Autores

Domingos Cabral

 

Data

4 de Março de 2022

 

Secção

Correio Policial [544]

 

Publicação

Correio do Ribatejo

 

 

APRENDIZ DE CRIMINOSO

Domingos Cabral

 

Eu não era, nunca fora, um ladrão, ou de qualquer outra forma um infractor das normas que regem a sociedade – salvo, claro, aqueles pouco significativos pecadilhos que todos nós uma vez ou outra cometemos. Mas a vida, melhor, as suas vicissitudes e ironias do destino tem destas coisas. E agora ali estava, não o Fernando Simplício que sempre fora, mas o preso 1432, a minha nova identificação neste estabelecimento prisional onde me encontro a cumprir a pena a que fui condenado…

A transposição da existência modesta, difícil mas honesta, para o lado da marginalidade, cujo ferrete passei a carregar ao ser julgado e condenado, ocorreu num ápice – foi um rápido transpor da fronteira do bem para o mal, da liberdade para a reclusão. A sociedade estigmatiza facilmente aqueles que, como eu, infringem as suas regras. Não que alguns não a tenham merecido, pela gravidade e reiteração dos seus crimes, mas casos há que deviam merecer um pouco mais de compreensão – pública e judiciária (digo eu, talvez a puxar a brasa à minha sardinha…).

É que, actos de roubar e matar são sempre crime, seja como e por quem forem cometidos, mas muitas vezes quanto diferentes são nas suas motivações, gravidade e responsabilidade… Mas aqui, na prisão, encontram-se todos, o assassino sem escrúpulos nem sentimentos, quer aquele que matou acidentalmente ou em defesa própria e dos seus, quer aquele que roubou insignificâncias, em momentos de desespero, para poder dar de comer aos filhos, quer os que o fizeram em muitos milhões (neste caso não chamam roubo, mas “desvio”, embora estes, há que dizê-lo, passem muito pouco por aqui, não porque não sejam muitos…).

Aconteceu. Sempre, como disse, me pautei por uma conduta séria de vida. Até que um dia… Perdera o emprego, há um período de tempo. E a idade, e a crise, dificultaram o que noutros tempos não teria constituído drama. Com o prolongar da situação os problemas foram-se aprofundando, reduzindo as esperanças e aumentando o desespero. Vira na televisão que os Bancos tinham registado lucros de muitos milhões de euros. E a ideia surgiu-me: e se

Repudiei-a, primeiro, mas perante a necessidade foi-se infiltrando, avolumando… E, de um momento para o outro, decidi dar-lhe concretização…

No Banco, tremendo perante o “caixa”, apontei-lhe a arma e ordenei-lhe que me entregasse todas as notas. Há, na vida, momentos de sorte e de azar. Comecei por desfrutar da primeira, duplamente: assaltante primário, não programei aquele acto para qualquer oportunidade que fosse mais propícia, mas o acaso acabou por me proporcionar uma “receita” significativa porque, minutos antes, se havia registado uma operação de depósito em numerário de razoável valor; depois, também porque a fuga, imediatamente encetada na motorizada que deixara no exterior, decorreu com êxito.

O reverso da medalha chegou porém pouco depois, como receava. Através de informações transmitidas pelo caixa e por algumas pessoas que me viram fugir, relativas ao meu aspecto físico, idade aparente, indumentária, forma como me transportei, etc., fui descoberto e preso. O azar, o reverso, começara. Mas antes tive o cuidado de esconder as notas.

Fui pressionado, ferozmente pressionado, para confessar o seu paradeiro. Resisti sempre, e “eles” também não as encontraram. Imaginei então que, não sendo descoberto o produto do roubo, faltando a sua prova material, a condenação não poderia ser muito gravosa.

Hoje já tenho dúvidas se, com essa decisão, procedi bem ou mal; fui julgado e não deixei, por isso, de ser condenado. Os factores incriminatórios eram bastantes, e foram considerados credíveis.

E aqui estou hoje, nesta prisão – autêntico ABC do crime – a expiar a minha pena.

Nestes estabelecimentos quem entra primário sai muitas vezes “diplomado” nas mais diversas técnicas da vida criminosa, porque convivemos permanentemente com todos os tipos da pior condição humana: assassinos, ladrões profissionais, falsários, traficantes, chantagistas, burlões – tudo. E nas horas de convívio conjunta, ao longo dos dias, meses, anos a escutar conversas, narrativas de experiências – e como alguns fazem gala em exaltar os seus “feitos”! – vai-se adquirindo um caudal de conhecimentos sobre actividades marginais, mesmo que não os desejemos especialmente, que transformam muitas vezes as personalidades de mentes mais fracas. É o carteirista que ensina como “palmar uns cabedais aos guiras, no montado” (roubar carteiras aos turistas, no eléctrico); o ladrão de carros, com quem se pode aprender não só a técnica de os roubar (abrir as fechaduras e fazer as ligações directas) mas também ficar a conhecer quais as marcas mais vulneráveis; o burlão que se vangloria dos seus conhecimentos quanto à forma de enganar o próximo (e quantas formas são tão engenhosas!); o traficante de droga que dá algumas pistas sobre o exercício da actividade e que, mesmo no interior da cadeia, fornece quem queira produto, etc..

Um outro “hóspede”, recente, surpreendeu-me pela riqueza dos seus conhecimentos, que não faz rebuço em exibir e transmitir, numa área que para mim era quase desconhecida: a das escritas secretas, tintas invisíveis, vulgo “simpáticas” (sabiam que escrevendo com sumo de limão como tinta o texto fica invisível, reaparecendo quando submetido ao calor?), criptografadas, etc..

Porque achei a matéria muito interessante, tenho “forçado” umas aulas práticas, que com evidente vaidade me foi proporcionando. Para além do mais, ajudam a passar o tempo, que é tão longo…

Resolvi entretanto fazer agora, sozinho, umas experiências práticas para testar os conhecimentos adquiridos.

Resultou bem. Acabo de elaborar a seguinte mensagem criptográfica que, depois de descodificada, revela o local onde escondi o produto do assalto, que espero recuperar quando sair daqui:

NSATOLEIOSOERHLSTOIRVOEOATNIETVR

Todavia, porque tal revelação não pode cair em mãos estranhas (segredo que tanto me custou a preservar!), vou destruí-la, queimando-a amanhã, no exterior da cela, durante o recreio.

 

Não interessa aqui saber como este texto veio aqui parar. Interessa, sim, saber se os nossos amigos “detectives” do “Correio do Ribatejo” conseguem ou não decifrar a revelação que ali é feita, sendo que no texto se encontra tudo a pista necessária para efectuar com êxito a descodificação.

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO