Autor Data 1 de Setembro de 2023 Secção O Desafio dos Enigmas
[168] Competição Torneio
"Solução à Vista!" – 2022 Prova nº 11 Publicação Audiência GP Grande Porto |
Solução de: O MISTÉRIO DA TERCEIRA CHAVE Búfalos Associados A
Dona Rosa, antes de ter ido trabalhar na Leitaria Estrela d'Alva, tinha sido
empregada em casa da Tia Laurinda, onde presenciou inúmeras conversas entre a
dona da casa e o inspetor Garrett, o que lhe criou um verdadeiro interesse
por tudo o que diga respeito a problemas policiais e às deduções lógicas que
estes proporcionam. E como, na verdade, não era nada parva, pelo contrário,
ganhou cada vez mais o gosto por esses assuntos, o que lhe veio a ser muito
útil quando se viu envolvida no caso do roubo do cofre da Leitaria Estrela
d'Alva. Tanto assim que não teve dúvidas em desenvolver um raciocínio e uma
suspeita, que viriam a ser confirmadas mais tarde pela investigação. E qual
foi esse raciocínio? Sabendo
que todas as pessoas que possuíam uma chave da porta da rua eram à partida
suspeitas, descartou logo o vizinho da janela em frente por não se encontrar
nessas condições. Não se descortinava nada contra ele, nem sequer havia
qualquer indício de que pudesse estar conluiado com alguém do café. A seguir,
não havendo motivo para não aceitar como bom o testemunho do vizinho, e
atendendo ao seu próprio físico franzino, a Rosa, apesar de ser possuidora de
uma chave da porta, ficava fora da suspeita de ser confundida com o tal
“vulto de homem”, certamente mais encorpado. Portanto,
o culpado do roubo estaria por força entre os restantes quatro homens, tanto
podendo ser empregado como patrão. E tendo ela presenciado as declarações que
todos prestaram, tornou-se claro que um deles deveria ter mentido ou
escondido a verdade, e esse seria certamente o gatuno. Chamou-lhe
logo a atenção o facto de o patrão Vasco ter mandado o Silva fazer uma
limpeza total ao frigorífico depois das 20 horas, e saber-se depois que uma
das terceiras chaves do cofre podia estar lá dentro escondida. O Silva
declara ter saído pelas 22 horas, portanto teve tempo para fazer a limpeza
pedida e, assim, podia ter encontrado a chave na gaveta das hortaliças, o que
o torna desde logo suspeito de ter sido ele quem o vizinho viu, mais tarde,
embuçado e já na posse dessa terceira chave, a entrar para assaltar o cofre,
depois de arrombar a porta do escritório uma vez que não possuía essa chave.
Estaria encontrado o culpado? Mas então, se isto for verdade, porque não fez
logo o roubo e guardou para a noite o que podia ter logo despachado? E como é
que sabia que aquela chave era a do cofre, se só os patrões deviam saber da
existência de uma terceira chave? Estava identificada? Não é credível, pois
seria uma péssima segurança. Concluindo, a hipótese de acusar o Silva deixa
muitas dúvidas. Mas o raciocínio prosseguiu. A
Rosa não tardou a destacar o facto de que tanto o Silva, como o Ribeiro, como
o Barroso, apresentaram alibis que podiam vir a ser confirmados. Mas a
verdade é que o Vasco foi o único que não indicou nenhum local onde pudesse
ter estado à uma hora da noite. Sintomático. Será que é ele o culpado e achou
isso desnecessário, uma vez que as suspeitas sobre o Silva deveriam vir a ser
tão fortes que tudo o resto esqueceria? Junta-se a isto a ideia invulgar de
ter feito um empregado ficar a trabalhar sozinho, fora de horas, e logo a
limpar o frigorífico onde ele próprio teria escondida a terceira chave do
cofre. Quase um convite a encontrá-la. Tudo agora parece claramente tornar
suspeita a atuação do Vasco. E mais, salta à vista a
preocupação que ele teve em salientar a certeza de o ladrão ter sido um
empregado, já que um patrão não precisaria de ter arrombado a porta do
escritório. E mesmo que o Silva porventura tivesse encontrado uma chave nas
“hortaliças”, como é que podia adivinhar que chave era essa? Em
face de tudo isto a Dona Rosa tinha já uma forte suspeita de que o patrão
Vasco, apertado por dívidas cada vez mais preocupantes, teria arquitetado uma
encenação para atirar as culpas sobre o pobre do Silva, para afinal ser ele
próprio o ladrão do avultado recheio do cofre. O
mais certo é que na gaveta das hortaliças nunca esteve nenhuma chave
escondida. Pura mentira. O plano só funcionaria se o Silva fizesse a limpeza
sem nada encontrar de anormal. O Vasco tinha em seu poder a “sua terceira
chave”, além claro da sua própria. Pela calada da noite, perto da uma hora,
bem embuçado para não ser reconhecido, devia então fazer a prevista operação.
Entrar, arrombar de propósito a porta do escritório, abrir o cofre, sacar
todo o dinheiro, metê-lo num saco, deixar a porta do cofre aberta com a chave
na fechadura para acusar o Silva de a ter encontrado no frigorífico, e sair
tranquilo. O plano era dar a ideia de que o roubo tinha sido feito pelo Silva
logo no fim da limpeza. Mas não podia prever que, à uma hora da manhã, havia
um vizinho a fumar à janela e que viu um “vulto de homem” a entrar no café.
Esse testemunho foi-lhe fatal. Os alibis depois averiguados acabaram por
ilibar os três outros suspeitos. Apenas o Vasco não conseguiu provar que não
podia ter estado ali àquela hora, pois nem sequer tinha pensado em inventar
um alibi. Em face de toda esta análise, a “inspetora” Rosa não tinha dúvidas:
não havendo mais nenhum forte suspeito, o patrão Vasco não podia deixar de
ser o gatuno do cofre. Quanto
ao nome que os dois sócios, Vasco e Ribeiro, escolheram para o café, teve a
ver com os nomes de dois dos mais populares atores portugueses, Vasco Santana
e Francisco Ribeiro (Ribeirinho), a que se vieram juntar os empregados Silva
e Barroso, que lembravam os não menos populares António Silva e Barroso
Lopes, todos participantes do elenco do filme de 1942, “O PÁTIO DAS
CANTIGAS”. Não esquecendo, claro, a Dona Rosa, que é uma das personagens
principais. Quem não se lembra da “Leitaria Estrela d'Alva, leites, queijos e
manteigas das melhores proveniências"? Quem não se lembra de: “Ó Evaristo, tens cá disto?”
Ou de: “Ó seu camelo, seu grandecíssimo
e alternadíssimo camelo!” Ou de: “Dona Rosa, a sua
filha chegou do Brasil!” A
verdade é que “O Pátio das Cantigas” é o único filme português em que se
encontraram os três maiores comediantes da época: Vasco Santana, Ribeirinho e
António Silva. Em mais nenhum estiveram os três juntos. Esta pista não
falhava. Outra curiosidade é que,
num filme tipicamente lisboeta, as cenas que não foram rodadas em estúdio,
foram filmadas em Coimbra. O cinema faz milagres. |
© DANIEL FALCÃO |
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