas as impressões digitais. No piso do carro,
notavam-se leves vestígios de areia, bem como duas garrafas vazias de
cerveja. A viatura era um dois lugares ‘hard-top’. Um vendedor de gelados
passara, ao fim da tarde, junto ao carro e vira o drama. Chamara a polícia. Os pais de Mary tinham
vindo, de carro, passar umas férias e aproveitaram para ver a filha. Depois,
partiram para gozar mais duas semanas na Madeira. Joana, uma das duas
enfermeiras que viviam com Mary, tinha feito 12 horas de banco, no dia do
crime, pelo que pouco ou nada adiantou. Porém, na véspera fora com a Mary ao
supermercado comprar comidas e bebidas. Para ela trouxe duas Sagres e Mary
comprou um ‘pack’ de 6 garrafas de “Jansen”. Tudo
bebidas nacionais. No frigorífico da casa, o detective recordava ter encontrado ainda quatro garrafas
de cerveja que Mary adquirira, com o mesmo código das duas vazias,
encontradas no carro. Amélia, a outra enfermeira,
afirmou que tivera no dia do crime o seu dia de folga. Fora ao cinema.
Sozinha. Um provável suspeito, Tó
Jó, namorara com a Amélia e ultimamente andava atrás da Mary. Nos intervalos
piscava o olho a Joana. Era um macho latino. Nas horas vagas jogava ténis. Às
vezes aparecia no apartamento das jovens a acabava por baratinar
uma e outra. Com isso, provocava alguns ciúmes. Segundo Joana, era muito
amigo da pinga, para seu gosto. Amélia confirmara que Tó Jó
era bom rapaz, mas acabava sempre por se encharcar em bebidas. Com Tó Jó, recordava o Detective, sucedera um caso cómico, quando, ao assinar os
depoimentos na polícia, como assinatura ficaram uns gatafunhos, porque a mão
direita estava engessada. A jogar ténis, tinha caído mal e por isso teve de
escrever com a esquerda. Havia ainda um rapaz que, de quando em vez, surgia lá por casa das raparigas. Era o
Joaquim, mecânico de automóveis, primo muito afastado de Amélia. Aparecia
sempre um bocado mal vestido, com os dedos amarelos da nicotina. Tinha pouca
saída junto das raparigas. Também foi chamado a depor
e disse logo que só bebia tinto e fumava sem filtro. Era meio parvo, a armar
ao inteligente. Tinha o dedo polegar da mão esquerda todo escalavrado. A
razão – disse – foi ter dado uma martelada num prego e falhado o alvo por ter
metido umas litradas de tinto e, pareceu-lhe, ver
dois pregos! Por fim, vinha o depoimento
de Amélia, que pouco adiantava, excepto o facto de
lhe ter sido diagnosticada uma hepatite C, o que a obrigava a muitas restrições. Tempicos entrou na reforma exactamente
no dia em que os suspeitos foram todos, a horas diferentes, ler e assinar os
depoimentos, coisa que já não se usa fazer na corporação. Tempicos
conseguiu fazê-lo até à partida! Foi, por sinal, no final desse
dia que os colegas lhe ofereceram um relógio e lhe desejaram boa reforma. Tudo o que se passara
estava ainda bem fresco na memória do detective, só
que o caso não tinha sido por si resolvido e poderia ter sido. De facto, Tempicos “vira” quem era o assassino e, na altura, não
reparara. Sem dúvida que com a idade estava a perder qualidade… Pergunta-se: 1 – O que é que Tempicos “viu”? 2 – Quem é o assassino e
porquê? |
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© DANIEL FALCÃO |
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