Autores Data 17 de Janeiro de 1997 Secção O Detective
- Zona A-Team [285] Competição Problema nº 1 Publicação Jornal de Almada |
THE CAFÉ ROCK’S CRIME Hannibal Havia
já cerca de dois anos, desde a altura do crime na North
Avenue, que abandonara Cranford.
Durante
esse tempo muita água correra no Hudson. Passei,
no “Bail Enforcement”, de
“Observer” a “Special Agent”, conduzo agora um “Plymont”
com matrícula federal, tenho um gabinete sito num vigésimo-terceiro andar da novaiorquina 6ª avenida e uma nova secretária, que dá
pelo de (vejam bem) Palmyra Seabreams. Naquela
terça-feira, 26 de Novembro, fora ela quem me passara a chamada do, agora,
Capitão Downey, que rápida e sucintamente dissera: –
Temos um assassinato no Cafe Rock. O “Sheriff” pede
a tua presença. O
dia, após uma noite “Pólo Norte”, estava enevoado e o boletim meteorológico,
ouvido no rádio durante a viagem, previa aguaceiros (o que já parece ser sina
minha) para a tarde e dias seguintes. O Dia de Acção
de Graças (Thankgiving Day=28
de Novembro) ia ser, pelos vistos, molhado. Estacionei
nas calmas nas Eastman Street, mesmo defronte do Café, no espaço deixado vago
por um carro-patrulha. A rua, que não é grande do lado do Café, pois confina
com o ramal ferroviário, estava bloqueada por três ou quatro carros
policiais, uma ambulância e dois ou três automóveis, enquanto nos passeios se
juntara os habituais magotes de mirones. A
fachada principal do Café Rock é constituída por uma porta envidraçada com
uma montra de cada lado. Ao lado da vitrina do lado direito existe outra
porta que dá acesso aos dois andares superiores, cujas janelas dão para a
Eastman. Mostrei,
o meu distintivo aos dois guardas que estavam à porta e entrei. O
Cafe Rock é um salão rectangular.
Do lado direito tem uma montra frigorífica e um balcão a todo (quase) o
comprimento da sala. Os dois terços da área restante estão ocupados pelas
mesas e cadeiras. Do outro lado do balcão e junto à parede, a todo o seu
comprimento, estão colocadas estantes com as diferentes máquinas, garrafas,
loiça, os vários lotes de café, a aparelhagem que costuma “produzir” a música
ambiente, etc., etc. Ao fundo e a seguir ao balcão existe um pequeno espaço
que dá para a copa, (à esquerda) e para a casa de banho (à direita). Entre as
duas dependências há uma porta de acesso ao pequeno pátio de terra batida
exterior, separado da via férrea por um muro com
cerca de 1,20 de altura. Em três das paredes do salão existem, pendurados,
quadros com as capas de discos de cantores e grupos de rock. Eu
conhecia bem o local pois, enquanto vivi em Cranford,
o Cafe Rock era a minha área de “estacionamento”
preferida. A “bica” era boa. O
salão estava, praticamente, cheio. Para além de três ou quatro detectives, outros tantos guardas, uns quantos peritos e
fotógrafos e um grupo de civis, encontravam-se lá Chris Thompson
(o novo “Mayor”) e Arthur Browning (o novo
“Sheriff”) a quem Downey me apresentou. O
grupo de civis, sentados ao redor de duas mesas, junto à porta principal, era
constituído pelo Kevin, o dono do Cafe, Dawson, Margareth. Rose e
Steven, todos eles empregados que eu já conhecia e a quem cumprimentei e por
dois latino-americanos que eu nunca vira. Estavam todos calados e
cabisbaixos. O
cadáver ensanguentado, sobre quem um perito qualquer se debruçava,
encontrava-se caído de costas, por detrás do balcão, entre este e a estante
que suportava a máquina do Café. Era de estatura meã. A
porta das traseiras estava aberta e fora dois detectives,
de cócoras, vasculhavam algo no chão. Sentámo-nos,
eu e o Downey, junto a uma mesa isolada a um canto,
puxámos cada um do seu cigarro, o que para nós é já um ritual e à pergunta
que lhe fiz respondeu: –
Os dois “Spanishes” são também, como o morto,
empregados do Kevin. O latagão chama-se Xavier Alvarado,
tem trinta e sete anos de idade e é salvadorenho, o baixinho é Carlos Cardenas, tem vinte e cinco anos, é hondurenho. –
Quanto ao morto…? – acrescentei eu. –
Porfírio Hernandez, trinta
anos, nicaraguense. –
Indícios, arma e suspeitos? Downey tirou uma fumaça
mais do cigarro, retirou do bolso do casaco um canhenho e foi falando ao
mesmo tempo que ia desfolhando o bloco. Resumindo… Hernandez tinha três
facadas no abdómem, que atingiram o estômago, fígado e os intestinos, segundo
o exame primário do “coroner” (médico especialista
em Medicina Legal). A arma do crime fora a faca de cortar bolos, achada com a
lâmina coberta de sangue, no chão, junto ao cadáver. Fora já enviada para o
laboratório, para análise e referenciação de eventuais impressões digitais,
que o médico achava pouco prováveis, devido o cabo, de osso, ser irregular e
muito rugoso. A lâmina tinha vinte e cinco centímetros de comprimento e seis
na parte mais larga. Havia uma mesa e duas cadeiras tombadas e uma pegada, a
cerca de um metro da porta do pátio, que estava sendo “trabalhada”. Suspeitos
eram todos e nenhum até ao momento. A porta das traseiras fora encontrada
fechada unicamente no trinco. No dia anterior tinha havido os habituais dois
grupos de trabalho. Das nove da manhã às cinco da tarde a “equipa” fora
constituída por Rose, Margareth, Dawson e Steven; das cinco às onze da noite, hora de
fecho do Cafe, tinham trabalhado Kevin, Carlos,
Porfírio e Xavier. Segundo Kevin declarara, logo após o encerramento e no
momento da divisão, entre os empregados, do “bolo” das gorjetas, houvera
acalorada discussão entre o Carlos e o Porfírio. O Carlos acusara o outro de
meter dinheiro no bolso em vez de o colocar na caixa comum. Ultimamente e
sempre que o Porfírio estava de serviço, os colegas queixavam-se de haver
menos gorjetas do que, normalmente, em outros dias. Para evitar problemas
Kevin mandara o Carlos lavar a loiça, pós o Porfírio a recolher as mesas e
cadeiras da esplanada e o Xavier a acabar de limpar e arrumar o salão. Seriam
onze e vinte cinco quando o Porfírio, saindo da casa de banho, deu um
encontrão propositado no Carlos ao passar por ele. Resultado: duas chávenas
partidas e nova discussão. Kevin, que vira o incidente, mandou o Porfírio
acabar os trabalhos da copa, ameaçou despedi-lo e pôs o Carlos a varrer as
folhas caídas no pátio com um gadanho. Xavier e Carlos acabaram as suas
tarefas cerca das onze e meia. Kevin mandou-os embora e como pretendia vero
filme “Braveheart”,
com Mel Gibson, que passava na televisão à meia-noite, deixou o Porfírio a
finalizar os trabalhos, entregou-lhe as chaves das duas portas, fechou à
chave a porta principal ao sair e foi para casa. Contactadas,
a mulher e a sogra confirmaram ter ele chegado a casa às onze e quarenta e
terem estado, todos, a ver o filme. Às
onze e quarenta e cinco a polícia foi alertada, pelos residentes do primeiro
andar, um casal de velhotes, de ter havido barulho estranho no Café; a
patrulha enviada nada detectou: o café estava às
escuras e fechado. A Eastman Street foi patrulhada mais três vezes durante a
noite mas nada ou alguém foi detectado ou
assinalado. O
corpo fora encontrado às nove da manhã pelo primeiro grupo de trabalho. Dawson telefonara à Polícia e ao patrão, que comparecera
de imediato. A Cardenas e Alvarado
fora um carro-patrulha que os recolhera em suas casas e os conduzira para
ali. O
cadáver do Hernandez metido no habitual saco de
plástico saía entretanto, numa maca e o médico veio sentar-se a mesa, junto a
nós. –
Então “Doc” – disse o Downey
– como estão as coisas? –
Sem a autópsia tudo o que disser é debaixo de reserva – disse o médico
olhando o seu relógio de pulso – são onze e trinta, portanto diria que a
morte, dado o estado do corpo, ocorreu há cerca de onze a doze horas. –
E sobre a pegada? – perguntei eu. –
Fui referenciada, fotografada e está a ser moldada. É uma pagada negativa,
iria jurar de sapato de cabedal de homem, com 31,5 centímetros de
comprimento, justamente encontrada no único sítio onde a terra é de
consistência. Quem a produziu saía do Café. Ocorreu-me – continuou o doutor –
telefonar ao Serviço Meteorológico Local. Choveu ontem à noite, em Cranford, entre as onze e quarenta e as onze e quarenta e
cinco. Pouco tempo mas forte aguaceiro. E
posto isto, o médico despediu-se pois, segundo exclamou, o trabalho de
laboratório esperava por ele. De
comum acordo resolvemos, eu e o Downey, ouvir
novamente o pessoal presente, mas pouco ou nada adiantámos com isso. A
pequena Rose e a pouco mais alta Margareth
lastimavam o morto mas não gostavam dele pois ele tinha a mania de as…
mexerucar. Os
medianos Kevin, Dawson e Steven nada disseram de
novo. Alvarado, a quem noutra
situação eu teria perguntado “como vai o tempo aí por cima?”, pouco mais
disse. Tivera, inicialmente, alguns atritos com o morto, até ao dia em que
lhe deitara as mãos e o ameaçara de lhe partir a cara. Depois disso nunca
mais tivera problemas com o outro. Não gostava de aborrecimentos e o que
queria era trabalhar para juntar dinheiro suficiente para mandar vir a mulher
e os filhos de El Salvador. Quanto
a Cardenas, a quem apetecia dizer “como vai o tempo
aí por baixo?”, o que dizia repetidamente era que não tinha morto o Hernandez. Sobre a discussão havida declarou que
precisava de dinheiro extra para mandar à família em Honduras e que não era
justo que o Porfírio roubasse os colegas. Os
agentes enviados entretanto a casa de cada um, já que todos moravam nas
cercanias, a única informação que trouxeram, de familiares, amigos ou
vizinhos, é que todos eles tinham chegado a casa às horas habituais e não
tinham saído depois disso. Levantei-me,
estiquei o meu metro e setenta e seis, sentei-me e pus-me a fazer umas contas
no meu bloco e no final escrevi na folha um nome de seis letras, que mostrei
ao Downey. –
É a minha opinião também – disse ele. E
foi feita uma prisão. Mais
tarde, no posto policial, o preso acabou por confessar tudo. Pergunta-se:
1
– Quem é o criminoso? 2
– Como chegou a essa conclusão? |
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© DANIEL FALCÃO |
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