Autores Data 11 de Março de 2022 Secção Correio Policial [545] Publicação Correio do Ribatejo |
A VINGANÇA DO MARIDO TRAÍDO Domingos Cabral Felizardo
Lopes, lembram-se? Descrevi-vos aqui, num texto anterior, um dos capítulos
mais marcantes da minha vida: a minha experiência de presidiário. Terão,
possivelmente, curiosidade em saber mais notícias deste ex-recluso – o então
1423. Pois bem, saí da prisão, cumprida pena, mas continuei a penar, depois,
durante algum tempo, tentando “navegar” neste difícil mar revolto que a minha
vida hoje constitui. Enfim, subsisti graças a um “pecúlio” que tinha guardado
num velho televisor, no sótão de minha casa – vocês conhecem a história… Ainda
lá estava, felizmente. Se assim não tivesse acontecido teria, talvez, sido
necessário voltar à prática de algum acto delituoso… e ser hoje, de novo,
identificado por um número… Uns
meses mais tarde arranjei finalmente emprego. Mal pago, claro, mas vai dando
para sobreviver… Livre!
A viver mal, mas livre! E agora sei bem qual a condição mais importante de
que podemos desfrutar! De
facto, a vida de prisioneiro, sendo uma experiência que proporciona um
manancial de histórias que enriquecerão o “curriculum” de vida, não é
desejada por ninguém – delinquentes natos, ou primários como eu fui… Falei
em histórias. Narrei já aqui a minha; outros, lá, contaram-me a deles. Isto
porque, “lá dentro”, naqueles longos, tristes e desesperantes dias, muitos
sentem a necessidade de confidenciar as razões que ali os levaram. Desabafar,
uma forma de nos sentirmos menos sós – e, muitas vezes, tónico para aliviar o
peso das consciências… Porque
sei que estas histórias despertam sempre a curiosidade das pessoas, vou
partilhar convosco o que me foi narrado por um dos meus ex-companheiros – a
dramática experiência de F., o preso nº 1365. Já
lá estava, quando eu entrei. E porque também primário, porque também vítima
das condições adversas que a vida, em certas ocasiões, nos proporciona (e
ainda porque, ali, era um dos que mais sofria com a situação e dos mais
carentes de apoio), rapidamente nos tornámos amigos e confidentes.
Inspirava-me pena pelas razões que sabia que ali o tinham levado… Era
o exemplo de como, de um momento para o outro, a vida de um homem feliz e
pacato conhece um tal volte face, um virar de página que transforma a sua
existência num inferno e a pessoa num farrapo… Mas
vamos à história. Reproduzo parte da sua narrativa, anos já volvidos após me
ter sido contada: “Matei!
Pratiquei o crime de homicídio na pessoa de um amigo, ou melhor, de alguém
que tinha como tal. Pois, as contingências da vida: um dia, amigo de alguém,
no outro, seu assassino. Porque o fiz? Descobri que o miserável era amante da
minha mulher! Desde quando e como começara, desconhecia. Mas, a partir de
denúncias que passei a receber, fiz investigações e vim a comprovar a sua
veracidade. Fiquei desvairado, esmagado pela revelação! Era a minha vida que
se desmoronava, que se virava do avesso… Senti vergonha, desespero, raiva… E
decidi vingar-me! Dele, especialmente… Ela, pura e simplesmente,
repudiá-la-ia, não merecia mais que desprezo, distância, como se dedica a um
cão tinhoso… Precisava
de uma arma para cumprir a missão a que se decidira: disparar sobre o
traidor, vingar-me. Fazendo-o, descarregava também uma parte da raiva que
sentia. Era um imperativo pessoal. Arranjei pistola e dirigi-me ao escritório
do pulha. Estava sentado à secretária e exibia e exibiu uma expressão de temor.
Terá compreendido logo (ou, pelo subconsciente culpado, suspeitado) que eu
não estava ali para um qualquer acto que pudesse cimentar a nossa amizade.
Tentou iniciar uma conversação, esperando ganhar tempo para avaliar as minhas
intenções, ao mesmo tempo que manipulava nervosamente uma esferográfica – com
a qual o vi, entretanto, rabiscar muito rapidamente algo numa folha de papel,
que logo virou, mas apenas conseguiu inquirir, com uma expressão em que se
desenhava o medo, o que me levara ali. Não lhe dei muito tempo: chamei-lhe
miserável, canalha e puxei da arma. Disparei um, dois, três tiros que o
atingiram no peito. Saí de imediato, Não sei se o deixei ainda com vida ou
não… Depois do que acabara de fazer, estava cumprida a minha missão, era-me indiferente
qual o seu estado ou o seu futuro. Era, simplesmente, um virar de página na
minha vida, uma coisa que eu tinha que fazer. E estava feito. Mas morreu! Não
tardei a ser preso. A minha detenção ocorreu muito rapidamente mas não
constituiu surpresa para mim, consciente que estava que teria que pagar pelo
acto que cometera. A situação a que conduzira aquele crime já era conhecida
por algumas pessoas, e assim só houve que somar dois mais dois. Além disso,
ele acusou-me! Sobre a secretária e sob o seu tronco, nela caído, a polícia
encontrou uma folha de papel, manchada de sangue, com apenas uma letra escrita
– um L – na face voltada para baixo. Uma pista que a polícia, após curta
investigação, bem soube interpretar.” E
ali estava ele, agora, atrás das grades – mas já outro homem, o preso 1365 –
expiando o crime que as circunstâncias lhe haviam imposto! Partilhando a sua
história comigo, que também nunca previra poder vir a estar naquele local. Foi
há uns anos – mas ele ainda lá está… Talvez
um dia volte com um novo episódio da minha passagem por um período de vida
que não me deixou grato, mas que me marcou indelevelmente pelas muitas recordações
e histórias proporcionadas… Entretanto,
porque sei que os leitores desta “Página Policial” são barras na decifração
deste tipo de desafios, coloco-vos a seguinte questão: qual dos indivíduos, com
os nomes seguidamente indicados, acham que é o preso 1365, autor do
depoimento que reproduzimos? a)
Lourenço Pires; b)
Luciano Marques; c)
Luís Elviro; d)
Licínio Casanova. |
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© DANIEL FALCÃO |
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