Autor

Domingos Cabral

 

Data

29 de Abril de 2022

 

Secção

Correio Policial [552]

 

Publicação

Correio do Ribatejo

 

 

O SENHOR GONÇALVES FAZ XEQUE-MATE

Domingos Cabral

 

O senhor Gonçalves estava furioso. Decididamente, naquele dia tudo lhe era contrário.

Ele, que adorava os dias primaveris, cheios de sol, estava ali, impedido de sair, devido à chuva intermitente que desde manhã caía. Oh! Mas ele sairia. Não podia deixar de ir ao “Continental” jogar, com o seu amigo Clarimundo, as habituais partidas de xadrez, modalidade da qual eles eram convictos adeptos. Para isso vestiu o impermeável e dispunha-se a sair quando o retinir do telefone o impediu desse propósito. Praguejando, o senhor Gonçalves dirigiu-se a ele, ao mesmo tempo que, mentalmente, tentava imaginar quem seria o importuno.

– Estou. Eduardo Gonçalves. O quê? Um crime? Com este tempo? Sim?! Está bem, vou já.

Pela mente do nosso amigo e senhor Gonçalves passaram as goradas partidas de xadrez com o amigo. Porque diabo escolhera o assassino logo aquele dia?!

Com um gesto de manifesta resignação saiu rumo ao endereço transmitido. Alguns minutos depois, após ter declinado a sua identidade, foi introduzido no prédio que servira, naquele dia, de cenário a um crime.

Após ter despido o impermeável, seguiu o criado que o conduziu ao escritório onde encontrou além do corpo, morto, do dono da casa, um outro personagem que, em passadas nervosas, percorria o interior do aposento.

Depois de cuidadoso exame ao cadáver, concluiu que o corta papéis de bronze que se via espetado no peito, de onde jorrava uma significativa mancha de sangue, fora a consequente causa da morte.

Como nada mais visse digno de nota, decidiu então ouvir as declarações dos dois presentes, que seguiam atentos os seus gestos e perguntou-lhes o que sabiam sobre o caso.

Dirigindo-se ao criado, este afirmou saber apenas que, quando saíra a mando do seu patrão para ir à estação dos Correios, a fim de registar uma carta, o deixara no escritório, em companhia do sócio – com o qual geria uma firma comercial – e, quando regressou, encontrara o sobrinho da vítima (e apontou o outro indivíduo presente) a sair do escritório, que o informou que o seu tio havia sido alvo de uma grave agressão e que estava morto.

– É tudo quanto sei, senhor – concluiu.

– Quanto tempo esteve ausente?

– Apenas vinte e cinco minutos; dez para cada parte dos trajectos, e cinco de demora nos Correios, pois recebera recomendação para ir depressa para que a carta pudesse seguir ainda hoje.

– E seguiu?

– Seguiu, senhor. Cheguei no momento exacto. Dois minutos mais e

– Diga-me, conhece o objecto que serviu de arma?

– Sim, a sua presença era habitual na secretária.

Virando-se então para o sobrinho do morto, Gonçalves disse: – Conte-me agora o senhor o que sabe.

– Pouco sei. – Declarou este, com voz pesarosa. – Quando, há minutos, entrei, deparei logo com este terrível cenário. Estive para fugir, tão surpreso e atemorizado fiquei, mas lembrei-me das consequências que daí me poderiam advir e resolvi não o fazer.

Pouco depois chegou o empregado do meu tio que, depois de posto ao corrente do sucedido, me informou que, quando saiu, meu tio ficara acompanhado do seu sócio. Prenda-o, senhor inspector. É ele o culpado.

– Um momento, se o criado não estava cá, como entrou o senhor?

– Em virtude das minhas assíduas visitas, e do facto do criado nem sempre estar em casa, como hoje aconteceu, meu tipo dera-me uma chave da casa.

– Muito bem. – E que veio cá fazer?

– Pedir um empréstimo de dinheiro, para levar avante um negócio tentador que se me deparou e que, estou certo, ele não me negaria… Mas… para quê tantas perguntas? Não lhe disse já quem foi o assassino?

O inspector Gonçalves não respondeu, diligenciando antes obter a forma de comunicação com o sócio da vítima. Obtido o seu número de telefone, ligou-lhe comunicando o sucedido e dizendo saber que aproximadamente à hora da ocorrência ele estivera com a vítima, e perguntando-lhe, também, o que a propósito teria a declarar.

Efectivamente – afirmou o interpelado – estivera em casa do sócio discutindo com ele uns assuntos relacionados com um negócio a realizar, mas não sabia nada sobre a sua morte, pois deixara-o com vida. Eram cinco e trinta e cinco e, nessa altura, nada fazia prever tal tragédia.

O inspector Gonçalves, depois de pedir ao seu interlocutor que viesse ao local do crime, desligou e, enchendo o cachimbo – mesmo sem o acender, o que acontecia muitas vezes – meditou um pouco.

Depois, sorriu de forma enigmática. Afinal, nem tudo lhe corria mal nesse dia. A comprová-lo estava a facilidade com que, acreditava, tinha descoberto a identidade do criminoso, que em breve iria mandar para o “xadrez”. Afinal, sempre iria fazer “xeque-mate”, isto é, ganhar a partida.

 

Pergunta-se: Em que se terá baseado o inspector para chegar a tal conclusão?

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO