Autor Data 7 de Dezembro de 2003 Secção Policiário [647] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2003/2004 Prova nº 3 Publicação Público |
A MORTE DANÇA O BOLERO A. Raposo Meus caros amigos. Esta
história não lembra ao diabo. Faz parte das minhas memórias e só me propus
contá-la muito pressionado pela tertúlia dos policiaristas
que frequentam, nas últimas quartas-feiras de cada mês, o Restaurante da Av.
da Liberdade, em Lisboa. Como sabem que estou
reformado da Judiciária, andam sempre a espicaçar-me, forçando-me a contar
casos complicados. São, aqui para nós, uns sádicos... Como já não está em segredo
de justiça, proponho-me contar esta triste história. Estava eu em serviço,
naquela tarde, já lá vão uns anos, ocupava na Judite o lugar de detective. Durante a minha carreira, cheguei a ter alguns
sucessos, poucos e muitos amargos de boca... Para quem não saiba o meu nome é
Tempicos. Detective Tempicos. Nesse dia, fui chamado a
Telheiras, junto à Escola alemã, a uma vivenda de vários pisos, e com um
pequeno jardim envolvente. Nessa data ainda não existia na zona um enorme
edifício tipo Coliseu Romano, também para a prática desportiva e decorado que
foi com uma colecção riquíssima de estonteantes
azulejos coloridos, que fazem as delícias dos amblíopes do Lumiar. Fui chamado para investigar
um caso de morte, na pessoa do capitão Magalhães, homem dos seus sessenta e
tal anos, militar reformado. Quando entrei, deparei com
os dois sobrinhos do capitão que viviam com ele, juntamente com uma velha
criada. Um jardineiro ia de vez em quando tratar do jardim. A história do capitão
Magalhães é de uma tristeza tal que faria chorar as pedrinhas da calçada.
Vejam só. O homem servira o País no exército, tendo cumprido várias missões
em África, até que com o 25 de Abril, regressou e encontrou a mulher com uma
doença daquelas que não perdoam. O seu único filho, já
adulto, que tratara da mãe, resolveu abreviar-lhe o sofrimento e enfiou-lhe
uma dose bem aviada de tranquilizantes, pelo que ela ficou definitivamente
tranquilizada! O médico desconfiou e… resumindo, o rapaz acabou apanhando dez
anos de prisão. Provou-se e ele confessou que tinha morto a mãe, por piedade.
O juiz que não encontrou nenhum decreto piedoso no código ferrou-lhe a dose. O capitão Magalhães era um
homem de formação militarista, conservador e católico ferrenho. Não perdoou
ao filho aquele acto. Com o conhecimento de todos,
fez testamento a favor do sobrinho mais velho, tendo alegado o artigo 2166 do
código civil para retirar a parte “legítima” ao seu filho. Segundo a versão
dos sobrinhos o tio resolveu acabar com a vida. Para pôr em prática tal
desiderato, subiu à sua sala, no 1º andar, um misto de biblioteca e auditório
de música e deu um tiro na boca, embalado no som rítmico do Bolero de Ravel,
utilizando a sua arma de guerra, que trouxera de Angola, uma Walter, que não
foi devolvida ao exército e que ficou como recordação. O sobrinho mais novo contou
depois que na altura navegava na “net” no andar por cima da biblioteca. Por
volta das 3 da tarde começou a ouvir o ”Bolero de Ravel”. No decorrer da
execução musical não ouviu qualquer outro ruído. Só soube do caso quando foi alertado
pelo irmão que foi ter com ele à sua sala, já o tio estaria morto e a polícia
avisada. O irmão mais velho contou
também a sua versão do caso. Estava a carpinteirar na cave, preparando umas
tábuas para produzir um pequeno móvel, usando a sua lixadora eléctrica nas madeiras. Apercebeu-se perfeitamente do
início da música que o capitão começou a tocar no gira-discos. Era o “Bolero
de Ravel” que o seu tio tanto gostava e que punha muitas vezes no ar. Lá para
o final da música, que ainda demora um bom quarto de hora, ouviu um tiro e um
ruído como de um corpo a cair no chão. Largou tudo e correu subindo à
biblioteca, à sala do tio. Pela enorme ferida que observou na nuca e por o
corpo se encontrar imóvel, percebeu que a morte fora instantânea. Saiu, fechou
a porta à chave, meteu esta no bolso e correu ao telefone da casa, o único,
que se encontrava junto à porta da rua. Depois foi avisar o irmão e a velha
criada. A criada, coitada, estava
na cozinha a tratar das panelas. Ouviu a música e só depois o sobrinho do
capitão lhe contou o sucedido. A cozinha ficava no rés-do-chão ao fundo da
casa. O jardineiro que esteve
toda a tarde a tratar dos canteiros, deu uma boa contribuição ao caso. Contou
que também ele era um melómano. Chegou a estudar música na sua terra natal.
Viu o capitão chegar à janela, fumando um cigarro e percebeu logo que ia
haver concerto. O capitão deixou a janela meio aberta e iniciou o Bolero de
Maurice Ravel. Sabia que a execução demorava um pouco mais de 16 minutos e
sabia porque fora ele que oferecera o disco ao patrão quando este fizera
anos. Havia gravações que demoravam um pouco menos, mas esta era tocada pela
Orquestra Filarmónica Europeia tendo como maestro H. Greenburg.
Na parte final, já com todos os instrumentos em pleno, no intervalo do bater
dos pratos, ouviu um barulho que lhe pareceu um tiro. O seu ouvido garantia
que aquela nota de ruído não tinha sido escrita pelo compositor… Por isso é
que largou as flores e foi bater à porta da frente, saber do caso, e, afinal
com toda a razão, porque teria havido o eventual suicídio do capitão. O cenário da morte era um
tanto violento, mesmo para quem tinha como eu tanta prática. No primeiro
andar, numa ampla divisão tipo biblioteca/sala de música, um sofá estava
estrategicamente colocado frente às colunas e ao conjunto sintonizador –
amplificador – toca discos. Uma única janela, meio
fechada. Um grosso tapete persa ocupava toda a sala. Umas estantes com livros
rodeavam a zona da aparelhagem musical. A parede por detrás do sofá tinha
alguns pequenos quadros de motivos africanos. O corpo do capitão jazia de
bruços na espessa alcatifa. Um buraco enorme e muito feio na nuca, por onde a
bala saiu, juntamente com muito sangue. A arma – uma Walter – de guerra,
ficara por debaixo do corpo. A bala que saiu foi alojar-se na parede por
detrás do sofá a cerca de um metro e oitenta do rodapé. Os braços junto ao
corpo. A morte teria sido instantânea. Uma cápsula foi encontrada debaixo do
sofá. O “C.D.” de Ravel encontrava-se ao lado da respectiva
caixa, sobre o “compact disc-player”.
O aparelho estava ligado, bem como o amplificador. Este caso, na época deu
muita celeuma na polícia. O que me valeu foi que na altura as televisões
ainda não andavam atrás dos casos de polícia, como de pão para a boca. Por causa dele tive uma
série de aborrecimentos com a chefia e acabei pedindo a reforma antes do
tempo (ou seriam eles que ma deram?), mas isso já não interessará aos nossos
amigos confrades... Peço-vos a solução do caso e, já agora,
digam-nos quem irá herdar a vivenda do capitão Magalhães sabendo que ele fez
testamento e a sua família se resumia aos que entraram na história. |
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© DANIEL FALCÃO |
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