Autor Data 17 de Fevereiro de 1995 Secção O Detective - Zona A-Team [231] Competição Problema nº 1 | Convívio da Amadora Publicação Jornal de Almada |
ROUBO NA LINHA DE SINTRA – A «TPLS»
INVESTIGA! L. P. Não
podia ser verdade. Tanto cuidado com as malditas jóias e, afinal, tinham
desaparecido bem debaixo do nariz! Afonso
recusava-se a acreditar, pelo que telefonou para a Sociedade Filarmónica da
Amadora e pediu para falar com os detectives da Tertúlia Policiária da Linha
de Sintra. Foi
com olhos de ver que todo o grupo se debruçou sobre o caso. Tudo
se passou numa mansão de aspecto imponente e tenebroso, no coração de Sintra.
Implantada em enorme terreno circundado por muros altíssimos, quase
inexpugnáveis, albergava quatro moradores. O
Afonso, herdeiro da fortuna e da mansão maldita, que detestava, mas tinha de
utilizar por ser condição da herança; o “Gargantilha”, um ex-presidiário,
excelente cozinheiro, acusado de tudo e por todos dos crimes mais
espectaculares, que foi reabilitado pelo Afonso depois de cumprir mais de 20
anos de pena, por assalto, roubo, morte violenta e tudo o que os acusadores
quiseram porque ele não disse uma palavra durante os julgamentos; a Maria,
governanta, velha como o mundo e inoportuna em quase tudo o que fazia,
passava a vida a criticar as atitudes de Afonso, principalmente em relação ao
“Gargantilha” e ao “Dog”, o enorme cão que percorria todo o perímetro da
mansão, ameaçador, embora constando ter um coração de ouro, que nem aos gatos
da vizinhança fazia mal; o “Maneta”, um tipo sem a mão esquerda, perdida numa
qualquer guerra que teve com um foguete nas festas da sua aldeia natal,
algures nas Beiras, cujas funções passavam por recados e compras que ia fazer
à vila. Naquele
dia, toda a gente saiu. Afonso foi o último, por volta das 11 horas,
precisamente no momento em que a chuva, impiedosa, começou a cair, puxada
pelo vento sul, o que obrigou Afonso a correr ao escritório verificar se a
janela estava fechada, para não molhar a tapeçaria valiosa que cobria quase
completamente o compartimento. Respirou de alívio ao vê-la fechada. Ao sair,
ligou o alarme de todas as janelas da mansão, fechou a porta exterior e
percorreu o caminho bem tratado até ao portão que dava para o exterior,
sempre acompanhado, quase vigiado pelo fiel “Dog”, a quem fez uma festa antes
de fechar o pesado portão. Por
volta das 13 horas, quando regressou a casa, reparou que a chuva parara
naquele preciso momento e comentou para si mesmo que parecia bruxedo. À
medida que percorria o caminho que levava a casa, sempre com o cão a ladrar
ruidosamente, como sempre fazia, apercebeu-se que o alarme da casa estava a
soar, Correu em sua direcção, quase chocando com o “Maneta”, que vinha a
sair, esbaforido. –
Venha depressa, venha, ainda bem que aqui está… O alarme já está a tocar há
mais de 15 minutos e não sei como se desliga… –
Que aconteceu? – interrogou Afonso, alarmado. –
Não sei. Tinha acabado de chegar, encharcado pela chuva e só tive tempo de
tirar os sapatos e pôr as compras na cozinha. O alarme começou a tocar logo
que ouvi um barulho de vidro a partir-se. Corri pela casa e dei com a janela
do escritório como está a ver… Ainda vi um vulto a fugir e saltar o muro lá
ao fundo… Está a ver as pegadas? Não pude ir atrás dele porque estava
descalço e o jardim está cheio de vidros da janela partida… Porque raio me
fui descalçar? Afonso
baixou-se junto da tapeçaria e viu algo a brilhar… Correu à casa de banho e
trouxe uma folha de papel higiénico, com que esfregou, calmamente a
tapeçaria, em todos os sentidos. Respirou fundo: –
Ora bolas, é só um parafuso dos óculos… Nada de importante. E mostrou-o,
assente na folha de papel. –
Não seria o “Gargantilha”? – perguntou Afonso, já desconfiado do
ex-presidiário. –
Não, de certeza absoluta que não. Reconhecia-o se fosse ele. Era um intruso
que nunca vi antes. Afonso
olhou para os elementos da TPLS, desalentado. –
Malditas jóias! Por um lado, ainda bem que desapareceram. Quase desejo que a
polícia não dê com o ladrão nem com as jóias… Naquele
momento, Maria espreitou para o escritório, talvez espantada por tanto
movimento, mas nada disse, nem um cumprimento, nada, retirando-se para a
cozinha, onde o “Gargantilha” estava a preparar umas favas guisadas… –
Meu caro Afonso, avançou um dos detectives, acho que lhe falta algum espírito
criativo e prática policiária, pois caso contrário estou certo que facilmente
decifraria este caso. Digamos
mesmo, que, tal como este cheiro belíssimo que anda no ar, são “favas
contadas”… Vamos tirar as conclusões em conjunto e no fim, talvez tenhamos o
prazer de o ver aderir à nossa Tertúlia… |
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© DANIEL FALCÃO |
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