Autor

Inspector Fidalgo

 

Data

21 de Julho de 2002

 

Secção

Policiário [575]

 

Competição

Campeonato Nacional e Taça de Portugal – 2001/2002

Prova nº 12

 

Publicação

Público

 

 

Solução de:

O INSP. FIDALGO E A MORTE DO CONDE

Inspector Fidalgo

 

Um problema deste tipo leva-nos de imediato para a questão do homicídio ou suicídio.

A favor do suicídio:

1 – Tudo se conjuga, amor e separação. O conde ia visitar a sua amada, se calhar já decidido a matá-la se ela não regressasse com ele. Acaba por assassiná-la. De regresso ao lar, já roído pelos remorsos, põe termo à sua própria vida.

2 – A ferida na cabeça não deixa dúvidas: o tiro foi desferido à queima-roupa, deixando uma marca em forma de estrela, sinal de esfacelamento de tecidos.

3 – Sapatos molhados, sinal de que tinha acabado de chegar vindo de fora.

4 – Porta fechada à chave, numa procura natural de privacidade para o acto íntimo que ia praticar.

Contra o suicídio:

1 – A arma usada foi uma pistola, que ejecta, naturalmente, as cápsulas deflagradas, mas não há cápsula no chão.

2 – O corpo apresenta livores de hipóstase e rigidez cadavérica, o que indicia que está ali há várias horas. Um cadáver nunca está completamente rígido antes de seis horas após a morte, nem leva nunca mais de 18 horas a atingir a completa rigidez. Os livores formam-se nas partes baixas do corpo, por deposição do sangue por acção da gravidade. Não levam menos de quatro nem mais de 12 horas a ficarem completamente formados. Portanto, a morte do conde não ocorreu naquele momento, mas várias horas antes.

3 – Os livores nos locais onde aparecem e a mancha de sangue no solo indicam que o conde foi morto ali mesmo e não deslocado.

4 – A ocorrência da morte horas antes é que justifica que não haja cheiro a pólvora no compartimento. O assassino teve tempo para arejar o local, por alguns minutos, fazendo sair o cheiro. O mofo, esse, é mais difícil por estar já entranhado. Se fosse suicídio, o cheiro a pólvora queimada teria de lá estar.

5 – As calças não podiam estar secas a ponto de se poder retirar um cabelo com um lenço de papel – que ensoparia –, depois de passar por uma neve de 20 centímetros de altura.

6 – Normalmente ninguém se iria suicidar de pé, a meio de um compartimento. Certamente que se sentaria na cadeira favorita, rodeado dos objectos da sua predilecção e só depois poria fim à sua existência.

7 – Se o suicídio ocorresse naquelas condições, a pistola não estaria na mão da vítima, mas sim projectada a alguma distância, por via do impacto da queda do corpo.

Parece fácil concluir que não se tratou de um suicídio, mas sim de um homicídio. Portanto, passamos à fase seguinte, a de sabermos quem cometeu o acto. Aqui eliminamos logo a possibilidade de ser alguém vindo do exterior, estranho à nossa cena. Os cães e o modo como tudo é descrito descartam essa hipótese. Ficamos com as personagens que nos são indicadas.

Neste tipo de problemas não se justifica irmos por um caminho de ilibação dos suspeitos até ficarmos com o nosso homem. E isso porque o conde não foi morto – como já vimos – no momento em que nos é apresentada a cena, mas sim horas antes. Logo, não sabemos quem estava em casa a essa hora, o que faziam, etc. Há, pois, que reunir provas conclusivas contra alguém e incriminá-lo pelo assassínio.

E aqui chegamos, sem qualquer dúvida, a Alberto.

Vejamos como:

1 – Levou água quente para aliviar e aquecer os pés, mas muito tempo depois, certamente já com a água bem mais fria, ainda aparece a apanhar os cacos do jarrão com as calças e sapatos molhados! Ele não usou a água quente para o fim que disse.

2 – Ao sair para prender os cães, diz ter-se cruzado com o senhor que entrara pela porta principal. No exterior, apenas há um grupo de pegadas que conduz a essa porta. Supostamente as feitas pelo patrão. Mas como os cães ainda não estavam arrecadados, ficam a faltar as marcas deles em redor do seu dono! Portanto, as marcas que lá estão foram feitas já depois de os cães serem presos pelo Alberto. E só ele poderia entrar pela porta principal, uma vez que o filho do conde e os amigos entraram pela cozinha e ficaram a brincar com a cozinheira. Esta acaba por estranhar ver o Alberto surgir do corredor, alegando que nem se apercebeu da sua passagem para lá. Claro que não podia aperceber-se disso, pois ele não atravessou a cozinha ao regressar, tendo mesmo entrado pela porta principal.

3 – Só o Alberto teve oportunidade de encenar a queda do jarrão, sabendo que de 30 em 30 minutos o soldado vinha à frente. Podia programar o momento da queda como quisesse. A criada que ele refere não pode ser responsável por nada. Saíra há muito e não podia programar nada a mais de 30 minutos de distância.

4 – Alberto nem tentou accionar o manípulo da porta para a abrir. Arrombou-a de imediato, porque sabia que a tinha deixado fechada depois de andar por lá a encenar tudo. Certamente que levava a chave no bolso e, como foi o primeiro a entrar e a chegar até ao cadáver, teve oportunidade de a colocar no chão.

5 – O dedo indicador era o único que estava suficientemente maleável para se poder tirar impressões digitais, e isso só se pode explicar por ter sido mergulhado na tal água quente, a ponto de ficar com a pele enrugada. E isso porque era indispensável que o dedo se moldasse ao gatilho da arma para dar credibilidade.

6 – Os sapatos da vítima, molhados e em desalinho, e o direito mesmo mal calçado, revelam que alguém tentou metê-los nos pés para dar a impressão de que o conde viera da rua, mas a rigidez do cadáver dificultou a tarefa e acabou por ficar assim mesmo. Estes sapatos terão sido os que Alberto calçou quando foi recolher os cães e entrar pela porta principal. Antes disso, Alberto terá usado outros sapatos, certamente seus, porque a cozinheira prestaria mais atenção quando ele entrou vindo do gozo do dia de folga do que quando foi guardar os cães.

Há ainda outras questões, mais ou menos irrelevantes, a considerar:

1 – A presença dos carros não nos diz muito. Pela versão do Alberto cruzou-se pelo patrão quando ia prender os cães. Só depois chegaram o filho do conde e os amigos. Portanto, mesmo por esta versão, quando os jovens chegaram já lá estavam todas as outras viaturas.

2 – O filho do conde terá mesmo ido visitar a mãe, gostasse ou não dela. Ter dito isso na presença dos amigos e não ter sido desmentido parece prová-lo.

3 – O sangue em redor da cabeça do conde, no chão, parece não deixar dúvidas de que o crime foi cometido ali mesmo. As condições para não ser audível por outros membros da casa – cozinheira e empregada de dia – não são colocadas neste problema. Não há referência sobre presenças e ausências, sobre uso de silenciadores ou outros artifícios, o que também não é importante.

4 – Finalmente, há as razões do crime que os mais curiosos gostariam de saber. Não vão ter essa sorte: as razões ficaram com os intervenientes. Muitas vezes o porquê não é assim tão importante…

© DANIEL FALCÃO