Autores

Domingos Cabral

 

Data

25 de Fevereiro de 2022

 

Secção

Correio Policial [543]

 

Publicação

Correio do Ribatejo

 

 

A MORTE DO QUÍMICO

Domingos Cabral

 

Tempo I

A discussão avolumava-se. De um lado, Germano, dono da casa, industrial, sentado à secretária da sua sala-biblioteca, muito nervoso mas apesar de tudo controlado, em contraste com a outra figura que, de pé, do outro lado da secretária, exasperado, proferia impropérios e sérias ameaças, por não lhe ter sido ainda pago o que aquele lhe devia.

Quem pudesse escutar aquela discussão facilmente apreenderia que ela poderia acarretar consequências mais dramáticas.

Argumentava Germano que, atravessando actualmente um período economicamente, difícil por lhe ter sido cancelado o alvará de fabrico do principal produto da fábrica, não possuía ainda meios para resolver o assunto – dificuldade que esperava ultrapassar em breve pois estava em curso o processo de reactivação daquele, superadas que entretanto haviam sido as deficiências que determinaram a suspensão.

Não gostando da resposta de Germano, gritava o outro que já vinha ouvindo esta desculpa há demasiado tempo, que a situação estava manifestamente a prejudicar a sua vida, e que não estava disposto a mais contemporizações.

O tom do diálogo agravou-se e, acabando por perder o controlo, o credor sacou do bolso de uma arma de fogo e apontou-a ao dono da casa, ameaçando: “malandro, estás a destruir a minha vida, mas eu vou acabar com a tua!”.

Não disparou logo; Germano, procurando prolongar a situação e evitar a concretização da ameaça, suplicou-lhe calma. Infrutiferamente porque, pouco tempo depois, da arma saíram dois tiros que o atingiram no peito. Mortalmente.

Tempo 2

O inspector Gonçalves e a sua equipa, no local, tinham agora perante si mais um caso para resolver.

Naquela sala tinham perante si um homem sem vida, com dois ferimentos no peito resultantes de disparos de arma de fogo, caído sobre a secretária que apresentava o tampo com uma larga mancha de sangue. Sob o tronco, igualmente manchadas de sangue, umas quantas folhas de papel branco, sobrepostas, encontrando-se na primeira apenas duas letras manuscritas que se percebia terem sido nervosamente executadas pela mão que, também sobre a secretária, exibia uma esferográfica de boa marca. Eram elas: AG.

Representariam uma intenção de acusação por parte da vítima relativamente à identidade do seu algoz? Era apenas uma hipótese, mas a aprofundar, por não destituída de sentido lógico…

Os seus auxiliares vasculharam toda a sala com os habituais cuidados mas, exceptuando duas cápsulas de bala, nada mais digno de nota encontraram.

Tempo 3

Calmamente sentado, o inspector Gonçalves analisava os depoimentos que haviam sido recolhidos aos três suspeitos que, até à data, se perfilhavam como tal.

FILINTO GOMES – Havia sido despedido pela vítima, depois de alguns anos de trabalho, e porque se sentira injustiçado jurara vingar-se; chegara, na altura, a proferir que o matava – o que fora escutado por algumas pessoas… Mas – declarou – fora um desabafo momentâneo, porque seria incapaz de fazê-lo…

Não possuía alibi porque à hora a que o informaram ter sido cometido o crime e perguntado onde estava, disse que se encontrava no rio, à pesca.

FERNANDO PRATA – Matar o Germano, ele? Bem, é certo que, ao continuar sistematicamente a adiar o pagamento da significativa quantia de que lhe era devedor, estava a causar-lhe irritação, mas daí até o matar, não, isso não… Foram amigos, é certo, mas alguns problemas entretanto surgidos haviam esfriado essa relação, e já algum tempo que não se encontravam pessoalmente – apenas lhe tendo efectuado vários telefonemas a solicitar o cumprimento da obrigação…

Onde estava na hora a que apurado ter sido cometido o crime? A trabalhar no seu atelier, como habitualmente. Testemunhas? Não, trabalhava só…

ORLANDO SEABRA – Fora sócio do Germano na Quimilor, fábrica de produtos químicos daquele, não tendo a separação entre ambos – ocorrido há alguns meses – sido muito pacífica por discordância com a forma pouco transparente (provavelmente dolosa…) como ele vinha exercendo a gerência. Na altura a situação estivera “quente” entre ambos, não tendo seguido por outros caminhos por, entretanto, para evitar males maiores, ter decidido vender-lhe a sua quota em especiais condições. Não, não o matara, se bem que as relações estivessem, de novo, muito tensas, uma vez que ele vinha sistematicamente incumprindo com as prestações no acordado pagamento faseado da quota – o que originara recentes situações de fricção…

Onde estava na hora do crime?

Não podia dizê-lo, pois isso iria pôr em causa a reputação de uma senhora casada e, consequentemente, também a estabilidade do seu casamento…

 

Caro leitor, não lhe pedimos que nos diga quem foi o assassino de Germano, porque, perante o que lhe foi transmitido, não possuiria provas insofismáveis para fundamentar essa acusação. Mas certo também é que com alguma atenção e perspicácia, encontrará no texto a pista que o inspector Gonçalves interpretou como indiciadora da culpabilidade de ____________.

De quem? Encontrou?

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO