Autor Data 30 de Janeiro de 2005 Secção Policiário [707] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2004/2005 Prova nº 3 Publicação Público |
Solução de: ENFORCADO NA IGREJA Karl Marques A igreja é do século XII,
por isso, fruto das pequenas superstições a que nem o cristianismo escapou,
será orientada para Este, para a Palestina. A porta principal ficará no
extremo Oeste. Nestas condições, a sala
onde foi encontrado o corpo terá uma janela a Este e outra a Sul. O cadáver está junto à
porta da sacristia (Este), pelo que naquela hora de Setembro o Sol, que já
vai bem a Oeste, não poderia incidir sobre o corpo, circunstância descrita
pela mãe (a porta está fechada, pois o sacristão vai a sair pela igreja; por
isso, a porta directa para a rua não está aberta). Logo a mãe tinha visto o
corpo do filho mais cedo. Mas esta tem aparentemente um bom álibi. Não foi
ela que matou o filho. Estamos em 1963, a opinião da Igreja sobre os suicidas
é bem vincada (o Vaticano II mal tinha começado). Jamais a religiosa
Conceição aceitaria o enterro do seu filho sem cerimónias religiosas. Morrer
sem oração do sacerdote e votado à condenação da Igreja terrena era “Inferno
na certa”. Quando chegou a casa, não
viu as chaves e foi à igreja (ou poderá ter visto a porta da sala
entreaberta, pois ela morava perto). Encontra o filho e toma uma decisão:
ocultar o suicídio. Mais tarde vincará: “Lá estavam as chaves”. Ela sabia que
nunca poderia falar no desaparecimento das chaves. Primeiro deslocou todos os objectos daquela zona. Como é uma senhora frágil recorre
ao carrinho de mão da despensa. Só tinha de deitar os objectos
no carrinho e depois levantá-los. Já não precisava de carregar. Foi buscar a
chave e quando a guardou na gaveta limitou-se a atirá-la lá para dentro. Por
isso foi tão fácil ao sacristão encontrá-la: estava mesmo por cima! Assim se
explica a limpeza daquela área da despensa. Provavelmente perfeccionista,
limpou o pó (e as teias) do que usou. O chão é de tacos de madeira, pelo que arrastar
objectos pode riscar o chão, além de não ser nada
prático. As pequenas nódoas de ferrugem serão provavelmente caídas dos
assadores deslocados (“muito velhos”). Ela tinha de afastar todos os
possíveis “locais de salto”. A própria limpeza do espaço
não faz sentido: se lá tinham estado a tirar coisas de manhã, algumas pegadas
teria de haver naquele chão, marcas de sujidade, etc. Depois, se é um
assassinato, tem de haver um suspeito. E ela sabia quem tinha desgraçado o
filho, aquela mulher… Foi à casa paroquial e encontrou no quarto do irmão do
padre o que precisava. Era costume Maria das Colheitas deixar coisas para
trás. E ela já sabia disso. Conhecedora da vida do
padre, do sacristão e do irmão do padre, sabia que dificilmente seria
interrompida. Quando vê o filho pendurado
de imediato grita: “O que fizeram ao meu filho!”. Quer desviar as coisas de
um suicídio, quando a reacção natural talvez fosse
“suicídio”, como pensaram o sacristão e o detective. O padre desconfia… daí a
tal pequena reacção quando lhe falam pela primeira
vez em homicídio. A questão é importante para ele: com homicídio há funeral
cristão, com suicídio não há. Quando vê o lenço, tira-o, talvez a pensar
falar melhor com a D. Conceição. Ele sabe que ninguém o viu a tirar o lenço.
“Viu-me? Como?” Mas D. Conceição sabe quem entrou na igreja (ela ficou em sua
casa a vigiar). Sabe que só o padre pode ter tirado o lenço. Por isso o padre
reagirá: “Viu-me?” Naquele momento, o Padre tem a certeza do que se passou.
Apressa a ida do irmão antes que o assunto se complique mais, nomeadamente
por Maria das Colheitas ser casada. O suicídio é pecado, razão
pela qual o padre evita olhar directamente para o
corpo. Sendo filho da D. Maria, a situação tem algum melindre para ele. A autópsia confirmará a
causa da morte e a ausência de lesões de qualquer espécie, assim como a
ausência de venenos ou outros produtos que pudessem diminuir a capacidade de reacção do morto. Confirmará a impressão exterior de não haver
lesões, o que condiz com a roupa impecável, e com o trejeito facial “comum
aos suicidas”. Se tivesse sido homicídio
porque limpariam o chão? Não há lesões, logo não havia sangue no chão (se
houvesse de outra pessoa, como um eventual agressor, isso quereria dizer que
houvera defesa de Pedro, mas a roupa está impecável). Como breve nota final, os
altares de talha dourada em nada chocam com a igreja do século XII, na medida
em que foi normal colocar-se talha dourada em Igrejas antigas. |
© DANIEL FALCÃO |
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