Autor

Masc

 

Data

21 de Abril de 1995

 

Secção

O Detective - Zona A-Team [236]

 

Competição

Torneio dos Convívios

Problema nº 3 | Convívio de Almada

 

Publicação

Jornal de Almada

 

 

MORTE NA VILA

Masc

 

O carro avançava deixando árvores, postes, vilas adormecidas, para trás. Premi o botãozinho do relógio e apareceu desenhado no écran 1.30h.

“Tão tarde”! – pensei.

O carro progredia na estrada engolindo, com a luz, milhares de mosquitos e outros insectos que se precipitavam para ela, encadeados.

“Falta pouco”. – pensei a sorrir – “Que linda maneira de começar umas férias”!…

E recordei-me da cena desta tarde, quando cheguei ao departamento, após estar mais de 24h em pé:

– Você precisa de férias! – tinha-me gritado o inspector-chefe.

– Sim, senhor! – exclamei de imediato. Embora eu, em relação aos meus colegas, tivesse adquirido um pouco mais da sua confiança, quando ele ditava uma ordem tinha-se logo de cumprir, e ainda mais, era muito raro as suas ordens estarem erradas; pois de facto eu bem precisava de repouso. E assim vi-me partir para o Alentejo para uma semana de férias. Entrei, por fim, na estrada que me levava à vila. Mais uns 30 km e estava lá.

Na estrada deserta continuei lutando contra a fadiga que sentia – o inspector tinha-me mandado embora da cidade porque caso contrário nunca iria ter possibilidades de descansar. Entrei na vila, ouvindo o relógio da torre da Igreja bater as duas horas. O barulho do motor do meu carro, fez com que a minha prima viesse à porta.

Até que enfim! Já estava a ficar inquieta!

Entrei, falámos um pouco, de diversos assuntos e, por fim, fui deitar-me numa cama muito fofa.

De manhã cedo, eram cerca das 6.30h, acordei devido ao alarido que vinha do andar de baixo.

– Ai que horror, coitado do homem! – dizia a minha prima – se isso é coisa que se faça a uma pessoal…

– Prima Maria!!chamei.

Ela veio carregada com um balde de água, dizendo:

– Toma, isto é para ti, com esta seca até temos de ir à fonte corno antigamente.

Isto não cabe na cabeça do ninguém acontecerem coisas destas!

– Há falta de água? – perguntei.

– Se fosse só isso!… Então não é que mataram o ti Zé Pereira!? Mataram ou matou-se como andam aí a dizer.

– Como é que foi isso?

– Ora, encontraram-no de manhãzinha cedo, no adro da Igreja, com o revólver ao lado. Desde que ele encontrou o tesouro…

– Tesouro?…

– Sim, e então…

Agora, narro eu: – por essas terras do Alentejo, no tempo das guerras tais como: a reconquista dos cristãos aos mouros, a invasão francesa, etc; muitas pessoas esconderam os seus bens de diversas formas, pensando recuperá-los depois. Ora enterrando-os, ora escondendo-os nos esconderijos mais estranhos dentro da própria casa, cujos ocupantes eram assassinados e os objectos escondidos nas paredes, nos tectos e até nas vigas dos telhados, assim ficavam esquecidos para sempre. Nasceram então diversas lendas de muitos tesouros escondidos e até é certo que muitos foram de facto encontrados por uma enxada ou demolição de uma casa antiga.

Ora foi isso que aconteceu ao Ti Zé Pereira, homem já idoso. Quis arranjar a sua antiga casa para o casamento do seu sobrinho e encontrou uma pequena fortuna em moedas de ouro.

– Bem, já chamaram a polícia? – perguntei.

– Já estão dois guardas ao pé dele, mas estão à espera de um chefe qualquer para tirar dali o homem.

Meia-hora depois, fui com o meu primo ver o morto.

Uma multidão de pessoas que acusavam, perguntavam, levantavam hipóteses, cercavam o cadáver onde dois guardas da região tentavam acalmar muito a custo.

– Ora, aquilo bebeu o dinheiro todo e matou-se no fim!

– Qual nada, mataram foi o velho por causa das moedas.

Acerquei-me do corpo. Este jazia no chão de pedras brancas que brilhavam ao sol da manhã; no peito, via-se uma perfuração chamuscada e na mão, um revólver. Nada mais notámos.

Uma voz sonora perguntou atrás de mim:

– Posso saber o que é que estás aqui a fazer!?

Voltei-me, era o meu inspector-chefe.

– A passar férias!… – expliquei.

– Hum… – resmungou e começou a examinar o morto.

Nesse momento um “mercedes sport” com um metalizado muito reluzente e limpo, com uns grandes faróis, parou e o homem acercou-se, perguntando:

– É pá, o que é que fizeram ao homem?

– Matou-se! – diziam uns.

– Mataram-no! – afirmaram outros.

E a conversa, quo tinha terminado com a chegada do inspector, recomeça.

O inspector levantou-se e começou a interrogar os presentes,

O morto tinha estado, como quase todas as noites, na taberna, só saindo a altas horas da noite, cantando à lua e fazendo uma enorme algazarra que durava algum tempo.

Depois, ia cada um para sua casa.

– Quem é que esteve com ele ontem à noite? – perguntei.

Um lavrador, o dono do “mercedes” e o sapateiro responderam que tinham sido eles.

O lavrador, homem novo e robusto disse:

– Eu moro fora da vila e até soube do sucedido, quando algumas mulheres foram à fonte por causa da falta de água. Bem, eram cerca da 1h e tal da manhã quando me fui embora… eu... é muito raro andar nestas andanças, mas é que a minha Josefina teve um miúdo e eu quis comemorar e então apanhei uma bebedeira, mas não muito grande pois hoje às 6h já andava a ver a horta.

O dono do “mercedes”, homem de meia idade e um pouco barrigudo afirmou:

– Bem eu, quando estes dois foram embora o ti Zé Pereira também foi, dizendo que tinha coisas a tratar e eu voltei atrás para ir beber o último copo antes de ir para a cama. Aliás, fiz uma enorme zaragata pois o taberneiro pós-me na rua. Olhe as horas não sei, mas que era tarde era e... olhe... parece que quando pus a chave à porta, o campanário bateu as duas. Continuámos a interrogar mais pessoas até chegar a hora do almoço. O meu primo veio chamar-me e convidou o meu inspector. Quando chegá-mos o meu inspector exclamou: - O seu carro está um bo-cado sujo! - É de viajar à noite! - pensativa um pouco -Sabe uma coisa, já sol quem matou o ti ZO Pereira. O Inspector olhou para mim. • Ora conte lá... E eu contei.

 – Eu… bem, sei que não se deve guiar embriagado, mas eu nem sequer estava “quente” e fui até à cidade, não sei se o senhor guarda sabe, sai-se pela estrada da vila e depois vira-se à esquerda.

O inspector acenou com a cabeça afirmativamente.

– Eram cerca das vinte ou um quarto para as duas da manhã, quando me meti a caminho pois fui lá dormir para tratar de negócios e voltei há pouco. Não tenho tido tempo para nada…

O sapateiro homem alto, magro, de poucos cabelos, já brancos, e com os óculos na ponta do nariz, disse:

– Vocês nem sabem o que disse a minha Francelina, quando cheguei a casa e agora ao ver-me metido nisto até nem me quer falar.

– Está bem mas diga lá, o que é que aconteceu consigo ontem? – perguntei.

– Bem eu, quando estes dois foram embora o ti Zé Pereira também foi, dizendo que tinha coisas a tratar e eu voltei atrás para ir beber o último copo antes de ir para a cama. Aliás, fiz uma enorme zaragata pois o taberneiro pôs-me na rua. Olhe as horas não sei, mas que era tarde era e… olhe… parece que quando pus a chave à porta, o campanário bateu as duas.

Continuámos a interrogar mais pessoas até chegar a hora do almoço. O meu primo veio chamar-me e convidou o meu inspector. Quando chegámos o meu inspector exclamou:

– O seu carro está um bocado sujo!

– É de viajar à noite! – fiquei pensativa um pouco – Sabe uma coisa, já sei quem matou o ti Zé Pereira.

O inspector olhou para mim.

– Ora conte lá…

E eu contei.

 

PERGUNTA-SE:

a) Como é que eu sei que o ti Zé Pereira não se suicidou?

b) Quem é que foi então o criminoso?

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO