Autor Data 17 de Novembro de 2002 Secção Policiário [592] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2002/2003 Prova nº 2 Publicação Público |
A MORTE DO MORENO DE OLHOS VERDES A. Raposo Aquela noite, do quente e
ventoso Verão lisboeta, passava lenta e monótona. O detective
Tempicos estava de plantão, na Judiciária, e, para
passar o tempo, entretinha-se a fazer as palavras cruzadas do PÚBLICO,
ouvindo um longo trecho de jazz no seu mini-rádio.
Sem dar por isso, acompanhava, tamborilando com os dedos no tampo da
secretária, a velha melodia, na voz roufenha e eterna de Louis Armstrong. Uma
cervejinha gelada e um pacote de pevides refrescavam o ambiente. Às três da madrugada –
normalmente, a hora do crime –, o seu telefone, finalmente, tocou. Tinha
havido caso, ali para os lados do Areeiro. Na Avenida do Aeroporto. Num instante, desceu à rua
e cerca de 10 minutos depois estava junto ao portão da Vivenda Ornelas. Tocou
à campainha e este abriu-se, bem como a porta principal da casa. Um indivíduo alto, forte e
com algumas brancas no cabelo, apresentou-se: – Coronel Ornelas. O senhor
deve ser da polícia... – Sim, detective
Tempicos, da Judiciária. Limpou os pés no tapete e
entrou no “hall”. No chão, estendido, de
bruços, estava um corpo. – Entramos por aqui, para a
saleta – disse o dono da casa, e continuou: – O corpo que está no chão
é o do Quinzinho, o marido da minha sobrinha. Esta noite aconteceu um
acidente. Eu sou o responsável. Assumo. Estava no meu quarto a tratar da colecção de borboletas, quando ouvi um ruído esquisito.
Pareceu-me vir do lado da porta da rua. Este ano já fomos assaltados uma vez,
por isso fiquei atento. Desci do meu quarto e entrei nesta saleta; retirei da
secretária a minha velha Luger, mas sempre
operacional, e fiquei esperando, às escuras. Ouvi uns passos no corredor e
apontei a pistola ao alto e disparei um tiro de intimidação. A seguir, como o intruso
nada dissesse ou fizesse, apontei de novo, para o que pensei ser as pernas do
vulto. Verifiquei, infelizmente, que tinha acertado. Pela minha prática de
guerra, vi que ele estava morto. Não mexi no corpo, nem deixei ninguém
aproximar-se. Vim telefonar logo para a polícia. Só depois chegou o
jardineiro que habita num anexo exterior à vivenda; veio ver o que se
passava. A minha sobrinha, a
Fatinha, que vive com o Quinzinho, apareceu a espreitar do quarto, mas eu,
rapidamente, voltei a empurrá-la para o interior, poupando-lhe o espectáculo e até a dor. A criada, a Hilda, como é
um bocado surda, não deve ter dado por nada, porque não saiu ainda do seu
cubículo. O detective
Tempicos apontou a secretária e abriu a gaveta. – É esta a arma? – perguntou. E, sem esperar pela
resposta, enfiou uma caneta pelo cano, meteu a arma numa saqueta de plástico
que trazia no bolso, fechou-a e meteu tudo no bolso. De caminho tacteou ainda umas pevides perdidas no fundo da
algibeira. Tempicos dirigiu-se ao corpo estendido no chão,
para uma observação superficial. A vítima era muito jovem,
de tez morena e de olhos verdes, verificou. Vestia uma camisa clara e
um casaco de cabedal leve e fino, calças de bom corte em bombazina escura,
sapatos de boa marca de macio cabedal, muito bem tratados. Sangue escorria por debaixo
do corpo. Tempicos deixou o resto para a brigada
que viria depois. Ao coronel Ornelas pediu para lhe indicar o quarto da
sobrinha, para a interrogar. Fatinha abriu a porta após
a apresentação do detective. Era uma moça roliça e
farta de curvas. Daquelas meninas mulheres muito comuns nos filmes americanos
da série B. Tanto melhor, pensou o detective e, com um sorriso forçado, interpelou a jovem
sobre o caso. – O meu tio não me deixou
sair do quarto, mas calculo que deve ter havido uma desgraça com o Quinzinho,
porque ele estava estendido no chão... Eu ainda vi. Tínhamos uma relação de
amor-ódio. A nossa ligação era difícil. Não estávamos casados, de papel
passado, mas era como se o fôssemos. De vez em quando, tínhamos as nossas
coisas. Ele está mesmo morto, não está? Não há nada a fazer? Que desgraça!
Quem diria, ele era tão forte, tão atlético, tão saudável, foi um tiro
certeiro. Que vai ser de mim agora? O meu tio tem-me protegido muito,
felizmente. Fiquei órfã muito nova. Tempicos fez com a mão o sinal de “já chega” e,
despediu-se da jovem, entregando-lhe um lenço de papel como forma de
contribuição para enxugar as próximas lágrimas. Após as explicações do
coronel, o detective dirigiu-se ao cubículo de
arrumos, onde a jovem criada Hilda preferia pernoitar. Tempicos bateu à porta e só depois de se
identificar como polícia conseguiu que esta se abrisse. O cubículo mal dava espaço
para um sofá-cama velho, vassouras, baldes e um escadote. Interrogada sobre
aquele local para pernoitar, a empregada disse preferir dormir ali nas noites
de muito calor a ficar no sótão, onde tinha quarto, mas o calor não permitia
pregar olho. Tempicos pediu-lhe que resumisse o que se passara
naquela noite e registou: – Sou um bocadinho surda,
mas ouço as brigas do casal. Estava já quase a pegar no sono quando ouvi um
ruído no corredor. Do meu interruptor do cubículo acendi a luz do “hall” e subi três degraus do escadote, para espreitar pela
bandeira da porta, que tem vidro, e vi a cara do Sr. Quinzinho a dizer
qualquer coisa voltado para dentro da casa. De repente, ouvi um tiro, o Sr.
Quim ficou com cara de pânico, depois outro tiro e ele fez uma careta e desapareceu
do campo de visão. Pensei que tinha sido alvejado. Subi mais um degrau do
escadote e vi o pobre do senhor no chão, com aqueles olhos verdes, parados.
Devia estar morto. Fiquei aterrada, pensando em ladrões. Tempicos agradeceu as informações e voltou à
presença do coronel. Perguntou-lhe se havia mais alguém na casa. Ornelas só
nesse momento se lembrou do motorista. Dormia no piso superior no corredor,
ao fundo. A custo e só depois de
bater diversas vezes à porta é que a ensonada personagem apareceu em pijama.
O seu depoimento também não adiantou grande coisa: – Na véspera, estive de
folga e fui numa excursão a Vigo. Já cheguei perto da meia-noite com a
barriga cheia de mexilhões e cerveja, caí na cama e dormi como um anjo... Tempicos não precisou de mais nada, desceu e foi
ter com o coronel que se preparava para ser levado, sob a suspeita de crime. Telefonou para a sua
brigada, a fim de mandar avançar o processo burocrático e técnico da polícia.
Ao sair com o coronel
verificou que na ombreira da porta uma bala estava incrustada. Antes, tinha
apanhado do chão duas cápsulas, perto da entrada da saleta. Posteriormente, o relatório
da técnica deu-lhe mais alguns dados: 1 – A arma do coronel fora
a que provocara o crime e as eventuais impressões digitais tinham sido
limpas; 2 – Quinzinho tivera morte
súbita. Uma bala cortara a aorta e deixara o coração em péssimo estado. Ornelas fora preso
preventivamente e iria ser acusado de ter praticado homicídio involuntário.
Por ter confessado, certamente que a sua condenação teria atenuantes. No seu currículo tinha uma
carreira militar exemplar e, ironia do destino, ultimamente dedicava-se com
êxito à escrita de romances policiais... Esta é a história. Pede-se
somente um final para a mesma, se possível curto, certeiro e verosímil. |
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© DANIEL FALCÃO |
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