Autor Data 17 de Março de 2002 Secção Policiário [557] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2001/2002 Prova nº 8 Publicação Público |
DA RÚSSIA COM AMIZADE Karl Marques O assunto para este
problema trouxe-me um amigo meu, bom tipo, mas muito, muito, mesmo muito
aldrabão. Somos da mesma idade – ele nasceu uma semana antes de mim, em Abril
do ano ainda não muito distante de 1980. Um acaso da sorte deu-lhe
uma pequena fortuna na lotaria, que lhe possibilitou, na altura com 17 anos,
começar a correr o mundo. Encontrámo-nos há dias e,
como nesta idade ainda não conversamos dos tempos em que éramos jovens,
fortes e robustos, nem nos queixamos de problemas de coluna ou de colesterol
e, muito menos, perguntamos pela mulher e filhos, o assunto foi,
naturalmente… mulheres, com breves referências às suas viagens, em que se
falava sobretudo de… mulheres. Mas, de todas esta
conversa, surgiu, apesar de tudo, algo narrável. Eis a transcrição do seu
relato sobre a viagem à Rússia: “… E então parti para
Moscovo, a 18 de Julho de 1997, depois de tratar dos meus primeiros
investimentos, sim, que os primeiros 15 dias de Julho foram de grande
trabalho, não me encostei à sombra do cacau ganho, decidi logo investir e, ao
mesmo tempo, meter-me na política, embora deva confessar que estas primeiras
até correram mal, pensei em abrir uma papelaria no Colombo, mas a burocracia
desmotivou-me, e, quanto à política, eu nunca tinha percebido que só se
votava depois dos 18, de forma que nem recensear-me a junta deixou, por estar
fora de prazo, quanto mais candidatar-me. Fui então para a Rússia. Chegado lá, hospedei-me no
melhor hotel de Moscovo, para lá ficar um mês e meio e, em pouco tempo, com o
meu talento natural para línguas, consegui tornar-me amigo dos filhos do
gerente, um rapaz, gajo porreiro e uma rapariga, bem, nem queiras saber…
[faz-se aqui um salto na transcrição, visto esta parte em nada ir contribuir
para o texto e, sobretudo, para não baixar o seu nível!]…
e qual não é a minha surpresa quando, durante a minha estada, eles me
convidaram para ir com eles e com o pai a uma festa, num local que não
revelaram. Saí do hotel com eles, à
espera de ir a qualquer lado, desde um bar de “strip” a um leilão de bombas
atómicas mas, imagina como eu fiquei, levaram-me ao…
Kremlin, à residência oficial do Presidente, à casa do Boris! Bom, o homem é um espectáculo! Mal lá chegamos, enquanto eu despia o
sobretudo de pele de raposa e o tradicional gorro, sacudindo os flocos de
neve que a eles se agarraram, Boris veio ter connosco ao “hall”
de entrada, em mangas de camisa, com oito copos de vodka, quatro em cada mão,
cada um deles entre dois dedos! Se em vez de dez dedos tivesse catorze, doze
copos traria!!! Foi uma festa! Por essa altura, com
o meu talento natural para línguas, já dizia umas palavras de russo, e todos
eram unânimes em reconhecer que a minha acentuação era perfeita! Fantástica! Quando viemos embora, muito
alegres, pusemo-nos a andar de carro pela cidade. E quem é que nos aparece? A
máfia russa! Bem, foi o bom e o bonito, estava a ver que levávamos um balázio
cada um. Valeu-me o gerente do hotel ser um homem de contactos e saímos sem
problemas. Até nos despedimos alegremente: afastámo-nos a gritar adeus uns
aos outros: era gritos de “dovidenha” na noite
moscovita. Estás a ver? Um gajo é amigo do
presidente e também dos mafiosos! Estás a ver a cena?” Aqui, interrompi-o: – Estou, estou a ver a
cena. A propósito, já te tinha dito que todas as minas de diamantes de Angola
foram passadas para meu nome? Tão certo como a tua história russa ser
verdadeira! Então, gostaram? Agora
digam porque é que a história é falsa. Sim, porque eu não sou o proprietário
– infelizmente – das minas de diamantes! |
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© DANIEL FALCÃO |
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