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Autor Data 14 de Dezembro de 1984 Secção Competição Problema nº 2 Publicação Badaladas |
UM TIRO À MEIA NOITE Durandal Um estampido surdo cortou o silêncio
da noite. Durandal soergueu-se, acendeu a luz da mesinha
de cabeceira e olhou o despertador – meia noite e três minutos. Enquanto enfiava o roupão rememorou
num ápice o convite, por si aceite, feito pelo seu velho amigo Mário Mendes
para o fim de semana no Solar de Caneças; a conversa morna ao jantar; os
lampejos de desdem que perpassavam por Francisco,
sobrinho do anfitrião; a timidez, misto de ternura e sensaboria de Gracinda,
a enteada do dono da casa; a promessa de revelações importantes insinuadas
durante a refeição, por Mário Mendes… Atravessou o corredor e alcançou as
escadas que conduziam ao piso inferior. Francisco seguia uns degraus abaixo,
e Gracinda, no fundo alcançava já o corredor do rés do chão. Segundos depois encontravam-se os três frente da porta do escritório, local presumível
donde saíra o disparo. – Há outra chave? – perguntou. Um abanar de cabeça de Francisco foi a
resposta. Gracinda amarfanhando nervosamente um
lenço que levava aos olhos de vez em quando nem ouviu a pergunta. Um encontrão. Dois. A porta dentro. Durandal estacou, mas logo saltou para evitar
que Gracinda que correra num grito rouco, tocasse Mário Mendes, sentado à
secretária, a cabeça tombada sobre a mesa. Não havia dúvidas. Mário Mendes era já
cadáver. Aproximou-se mais da secretária. O corpo jazia tombado sobre a face
esquerda, um fio de sangue escorrendo pela têmpora direita, que se prolongava
até à mão direita, inerte, um pouco ao lado, enquanto a esquerda pendia sobre
o colo. Sob a mão direita uma folha de papel
com uma palavra apenas, dactilografada: – «Chega». Aos pés do morto, sobre a alcatifa de
lã, uma chave – a da porta, constatou-se mais tarde. A um canto da sala, perfeita mente
arrumada, a máquina de escrever que dactilografara a mensagem. Durandal virou-se para os circunstantes,
perguntando-lhes o que faziam no momento do disparo. Gracinda, que soluçava
convulsivamente, a custo explicou: – Deitara-me cedo e adormecera. Fui despertada pelo disparo. Corri
logo para aqui – e apertava nervosamente a gola do roupão. Francisco, ainda encostado à ombreira
da porta, o rosto impassível, acendeu um cigarro que tirou do bolso do casaco
e disse: – Chegava ao meu quarto, vindo da rua,
quando soou o tiro. Vim logo para aqui, aliás, consigo. – Vamos não toquem em nada. – Vou telefonar para a Judiciária. Mas Durandal
sabia já o que acontecera naquela noite serena de Outubro
no Solar de Caneças do seu amigo Mário Mendes. Explique também. |
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© DANIEL FALCÃO |
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