Autor Data 3 de Fevereiro de 2002 Secção Policiário [551] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2001/2002 Prova nº 6 Publicação Público |
A MORTE DO CHARADISTA Janes Naquela manhã soalheira do
mês de Julho, foi encontrado, pela D. Adozinda – governante, cozinheira, etc. – o corpo de
Januário Pinto, ex-artista plástico, na área da escultura em ferro e que já
há algum tempo se dedicava a tudo quanto era exercício mental, escrevendo
também alguns poemas. Por isso era conhecido pelo “Charadista”. Foi no escritório que o inspector Alex Cruz e o detective
Passos, chamados entretanto, juntamente com o detective
Monteiro, depararam com o ancião, já “promovido” a cadáver. Fora a D. Adozinda quem contactara o primeiro, mas como este
gostava de trabalhar em equipa, trouxera os outros. O cadáver estava caído no
chão, de peito para cima, com ambas as mãos sobre o mesmo, tinha os olhos
muito abertos e os membros com uma rigidez muito acentuada. As mãos
crispadas, de unhas bem tratadas mas apresentando partes escuras sob elas,
indicavam poder tratar-se de um ataque cardíaco, como foi, de resto, a
opinião “a priori” do médico legista. Na casa, além da D. Adozinda, viviam ainda os três sobrinhos da vítima, além
do corpulento Ambrósio, que acumulava as funções de jardineiro, com as de
motorista e reparador de pequenas coisas. Também faziam parte dos
moradores dois corpulentos e ferozes cães, que tinham tido a mesma pouca sorte
do “Charadista”, talvez envenenados, já que tinham sido encontrados pedaços
de carne, provavelmente atirados de fora e que foram recolhidos para análise.
O palco dos acontecimentos
era uma vivenda de dois pisos, de tamanho considerável, totalmente cercada de
canteiros e arruamento de saibro cimentado. Toda a propriedade era murada,
sendo a frente gradeada a partir de um, dois metros de muro e no centro, um
portão frontal à entrada principal, totalmente construído em ferro, com
adornos e puxadores em bronze. O detective
Monteiro, destacado para sondar o exterior da vivenda, não descobriu nada de
relevante, para além dos cadáveres dos cães. O inspector
e o detective Passos tomavam nota dos nomes e
hábitos dos moradores: A D. Adozinda,
uma vida dedicada ao patrão, servia-o há mais de quarenta anos; o Ambrósio
para lá caminhava, com uma fidelidade quase canina; Simão Bororé, filho de
uma irmã da vítima e de um cidadão brasileiro, era do tipo extrovertido,
tinha 38 anos e regressara do Brasil há cerca de três, vivendo com o tio, que
lhe oferecera alojamento. Embora afirmasse ter um bom pé-de-meia, foi
ficando, divertindo os outros com saídas engraçadas. Mal entrou no
escritório, começou logo o gracejar: – Coitado do tio! Com este
calor ainda é capaz de lhe faltar ar… Foi travado pelo olhar duro
do inspector, nada dado a gracejos parvos. Manuel Seixas, filho de
outra irmã do falecido, tinha 40 anos de idade e uma faceta: apanhara uma “piela” há 20 anos atrás e ainda não lhe tinha passado.
Referiu apenas o facto de ter visto perfeitamente os quatro cães do tio!!! Fernando Pinto, filho de um
irmão, era o menino bonito de Januário. Com 32 anos, sempre impecável no
vestir, era quadro superior numa empresa de telecomunicações e era apontado –
segundo disse a D. Adozinda, que o ouvira ao patrão
– como herdeiro da maior parte da fortuna do tio. Limitou-se a entrar em
silêncio, fitando, de semblante triste, o local onde o tio tinha caído para
sempre… Dispensados os presentes,
por não existir suspeita de crime, o inspector
pôs-se a observaras olhas onde Januário Pinto estivera a escrevinhar umas
coisas e fixou-se numa estranha quadra: “É com este fio de cobre / Que ligo à
corrente, o rádio / Para ouvir o relato / Que emite qualquer estádio.” Também havia frases em
hieróglifos, que o inspector reconheceu como sendo
o nome dos sobrinhos. Estava tão embrenhado nesta
contemplação que nem deu pela entrada da D. Adozinda,
que lhe pregou um susto, ao falar: – Há uma coisa que ainda
não foi referida. O patrão andava, ultimamente, com a mania de que o queriam
matar por causa do testamento que tinha marcado para hoje, no notário, e em
que ia deixar bens aos sobrinhos e a nós, empregados… O inspector
deu mais uma volta nos papéis e deu atenção ao princípio do que seria uma
futura quadra: “Vem a sétima em primeiro / E a extremidade do braço / Daquel…” Desconfiado Alex Cruz
mandou Passos dar uma vista de olhos aos quartos dos agora suspeitos e num
dos quartos encontrou um cone de papel, com um alfinete na ponta, a fim de
estar em qualquer coisa. Estava debaixo de um móvel. O inspector
sorriu. As peças começavam a encaixar. Ele, que também era fanático pelas
coisas que estimulam as “cinzentas”, tinha agora a certeza de que se tratava
de um assassínio. Recebidos os relatórios do
médico legista e do veterinário, constatou-se, não sem surpresa de Passos e
de Monteiro, que todos tinham sido envenenados, dono e cães, da mesma forma.
A carne não tinha nada de veneno… E agora temos um ou mais
assassinos! Aqui fica o desafio, para
um sucinto embora completo relatório desta “Morte do Charadista”. |
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© DANIEL FALCÃO |
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