Autor Data 29 de Fevereiro de 2004 Secção Policiário [659] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2003/2004 Prova nº 6 Publicação Público |
FORAM AMIGOS… Daniel Falcão A Festa da Coca é uma
manifestação popular e religiosa, celebrada desde meados do milénio passado e
que continua a ser levada a cabo, com o respeito, entusiasmo e tradição que
sempre a caracterizaram, pelas gentes da vila raiana de Monção. Esta
festividade aproveita para reforçar a vitória do bem sobre o mal, simbolizada
pelo combate entre S. Jorge e o Dragão (com o primeiro a sair sempre vencedor
da peleja). Foi o meu interesse em
assistir a este dia festivo que me levou a aceitar o convite formulado por um
bom amigo, residente naquela verdejante terra minhota. O que eu não esperava
era encontrar o meu ex-colega de faculdade a concluir uma investigação
policial que se prolongara durante uma semana. Pelo contrário, tinha o desejo
de o encontrar no prelúdio ou numa fase crucial de uma qualquer investigação,
para a qual pudesse dar o meu contributo. Sendo ele conhecedor do meu
prazer em decifrar casos policiais, decidiu, como já o fizera em várias
outras ocasiões, pôr-me à prova, dando-me conhecimento dos elementos
recolhidos durante o respectivo deslindar. «Foi solicitada a minha
presença numa aldeia aqui próxima, onde ocorrera uma morte suspeita. A
moradia, onde tudo sucedera, era habitada por três personagens – Alberto,
Bernardo e Carlos –, há já alguns anos e, pelo que constava, amigos de longa
data. Chegado ao local, deparei com o morto e os dois sobreviventes, para
além do restante pessoal policial. A moradia, térrea, fora
construída numa clareira aberta numa zona tipicamente florestal. Para aceder
à moradia, saindo da estrada municipal, passávamos por uma vereda, ladeada
por altas árvores, completamente empedrada até à entrada principal. A área da
clareira estendia-se em mais de 20 metros, partindo das paredes exteriores da
moradia. Ultrapassando a entrada
principal da moradia, aparece o “hall” e, depois,
passando a primeira porta interior, deparamos com a sala de estar. Nesta
sala, podemos observar quatro outras portas: uma do lado direito, quando se
entra, dando acesso ao escritório onde fora encontrado o corpo; à esquerda,
existiam mais duas portas, a primeira permitindo aceder à sala de jantar e a
segunda servia para entrar na cozinha; pela última porta, mesmo em frente,
passamos à área onde se situam os quartos. Entrando neste último
espaço, encontramos em frente os quartos de Bernardo, este no canto oposto ao
escritório, e de Carlos, os sobreviventes, separados por uma casa de banho
para uso comum. A porta do quarto de Alberto ficava à direita, para quem
entra nesta zona da moradia. O quarto de Alberto, para além de ter casa de
banho privativa (era o dono da casa), tinha ainda uma porta de ligação com o
escritório. Bernardo fora o primeiro a
chegar ao escritório onde encontrara o corpo, já sem vida, de Alberto. Nas
suas declarações, Bernardo referiu ter acordado sobressaltado com um som que
lhe pareceu ser proveniente de uma arma de fogo. Já passava da uma hora da
madrugada. Saiu então do quarto, acendeu as luzes da área de acesso aos
quartos, primeiro, e da sala de estar, depois. Chamou-lhe a atenção a porta
do escritório que se encontrava ligeiramente entreaberta. Dirigindo-se ao
escritório, empurrou a porta, acendeu a luz e deparou com o corpo do amigo
sentado à secretária, com a cabeça sobre a mesma, de onde sobressaíam os
estragos provocados, como viria a confirmar-se mais tarde, por um disparo
fatal. Hesitou durante algum tempo, menos de um minuto, até decidir chamar a
polícia, quando apareceu no escritório o outro residente, Carlos. Quando cheguei à moradia,
iniciei a minha investigação pelo escritório. Curiosamente, verifiquei que
Alberto estava sentado num banco. Explicaram-me, mais tarde, que se tratava
de uma simples mania; preferia, quando se sentava à secretária, usar um
desconfortável banco, em vez da tradicional cadeira de braços, com todas as
comodidades inerentes. Sobre a secretária, além da
cabeça e do braço direito, existia apenas um candeeiro, apagado, do lado
direito e um telefone e uma caneta do lado oposto. Quando sentado à
secretária, Alberto podia facilmente observar quem entrava pela porta
principal do escritório, inclinando-se levemente para a esquerda. Em frente a
essa porta existe uma janela, que fora encontrada aberta. Pelo lado exterior,
junto à janela, foram encontrados dois elementos muito interessantes: num
canteiro com flores, que havia sido regado no dia anterior ao fim da tarde,
observaram-se algumas flores partidas e, na terra, marcas de pegadas, como se
alguém tivesse por ali passado; e, mais interessante, a arma de onde saíra a
bala que atravessara a cabeça de Alberto. A cabeça de Alberto ficara
num estado verdadeiramente lastimável. Distinguia-se, sobremaneira, a ferida
com queimaduras e com contornos bastante lacerados e muito irregulares. A
bala fatídica atravessara um quadro pendurado na parede, próximo da janela, mesmo
na testa do retratado. Passei, depois, à segunda
fase da investigação: recolher as declarações dos residentes sobreviventes.
Na noite anterior, no final do jantar, por volta das 21h, separaram-se:
Alberto foi para o escritório, Bernardo foi para o quarto e Carlos saiu para
se encontrar com uns amigos. Bernardo esteve a ler e a ver televisão até à
meia-noite, hora a que se deitou. Viria a acordar, sobressaltado, quando
escutou o som do disparo e comportou-se, a seguir, como já te referi. Carlos
chegou a casa, por volta da uma hora da madrugada, depois de se despedir dos
amigos que o levaram de carro até à entrada da vereda que dava acesso à
moradia. Teve de percorrer a pé esta última parte do caminho até chegar a
casa. Após entrar em casa, dirigiu-se imediatamente para o quarto, pelos
vistos cambaleando, pois tinha-se excedido nas bebidas. Referiu ter demorado
algum tempo a reagir ao som estranho que escutara e dirigira-se, em seguida,
ao escritório, seguindo as luzes que estavam acesas. No dia seguinte, quando
nos voltamos a encontrar, acrescentou que se lembrara de, ao chegar a casa,
quando devia estar mais ou menos no fim da vereda que dava acesso à clareira,
ter visto um vulto a entrar na moradia. Mas, reconheceu ele, como no dia
anterior não estava suficientemente lúcido, havia-se esquecido de o
mencionar. Ainda sobre a moradia,
deixa-me acrescentar que, no seu exterior, não existe qualquer tipo de
iluminação e que a lâmpada do “hall” de entrada
estava fundida há já vários dias. Para além da porta principal de entrada,
assim como de algumas janelas, existiam ainda mais duas portas de acesso pelo
exterior: uma com entrada directa para a cozinha e
a outra com entrada directa para o quarto de
Alberto. Enquanto procedia à recolha
das declarações, os meus colegas trataram de fazer uma visita, digamos antes,
uma simples observação das restantes divisões da moradia, procurando
encontrar alguns elementos passíveis de interesse para a boa prossecução da
investigação. No quarto de Carlos descobriram três pares de sapatos (a ele
pertencentes), tendo um deles resíduos de terra que viria a confirmar-se ser exactamente do mesmo tipo da existente no canteiro de
flores já mencionado. A investigação prosseguiu
nos dias seguintes. Foi confirmado não existirem quaisquer impressões
digitais na arma fatal. Uma revista mais cuidadosa feita à moradia revelou
uma descoberta muito interessante que, ao ser relacionada com outros
elementos recolhidos, se veio a tornar preponderante para descortinar o que
havia sucedido.» Enquanto escutava a
narrativa do meu amigo, assistia ao combate entre S. Jorge e o Dragão debaixo
de um sol magnífico, que alimentava aquelas nobres terras minhotas havia já
vários dias. Foi então que iniciei a
minha investigação. Enquanto aguardam que vos exponha os resultados a que
cheguei, que tal darem o vosso parecer? O que terá efectivamente
acontecido? Façam a vossa exposição, não esquecendo nenhum dos elementos
presentes na narrativa. |
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© DANIEL FALCÃO |
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