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Autor Data 4 de Abril de 1957 Secção Quem
Foi? [111] Competição II Problema – VI Torneio Publicação Mundo de Aventuras [399] |
O CASO DO AUTÓGRAFO Detective Sem Nome O inspector Huxley
conseguiu as suas tão almejadas férias e começou logo a tratar dos
preparativos para a viagem à sua terra natal, os E.U.A., viagem essa em que
era acompanhado pelo seu subalterno, o sargento Tatcher, também da mesma
nacionalidade. É claro que eu não me podia quedar por cá, lutando num marasmo
de falta de problemas, e como também queria aproveitar bem o «defeso» tratei
de seguir os passos do inspector, preparar as malas
e «convencer» o director do periódico para que
trabalhava. Já há alguns dias na jovem nação americana, onde
tudo é grande: grandes hotéis, grandes centros de tráfego, grandes somas de
dinheiro, etc., fornos assistir a um animado encontro de «baseball»,
desporto que para mim era uma novidade, mas que para o inspector
Huxley consistia num velho e apreciadíssimo prato desportivo. Grande multidão enchia o estádio, pois, segundo
parece, tratava-se de um encontro decisivo para o título da primeira Liga,
entre os «Giants» e os «Yankees». Encontrávamo-nos num camarote, e a impaciência de
Huxley pela espera das duas equipas era alarmante. Junto ao camarote do lado direito do nosso, tinha-se
formado repentinamente um grande aglomerado, o que me fez logo lembrar do que
é habitual passar-se nos campos de futebol portugueses quando os ânimos de
dois ou mais espectadores se exaltam, mas olhando com mais atenção pude
verificar que o camarote do lado era ocupado por qualquer pessoa de destaque,
visto a aglomeração ser formada por «caçadores» de autógrafos. – É Bill Stark, o famoso
jogador de «baseball», acompanhado de sua mulher, Juddy Stark, atraente «estrela»
de cinema – elucidou o inspector Huxley. – Obrigado, inspector –
respondi, sem tirar os olhos da cena, deveras interessante. Para mim, era
também uma coisa nova, pois não estava acostumado a coisas semelhantes em
Portugal. Um novo dilúvio de curiosos e caçadores de autógrafos ameaçou o
camarote. Vários «boys» correram, a fim de conter a multidão. – Fazem favor de dispersar. São proibidas as
aglomerações neste local – gritou um dos «boys» com ares autoritários. – Deixe, «boy», damos só mais seis autógrafos –
disse Bill, como que para apaziguar os admiradores. Ele e a esposa começaram a dar cada um seis
autógrafos, operação que demorou tempo, pois a multidão de «caçadores»
derramava-se e agitava-se para cima do camarote de maneira verdadeiramente
assustadora. Juddy Stark
mostrou o seu melhor sorriso, agarrou nos programas que lhe estendiam e
começou a assinar devagar. Bill, munindo-se de um lápis, descansou o
«cachorro» em cima de uma cadeira, encostou a ponta do lápis à boca por algum
tempo e começou a escrever. – Com mais este são seis – disse Bill. – Vamos dispersar agora – avisou o «boy». Bill sorriu e esticou a enorme mão para a cadeira
vazia, onde deixara o seu «cachorro» quente. Mas a mão de Juddy
chegou primeiro e apanhou o «cachorro» do marido. Bill tacteou
até apanhar o «cachorro» quente que restava, meteu-o à boca e pôs-se a
mastigá-lo. Neste momento romperam por todo o estádio os
aplausos ensurdecedores da multidão, que vitoriava a entrada dos seus ídolos.
Ao meu lado, o excitado inspector Huxley
levantou-se e aplaudia entusiàsticamente o seu
grupo preferido: os «Giants». Eu quedava-me a observar. O sargento Tatcher
sacou do bolso um desses lápis que se vendiam no estádio presos aos cartões
para as marcações e programas, e preparou-se para seguir o jogo. Os vigias do
campo tinham acabado de sair e o marcador limpara o cartaz. A multidão berrou
em uníssono, e depois, um silêncio tumular caiu sobre o estádio. O inspector Huxley mordia as unhas com ar inocente. Piscou
os olhos e abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas nesse momento os
«Yankees» completavam os preparativos: Hubb
marchava para o centro, Dan atirava a bola para Bartell, que passou a Hubb e
voltou a correr para o seu lugar. Neste momento Bill levantou-se para ver
melhor e, de repente, desabou no camarote, como se tivesse sido agredido. Juddy Stark voltou-se,
tremendo. Os espectadores mais próximos levantaram-se; três «boys» correram,
precedidos do fiscal. Ajudados por este, carregaram o homenzarrão para fora
do camarote. Huxley, que se pusera de pé desde o momento em que Bill caíra,
acompanhava a melancólica procissão com os olhos. Depois, virando-se para o
sargento Tatcher, disse: – Penso que isto não passará de um desmaio. Em todo o caso era melhor ir lá abaixo ver o que
aconteceu. Daí a instantes, Tatcher regressava. – Então? – perguntou o inspector.
– Bill acaba de morrer… Levantámo-nos automàticamente,
e enquanto nos dirigíamos para baixo o sargento ia falando: – Na minha opinião é um caso encerrado. Aquela
mulherzinha trabalhou bem… – e Tatcher apontava para Juddy.
– Juddy Stark? – inquiri um pouco incrédulo. – Ela confessou? – perguntou Huxley. – Não. Mas eu conheço as mulheres. Foi ela quem fez
tudo. Não há dúvidas. Já na enfermaria, Huxley foi apresentado ao médico
que assistiu aos últimos momentos de Bill, o qual lhe declarou se ter passado
um caso desagradável no seu consultório que poderia ter conexão com este
caso. – Eu conto-lhe – disse. – Tinha sobre a mesa um
veneno fortíssimo. Juddy – o olhar do médico
indicou a silenciosa actriz – estava no meu
consultório descansando para se submeter a uma prova de metabolismo. Deixei-a
sòzinha. Por coincidência, Bill, do qual também era
médico assistente, apareceu no consultório no mesmo dia para um exame geral.
Fui atender um doente urgente noutra sala: voltei, levei Juddy
à porta e entrei com Bill, que me aguardava no meu pequeno escritório. Ainda
o fiz esperar, pois a enfermeira pedira-me para assinar uma papelada. Foi
então que notei a falta do vidro, que estava marcado com as palavras:
«Perigo. Veneno». Pensei que o tivesse mudado de lugar, mas agora… – Não roubei nenhum, vidro! – disse Juddy, com voz apagada. – Além disso, informaram-me que Bill comeu um
«cachorro» em condições estranhas. – Não fui eu! Não fui eu! – tornou Juddy. Bateram à porta. Era um garoto a quem Bill tinha
dado o seu sexto autógrafo. Os outros cinco já tinham sido interrogados pelo
Tatcher. – Quando foi que Bill te deu esse autógrafo? –
perguntou Huxley. – Antes do jogo… – Houve alguém que te pediu para «caçares» um
autógrafo ao Bill? – Lá isso houve – exclamou, espantado, o rapaz, e
continuou: – Um homem grande de capa e chapéu puxado para baixo. Encontrei-o
nas escadas dos camarotes e ele deu-me um programa para eu ir pedir um
autógrafo àquela senhora – e apontava Juddy, a qual
estremeceu. – E depois? – continuou Huxley. – Depois… depois vi
no camarote o senhor Bill e… – …E resolveste pedir-lhe um autógrafo antes de o
pedires à estrela, não foi? – Não o fiz por mal… – Pois para mim já chega. Sei quem foi o culpado
deste caso, e como ele se passou — exclamou Huxley, com espanto geral dos
circunstantes. – E os leitores? Espero que também. |
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© DANIEL FALCÃO |
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