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Autor Data 9 de Outubro de 2026 Secção Página
Policial [2] Publicação Correio do Ribatejo |
A RECEITA DOS CELESTES Detective Jeremias Francisco tinha dez anos pequenos e uma existência
recheada de peripécias. Com algumas horas de vida fora abandonado, embrulhado
em trapos imundos junto à porta exterior do Convento das Clarissas. Quis o
destino (e a Santa Clara de Assis) que a irmã Joanna o ouvisse. Fora
acolhido, baptizado e criado nos dois conventos, ora no de Santa Clara, ora
no de São Francisco, usufruindo do melhor de cada um. Das irmãs recebia o
mimo e os afagos maternais, e dos irmãos franciscanos, a liberdade. Era com
eles que percorria o centro da urbe ou os arrabaldes, embora nestas saídas o
miúdo estivesse mais interessado em espreitar as actividades de construção do
que na pregação das práticas cristãs. Francisco vivia à solta, bravio e fazia
o que lhe dava na gana. O irmão Alexandre, o frade mais culto, era responsável
pelos livros e tentara ensinar-lhe alguma coisa. Sem sucesso. O rapaz ficou
vermelho, assoprou e pós um ponto final no assunto argumentando que, além do
irmão Alexandre, só o Guardião e o irmão despenseiro sabiam ler e ele,
Francisco, quando crescesse não ia ser uma coisa nem outra. Assim, o irmão
Alexandre passou a contar-lhe histórias, lendas e segredos. Francisco ficou a
saber que São Francisco de Assis fora o criador da tradição do presépio na
altura do Natal. Ficou a conhecer também a história da raposa e das uvas
talhadas em pedra no cimo de uma das colunas do coro do Convento de São
Francisco. Soube da existência do estreito túnel secreto que unia os dois
conventos, onde mal passava um homem de estatura normal. Era uma galeria
construída para facilitar uma fuga em caso de perseguições. O irmão Alexandre
nunca lá tinha entrado, mas vira nos registos onde eram os acessos do túnel e
também o seu comprimento de 700 pés reais (o pequeno Francisco não sabia nem
medir, nem contar os passos, mas parecia ter olhos de gato e usava o túnel
quase diariamente). O que mais gostava de ouvir eram as histórias de tirar o
sono e arrepiar os cabelos: As Emparedadas, o Santíssimo Milagre, os Meninos
de Alfange ou a tragédia sanguinária das irmãs Leonor e Maria Telles. Realidade
ou fantasia, Francisco não tinha medo de nada, ao contrário do assustadiço
irmão Alexandre que receava o anoitecer e abominava a escuridão. Há duas semanas que Francisco farejava alguma coisa
diferente. Nos Franciscanos, via rostos carrancudos, ouvia palavras zangadas
desfechadas em surdina e conversas em tom agreste – logo interrompidas quando
o avistavam. Desta vez, nem Inocêncio, o Guardião, homem pequeno, mas de
pulso firme, conseguia lidar com a situação. Parecia inacreditável que este
frade, que dirigia o convento e impunha respeito, estivesse agora com
dificuldades em desanuviar o clima de tensão. Francisco tentou descobrir o
que se passava. Fez-se despercebido, como a osga na parede, e não tardou a
desvendar parte do mistério. Alguns irmãos franciscanos pareciam agastados
com as benesses das Clarissas. Francisco até achou estranho. O irmão
Alexandre tinha-lhe contado que Clarissas e Franciscanos eram irmãos desde
que o mundo é mundo. O primeiro nome fora mesmo Irmãos e Irmãs da Penitência.
Mas o irmão Alexandre também lhe tinha falado nos pecados do ciúme e da
inveja, e as coisas começaram a ficar mais claras na cabeça do rapaz. Outras
rivalidades eram bem evidentes: o tamanho da igreja do convento de Santa
Clara – bem maior que a dos Franciscanos – fazia com que muitos nobres a
quisessem escolher para última morada; ou a arca de Dona Leonor Afonso, razão
pela qual muitas damas da corte e da nobreza faziam votos religiosos e doavam
os seus bens ao Convento das Clarissas; isto para não falar nas reais mercês
e nos benefícios do papa. A gota de água nesta rivalidade era agora dada pelo
mais recente sucesso alcançado pelas irmãs: a doçaria conventual. À noitinha, a mente de Francisco ruminava ainda
esta realidade. Gostava de dormir enrolado no meio do perfumado roseiral das
Clarissas. Era tão antigo, plantado no tempo do Rei Bolonhês, que a própria
terra cheirava a rosas. E além disso, para Francisco, tinha a vantagem de
ficar perto do acesso ao túnel secreto. Mais tarde, um som de passos sorrateiros acordou
o miúdo, que era bicho de sono leve. Depois ouviu o baque seco da tampa a
cair – alguém entrava no túnel – e Francisco voltou a adormecer. O sol ainda
não tinha nascido, nem sequer tinha tocado o sino para as matinas, quando um
alvoroço o acordou. Alguém tinha roubado qualquer coisa dos aposentos da irmã
Joanna, a responsável pelo convento. Do baúzinho onde guardava vários
documentos apenas tinha desaparecido a receita dos celestes – o doce divinal.
Era a novidade e a criação açucarada mais pretendida. O registo das
quantidades exactas de ingredientes era unicamente do conhecimento da irmã
Joanna e da irmã Berengária, a despenseira. Se o doce começasse a ser feito
por aí, as Clarissas perderiam o exclusivo e um rendimento considerável. O
segredo estava na quantidade dos diferentes produtos utilizados. Que levam
amêndoas, ovos e açúcar até Francisco sabia. Humm… o rapaz recordou a areia
peganhenta que lhe tinham dado a provar. Tão doce como o mel. A irmã Joanna
disse que o açúcar vinha de longe – da ilha da Madeira –, e Francisco
imaginava uma árvore de madeira clara, que dava serradura de açúcar. Mas quem
teria sido o ladrão? Francisco pensou e percorreu o túnel até ao Convento de
São Francisco. A meio caminho tropeçou num tecido que depois viu ser um manto
das irmãs Clarissas. Fora uma irmã que deixara cair o manto? Ou o ladrão
entrara disfarçado? A quem poderia interessar a receita dos Celestes? A
cabeça do rapaz rebentava com tantas perguntas de uma vez só. Nos
Franciscanos reinava a calma. O dia também ainda não tinha começado por esses
lados. O irmão Bonifácio, o despenseiro, dormitava sentado junto aos
claustros. Tinha dificuldade em dormir. Como todos os despenseiros que o
rapaz conhecia, era demasiado gordo, respirava mal e tinha falta de ar e, por
isso, nunca se deitava. Francisco ainda pensou em acordar o frade para lhe
contar o sucedido. Depois, arregalou os olhos, bateu com a mão na testa e
disse alto: – Já sei quem é o ladrão! Ao leitor não se pede que descubra erros
históricos, pois serão inadvertidos. O que se pretende é saber o nome do
ladrão da receita dos celestes e, já agora, como conseguiu chegar a essa
conclusão. |
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© DANIEL FALCÃO |
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