Autores Data 18 de Março de 2022 Secção Correio Policial [546] Publicação Correio do Ribatejo |
PROVA DE ADMISSÃO Domingos Cabral O
leitor presta provas para admissão à Polícia Judiciária, pois o seu sonho sempre
tem sido o de fazer carreira no campo da investigação criminal. E, numa das várias
provas a que para o efeito tem sido submetido, no “ponto” escrito que acaba
de ser posto à sua frente é-lhe solicitada, para avaliação, uma resposta ao
seguinte desafio: “Está
perante os depoimentos de três suspeitos de um crime de homicídio fictício,
supostamente ocorrido há alguns anos. Tem por missão analisá-los, na
tentativa de descobrir o culpado; foram elaborados na base, nomeadamente, das
interrogações onde moravam, o que sabiam sobre o caso e onde estavam à data
do mesmo, para posterior comprovação dos “alibis”. Caso:
Crime de homicídio. Local
do Crime: Algures em Lisboa. Suspeitos:
– Almerindo Biscaia –
Pedro Antolim –
João Simão, conhecido por "João da Deolinda". Depoimentos:
Almerindo
Biscaia – Moro em Linda-A-Velha. Ouvi vagamente falar deste caso, porque não
leio jornais e, trabalhando de noite, raramente vejo televisão. Aliás, nem
sei se o caso ali foi noticiado. O
meu único divertimento é o futebol e ir aos jogos do “glorioso”; creio que
foi o meu amigo e vizinho Zeca Cardoso quem me falou do caso, pouco tempo
depois de ter acontecido, quando íamos a caminho do Estádio da Luz para assistir
ao Benfica-Chelsea. Mas não, não posso dizer mais nada, porque não sei… Pedro
Antolim – Onde moro? No Laranjeiro. Não, sobre isso não sei nada. Nessa data,
em Maio, nem estava cá. Era, então, primeiro marinheiro e estava no mar.
Aliás, passando por uma desagradável experiência, que me levou a sair da marinha.
O barco em que estava na ocasião foi apanhado por uma enorme tempestade,
balançando tremendamente, para o lado direito e para o lado esquerdo, e ia a dirigir-me
para trás, para procurar melhor segurança, quando uma vaga de grande porte me
provocou um forte desequilíbrio. Fui projectado e parti uma perna e duas
costelas. Mais tarde, por isso, fui dispensado… João
Simão – Onde vivo? Na maior parte do tempo, na Buraca. Porquê, na maior parte
do tempo? Porque de vez em quando tenho que ir trabalhar para outras terras,
quando aqui não arranjo que fazer. É
certo que uma vez ou outra “empalmo” umas “coisitas”, mas porque preciso de comer,
não é verdade? Mas essa coisa de ser criminoso, ná, isso não é comigo… Não,
não sei onde estava nessa altura, que nem sequer sei quando ocorreu esse
crime de que falam…” Pergunta:
Perante
estes depoimentos – embora vagos e sucintos – acha que teria o candidato
detectado, em algum deles, algo de mais incoerente que os outros que
justificasse uma investigação mais aprofundada? |
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© DANIEL FALCÃO |
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