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Autor Data 23 de Outubro de 2026 Secção Página
Policial [4] Publicação Correio do Ribatejo |
CASO RURAL Inspector Moscardo A campanha da palha tinha corrido
satisfatoriamente, e previa-se lucro na colheita bem-sucedida. O produto armazenado
nos palheiros e armazéns, recentemente construídos apenas aguardava a sua
colocação no mercado. Depois de conferida minuciosamente
toda a carga empilhada, o capataz elabora o rol de alguma manutenção a efectuar em alfaias e máquinas danificadas – charrua;
aiveca para soldar; tractor – desde a tarde da
véspera com avaria na bomba injectora; grade de discos
– alguns a substituir; escarificador, a precisar de intervenção da
serralharia; reboque; taipais novos. No dia seguinte, que prometia ser radioso,
preparou-se a adiafa. Duas pranchas compridas de madeira,
assentes nas pontas dos cavaletes, serviam de mesa melhor do que qualquer
peça mobiliária da corte de Luís XIV. Rijas tábuas de soalho, apoiadas em
tijolos, desafiavam em qualidade os melhores bancos corridos da lavra dos
mais credenciados marceneiros. No pátio, os grelhadores eram abastecidos
de carvão e lenha para preparar condignamente os petiscos. Estando a corrida pronta, soltou-se um
foguete para chamar os retardatários. Com o pessoal todo presente, foi-se
comendo e bebendo com o apetite próprio e adequado ao evento festivo. Na
euforia provocada por alguns almudes de pinga de estalo. Em breve se cantarolava:
Todos os pássaros bebem água Só a coruja bebe azeite Mas o passarinho da menina… Enquanto alguns filosofavam em alegre
ambiente nutricionista qual seria a alimentação da ave atrás citada, noutro
lado rompiam brindes e vivas ao lavrador, ao feitor, ao capataz, aos trabalhadores,
etc. Foi então que vindo do lado dos palheiros
de onde supostamente teria ido aliviar a bexiga, o capataz disse em surdina
ao lavrador: – Vossa Senhoria, desculpe, está uma
pilha descomposta. Falta um fardo de palha. O lavrador, o capataz e o feitor reuniram-se
em privado alguns minutos. Palavra puxa palavra, concluíram que apenas três
pessoas poderiam ter cometido a ousadia. A saber: O Manel, o Xequim e o Atoino. Chamados a perguntas, disse o Xequim. – Eu saí de madrugada, para evitar a
hora do calor, com o respigador, rebuscar um bocado de palha esquecida no
campo. Disse o Atoino:
– Estive a limpar o curral das vacas
com o Zé. Tomei um duche e vim para cá. Disse o Manel: – Levei as ovelhas por entre o
restolho, que ela "tosaram" bem. O feitor cofiou o bigode, olhou para o
lavrador que levou a mão ao chapéu e perguntou ao capataz: – Que te parece? Este sorriu ou tentou sorrir e respondeu:
– Vossa Senhoria, já sei quem foi dar
"palha à mula". E o prezado leitor, quem acha que
"foi à palha"? |
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© DANIEL FALCÃO |
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