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Autor Data 23 de Novembro de 1984 Secção Competição Problema nº 1 Publicação Badaladas |
PRENDAM ESSE CEGO!!! Constantino O cego era um homem de meia-idade.
Pobremente vestido, é certo, porém de aspecto limpo. Tomara poiso habitual perto do Banco
dois meses antes. Ele e o impassível cãozinho que o guiava. A sua humildade e simpatia conquistara
de imediato os funcionários daquele. Acostumara-se a bater de mansinho na
porta semi-encerrada, antes da abertura ao público, era convidado a entrar, e
recebia com humildade, sorriso nos lábios, uma pequena moeda de cada um, uma
maior da parte do gerente. Naquele dia o cego entrou como de
costume. Mas não havia cão a guiá-lo: uma máscara tapava-lhe o rosto e, na
mão firme, mostrava uma automática reluzente. Atónitos, ninguém fez um gesto. Cerca
de 3000 contos que haviam sido tirados do cofre-forte para os pagamentos
previstos no dia, foram atulhar-lhe os largos bolsos. Recuando o homem atirou para o meio da
sala deserta um saco enrolado e avisou que continha uma bomba que rebentaria
dentro de segundos. Todos se lançaram para o chão na ansia
de escaparem à deflagração em prespectiva. Quando, por fim, o alarme foi
accionado, um carro, cá fora, acabava de arrancar a grande velocidade. Escassos minutos depois, a polícia
chegou. Não havia bomba. O Cego acabava de chegar ao poiso
habitual com o fiel cãozinho. Sem dinheiro e sem pistola. Calmamente preparava-se para o
peditório diário. Arrastado ao Banco, posto em confronto
com os funcionários do mesmo, nada de concreto se concluiu. O homem seria
mesmo cego. Naquele dia não entrara no estabelecimento bancário. O seu guia
adoecera, demorara-se? Não quisera incomodar. O cão tristemente encolhia o rabo
entre as pernas… confirmativo. Nenhum transeunte, num dia
infelizmente escasso de passantes dera pelo roubo. Nenhum indício. Começara a duvidar-se se alguém não se
fizera passar pelo cego. Mas o inspector era um homem paciente.
Conhecia toda a espécie de truques da sua profissão e das alheias. Desconfiado se não estaria face a um
falso cego, espreitou o homem de longe, estudando os seus movimentos, as suas
atitudes. Passou-se diante, silenciosamente, parou na sua frente e, de
imprevisto, levantou a mão rapidamente chegando-lhe dois dedos espetados nos
olhos. O olhar deste nem tremeu. Afastou-se e voltou a passar-lhe perto
atirando para os seus pés uma moeda de elevado valor. Foi espreitar de longe.
O cego, entretanto, nem se mexera: aguardou que um transeunte passasse perto
e pediu-lhe para apanhar o dinheiro. Presistiu. Mandou notificar o cego
para comparecer no dia seguinte na esquadra, a fim de assinar um depoimento. Acompanhou-o, de longe, no percurso. Era como que o cerco dum caçador a um
animal condenado… Viu o homem aproximar-se. Parar um
instante no cruzamento, acender o cigarro, aguardando o sinal verde do
semáforo, incitar com um ligeiro toque de rédea o cão guia e atravessar. Ouviu a seca resposta do polícia de
guarda à porta. – Suba. Segundo andar, terceira porta
à direita! Antecipando-se, subiu a íngreme escada
cujo corrimão ostentava flagrante cartaz: Atenção - Pintado de fresco. Quando o notificado entrou o inspector
ficou a observar o homem ajeitar-se com àvontade na poltrona cruzando, em
espectativa, as mãos brancas e limpas, e esperar. O cão deitou-se a seus pés. Prolongou com propósito o silêncio… De repente indagou: – Sabe ler? – Braille sim, mas apenas um pouco –
respondeu o visado com timidez. Pegou num cartão perfurado e
apresentou-lhe. O cego passou os dedos pelo pontuado,
lendo e vacilante leu meia dúzia de palavras. Então recolhendo abruptamente o cartão
leu uma folha de papel, com cujo conteúdo o seu ouvinte concordou. Guiou a
mão do cego até ao local onde devia assinar… Trocaram meia dúzia de banalidades. Pouco depois o cego saiu e o
desconfiado inspector deu um salto na cadeira. Ligou para o guarda da portaria. – Prendam esse cego que acaba de sair! DESAFIO Que factos levaram o inspector a tomar
tal atitude? |
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© DANIEL FALCÃO |
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