Autor

Detective Sem Nome

 

Data

28 de Março de 1957

 

Secção

Quem Foi? [110]

 

Competição

Torneio "Detective Sem Nome"

I Problema – VI Torneio

 

Publicação

Mundo de Aventuras [398]

 

 

UM PEQUENO PORMENOR

Detective Sem Nome

 

Estávamos, eu e o inspector Huxiey, no quarto do multi-milionário Conde de Vilalva, que ali fora encontrado morto. O meu amigo inspector examinava o quarto em todos os seus pormenores e procurava qualquer indício que o levasse à solução deste caso assaz misterioso. Eu quedava-me a um canto, observando Huxley, enquanto ele procurava qualquer coisa entre os frasquinhos que se encontravam sobre a mesa de cabeceira. De súbito, vi o inspector debruçar-se para o cesto de papéis, que se encontrava junto da mesa de cabeceira, e espreitar para dentro. Em seguida meteu a mão, mas, com grande espanto meu, só trouxe uma bola de algodão, que levou ao nariz. Deitou de novo a bola de algodão no cesto, levantou-se e dirigiu a sua atenção para o «toilette», onde nada pareceu encontrar de extraordinário. Foi a minha vez de entrar em acção. Perguntei:

– A que é que cheira o algodão, inspector?

A álcool! – disse este, preocupado.

Bateram à porta. Era o sargento Tatcher, que avisou :

– Está toda a gente reunida na sala. O médico pede licença para se ir embora, por que diz ter muito que fazer.

– Já veio o resultado da autópsia? – perguntou Huxley.

– Ainda não.

– Então não pode sair ninguém. Além disso, interessa-me sobremaneira o depoimento do médico. Estou convencidíssimo de que se trata de um delito…

Eu continuava calado, mas custava-me a acreditar nas palavras do inspector. Todos sabíamos que o milionário era um cardíaco em adiantado grau e que, há tempos, tivera um perigoso ataque de coração. Os dois irmãos e a irmã não mais lhe abandonaram a casa, à espera de um possível desenlace fatal, e também da herança, sejamos francos. Podia ser que, no final de contas, o inspector não estivesse errado. O médico assistente dissera que não achava o seu cliente em perigo iminente. Ainda na véspera notara sensíveis melhoras, mal calculando que na manhã seguinte o criado o encontraria morto no leito, Em face daquela morte inesperada, o médico resolvera comunicar o caso à Polícia.

Huxley continuava com o seu exame ao quarto, e neste momento a sua atenção recaía para a almofada e as pontas de cigarro que enchiam um cinzeiro colocado sobre uma mesa perto da cama. Eu também examinara essas pontas de cigarro, e já tinha notado que duas delas apresentavam vestígios de «bâton». Finalmente, Huxley disse:

– Bom, vamos então lá abaixo falar com essa gente.

Descemos à sala onde se encontravam três criados, o médico e os três irmãos do morto. Quando entrámos, sentimos logo um ambiente de hostilidade. O inspector não ligou a menor importância ao ambiente e fez uma pergunta ao médico.

Este respondeu que visitara o milionário por volta das 9 horas da noite. Demorara-se pouco tempo, mas tinha a certeza de que ele se encontrava melhor e que nada fazia prever um desfecho tão repentino.

Os criados informaram Huxley de que haviam saído juntamente com o médico e que só tinham regressado pelas cinco horas da manhã; o patrão havia-lhes dado licença para irem a um baile numa povoação vizinha.

Filipe e Tomás de Vilalva, por sua vez, disseram que tinham ido ao quarto do irmão por volta das dez horas da noite, e que o tinham encontrado, muito bem disposto, a ler um livro. Quanto a Isabel Calheiros, a irmã casada do Conde de Vilalva, fora ao quarto do doente cerca das 10 e meia, mas encontrara já a luz apagada e calculara que o irmão estivesse a dormir.

Neste momento retiniu o telefone. Um dos criados atendeu a chamada, mas passou imediatamente o aparelho ao inspector. Este, quando acabou de falar, trazia nos olhos um lampejo de triunfo: o médico legista acabava de lhe comunicar que Vilalva fora morto pela aplicação de uma dose exagerada de morfina. Depois de Huxley comunicar esta notícia, todos os presentes se olharam espantados, mas mais espantados ficaram quando o inspector mandou que dois polícias levassem o médico para a esquadra e o mantivessem sob prisão até ele acabar as suas investigações. O pobre do médico bem protestou a sua inocência, mas Huxley nem pareceu ouvi-lo. Foi só quando o médico saiu que os dois irmãos se lembraram, quase ao mesmo tempo, de que na véspera o irmão estivera com um aspecto esquisito. Isabel Calheiros, por sua vez, também era de opinião que o Conde de Vilalva não estava a dormir quando ela entrara no quarto, como a princípio tinha pensado, Tinha agora a certeza de que o irmão estava desmaiado.

O que se passou em seguida foi ainda menos esperado que a prisão do médico: o sargento Tatcher levou as mãos ao peito, revirou os olhos e tombou pesadamente no chão. Todos se precipitaram para ele, e o inspector Huxley, tomando-lhe o pulso, murmurou:

– Parece-me que mandei o médico embora demasiadamente cedo. Agora é que ele nos faz falta…

Com ar decidido e enérgico, Isabel Calheiros ordenou aos irmãos:

– Deitem-no ali no divã, e um de vocês – continuou, dirigindo-se aos criados – vá ao meu quarto e traga a minha farmácia portátil.

– Podes levantar-te – disse o inspector Huxley ao sargento Tatcher. – A senhora Calheiros já descobriu que o teu pulso está absolutamente normal.

Depois, dirigindo-se a Isabel Calheiros, perguntou:

– É então uma enfermeira profissional, não é verdade?

Isabel Calheiros não respondeu, limitando-se a morder os lábios. Huxley continuou:

– Minha senhora, tenho a obrigação de a mandar prender como suspeita de homicídio.

 

PERGUNTA-SE:

1º – Concorda com a decisão do inspector Huxley?

2ª – Porquê? Exponha o seu ponto de vista.

 

© DANIEL FALCÃO