Autor

Florival R. Baptista

 

Data

Fevereiro de 1982

 

Secção

Velharias Policiárias [1]

 

Competição

Velharias Policiárias

Problema nº 1

 

Publicação

XYZ-Magazine [20]

 

 

A MORTE ENTROU NO QUARTO

Florival R. Baptista

 

D. Ester Joana aparecera morta, no quarto independente da sua residência, em Lisboa, quarto esse que utilizava como cozinha, sala de jantar e quarto de dormir.

Ela própria cozinhava as suas refeições, para o que mandara instalar no referido quarto um fogão e gás (desses fogões pequenos de uma só boca), com receio de que lhe envenenassem as refeições, pois sabia perfeitamente que toda a família esperava ansiosamente pelo seu dinheiro.

 

O Inspector Valba, encarregado de desvendar o mistério, depois de ter mandado arrombar a porta do quarto, que se encontrava fechada com um cadeado pelo lado de dentro, verificou que sobre a mesa de cabeceira se encontravam dois livros: um policial e outro de feitio semelhante à Bíblia, que era o diário da morta. Cheio de curiosidade, abriu-o na última página, em que se lia o seguinte:

«São 20 horas e, após um jantar como só eu sei fazer, vou deitar-me»… E na linha seguinte: «Até às 23 horas, aproximadamente, estive a fazer croché. Nessa altura entrou o Manuel que me trouxe o livro que lhe havia pedido há tempo. Demorou-se o tempo suficiente para me instruir quanto às qualidades do autor daquela obra – cerca de 3 ou 4 minutos… Saiu em seguida e, segundo me disse, ia à Póvoa de Varzim. Li o livro até às 2 horas da manhã, pois prefiro dormir durante o dia, quando os outros estão acordados… A noite atormenta-me e mesmo que queira não fecho os olhos.»

 

«Ouçamos» as declarações colhidas pelo Inspector Valba:

O sobrinho Manuel: Estivera em casa até cerca das 23 horas, altura em que saiu, tendo passado pelo quarto de D. Ester para lhe entregar o livro que esta lhe havia pedido. Ela já estava deitada e levantou-se para lhe abrir a porta, que, como de costume, estava fechada a cadeado. Depois de lhe ter enaltecido as qualidades do autor daquele livro, retirou-se. Passara a noite na viagem para a Póvoa de Varzim, onde chegara próximo das 6 horas da manhã e lá se conservara até às 12 horas…

 

O genro de D. Ester, de nome Manuel Borba: industrial à beira da falência, declarara que nessa noite fora ao chine-ma, facto comprovado pela bilheteira e arrumadora. Quando regressara a casa, por volta da 1H30, a sogra conservava a luz do quarto acesa, facto que não estranhara, por saber que ela lia quase sempre até muito tarde. No dia seguinte saíra de casa às 9 e 30 minutos…

 

A filha da morta nada sabia, porquanto estava a passar as férias nas Cabanas de Viriato, e só chegara no dia da morte, pelas 16 horas.

 

A criada, como habitualmente, e com uma precisão cronométrica, deitara-se, após ter arrumado a cozinha e fechado as torneiras de segurança do gás e da água, às 22H30 minutos. Levantou-se cedo, cerca das 7 horas da manhã, e tratou de pôr imediatamente ao lume a água para o café (num daqueles fogões a gás grande e do qual se orgulhava trazer sempre muito limpo). Até às 9 horas preparara o pequeno-almoço e às 9H30 serviu-o ao sr. Borba, que saiu em seguida. Às 10 horas, como de costume, foi chamar a senhora. Bateu à porta várias vezes e como ninguém respondesse, espreitou pela bandeira e verificou que a senhora não se mexia e tinha um aspecto não muito normal. Foi então que comunicou o caso à polícia.

 

Resta dizer que o médico da polícia prognosticou a morte por intoxicação com gás e, segundo declarou, ter-se-ia dado pelas 8 horas da manhã, mais ou menos.

 

Pede-se-lhe relatório do que se lhe oferecer dizer sobre este caso.

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO