Autores Data 3 de Novembro de 1995 Secção O Detective
- Zona A-Team [251] Competição Problema nº 9 | Convívio do Sobral de Monte Agraço Publicação Jornal de Almada |
VAMOS PONDERAR O CASO… Natércia Leite Havia,
como é usual, uma placa exterior à porta, com as campainhas. A senhora estava
farta de tocar para o 3º esquerdo. Tinha combinado a hora de vir e até já
estava atrasada. Tocou então para a porteira que era o botão, o primeiro,
parte de baixo, com indicação escrita. Imediatamente a porta foi aberta. A
portaria era no “hall” e a porta estava sempre
aberta, durante as horas de serviço que lhe competiam, embora ela andasse
constantemente fora e dentro por atribuições do seu ofício. A senhora disse
então que vinha entregar uns documentos importantes em mão própria no 3º
esquerdo, residência do advogado Ramires. E que francamente estava admirada
por não obter resposta nem encontrar ninguém em casa. Ao
que a porteira retorquiu que devia haver qualquer equívoco, pois, embora
estivesse dentro de casa a passar a ferro, ouvira a determinada altura – ia
jurar – a voz da D. Maria de Fátima falando alto, não sabia com quem e de
seguida o barulho do elevador. De
qualquer maneira como possuía as chaves de todos os condóminos (por causa da
contagem da água, luz, gás e não só) poderia ir com a senhora ao 3º, ver o
que se passava. Quanto
a ela, seria qualquer problema relacionado com a campainha. Havia
dois elevadores. Um, que dava directamente para o hall e o outro para o fundo das escadas de acesso aos
andares. Mas estavam ambos ocupados. Chegou
primeiro o que dava para o “hall” transportando a
inquilina do 6º. A
porteira e a visitante ocuparam esse elevador deslocando-se nele até ao 3º
andar. Tocaram à campainha. Funcionava. Bateram e ninguém respondeu. A
porteira então abriu a pôr-ta. No vestíbulo sobre uma cómoda estava uma mala
de mão e as chaves de casa. Do vestíbulo partia um corredor em frente e tanto
para a esquerda como para a direita havia uma divisão. A porteira fez notar à
senhora que se as chaves estivessem pelo lado de dentro, na fechadura, ela
nunca poderia entrar. Entretanto
um cão pequeno que acorrera quando ouvira bater e mexer na porta começou um
fortíssimo ladrar, mais intenso quando deparou com a desconhecida. Era um yorkshire-terrier que a porteira teve de ir fechar na
cozinha, pois apesar de pequeno, perante estranhos era pior que um grande cão
de guarda e fazia um barulho que alertava os vizinhos, sendo preciso cuidado
com os seus dentes pequenos mas destruidores. Na
divisão da esquerda, uma mistura de sala e escritório estava a dona da casa
prostrada no chão com a cabeça desfeita por forte pancada. Não
havia sinais de luta. Um casaco, estava atirado
negligentemente sobre um sofá. Apenas
uma espécie de contador (ficheiro como diria mais tarde o advogado) tinha as
gavetas todas abertas, encontrando-se imensos papéis espalhados pelo chão. O
objecto de agressão fora uma pequena jarra de
metal, indiana. Ligou-se
então para a polícia e para o escritório do Dr. Ramires para o inteirar do
que se passava. A saber: o caso de
polícia era simples. A D. Maria de Fátima viera acompanhada para casa, fora
brutal e mortalmente agredida e o objectivo teria
sido a obtenção de qualquer papel específico (encontrado ou não) que fora
procurado e que de outra maneira não poderia ser obtido. Impressões
digitais não foram encontradas nem na jarra nem no ficheiro, devendo o autor
do crime ter tido o cuidado de limpar muito bem as superfícies em questão. Os
vizinhos depois de inquiridos, disseram não ter dado
por nada de anormal. Só
o Dr. poderia dizer se faltavam papéis e o que
faltava para se tentar fazer luz sobre o caso. Era
o Dr. um especialista de renome em casos de divórcio
e confirmou que no seu ficheiro guardava variados documentos e os seus
dossiers, onde constavam pormenores e nomes que os próprios interessados,
muitas das vezes desconheciam por uma questão de sigilo profissional e grande
discrição. Costumava
o Dr. ter esses papéis em casa pois dividia o
escritório com outros colegas e sentia-se assim mais confiante sobre
determinados aspectos. Foi bastante difícil colocar
os papéis espalhados no seu lugar e embora estivesse tudo catalogado por
ordem alfabética e convenientemente ordenado, de entre tantos dossiers era um trabalho delicado e exaustivo saber o que
faltava ou se não faltava nada, no meio de tanta confusão de papéis
dispersos. Valeu não só a memória do Dr. mas
principalmente um registo pessoal que o Dr. possuía dos casos em curso, dos
iniciados e dos arquivados. Foi
difícil, mas não impossível. Faltavam
quatro dossiers. Respeitantes ao casal Castro, casal
Faria, casal Sameiro do Vale e casal Valentim. Estes
quatro casais foram convocados para prestar declarações. O
casal Castro era um casal de meia idade cujo cônjuge
masculino arranjara uma ligação com a afilhada da mulher, ligação que ia
mantendo e que a mulher legítima acabara por já não conseguir suportar.
Pusera-se a hipótese duma ruptura e subquentemente reconciliação, mas o caso estava ainda
muito embrulhado pois o Castro era teimoso. O
caso do casal Faria era diferente. A esposa é que tivera um “deslize”, embora
o negasse firmemente e o marido tivera conhecimento do facto através dum
telefonema anónimo, feito por voz feminina. O Faria, ciumento, ficara cheio
de dúvidas e entregara o caso ao Ramires, não se lembrava bem porquê – parece
que alguém o tinha indicado mas de qualquer maneira descobrira que ele fora
seu colega no liceu, já lá iam bons anos. O advogado tentava um trabalho de detective, aconselhando o amigo a levar em linha de conta
que um telefonema anónimo pode ser unicamente vingativo, malévolo e falso e
que a tal “escorregadela” podia nem sequer ter existido ou então
“generosamente” perdoada. O
casal Sameiro do Vale era talvez o caso do tipo mala frequente mas também dos
difíceis da solucionar pois o marido não queria de forma alguma o divórcio e
fora a mulher que contactara o Dr. Ramires, havendo volta e meia tentativas
de ajustamento e solução, ainda não conseguidas. O
casal Valentim era um casal deteriorado e a rotina asfixiante de largos anos
e a procura dum lado e doutro de companheiros adequados e nunca conseguidos,
transformara-os num casal amargo, decidido à separação. Era um caso arrumado.
Sameiro
do Vale, homem maduro mas “muito bem” casara com uma mulher muito mais nova.
Que a certa altura encontrara um antigo companheiro de estudos e antigo
namorado e preferia agora viver com ele ao invés de nadar no dinheiro do
marido. A vida tornara-se num inferno com o marido a querer conservar a
mulher a todo o custo e ela decidida a substitui-lo pelo antigo colega. Qualquer
destes casais tinha ido por diversas vezes ao escritório do advogado para
discussão dos casos e acareações e parte deles ou juntos ou separados já
tinham comparecido no dito 3º andar esquerdo, embora, como é normal o Dr. só a título excepcional
recebesse clientes na sua residência. Os
casais não se conheciam uns aos outros e os seus “casos” eram completamente
diferentes. Negaram terminantemente terem roubado ou possuírem os dossiers em questão que faltavam no ficheiro. Perante
estes dados que eram resultado do inquérito dos casais postos em causa, por
serem os suspeitos, e da divulgação dos pormenores de ordem pessoal por parte
do advogado, pergunta-se: a)
Qual a razão do roubo dos quatro dossiers? b)
Quem pensa que tenha cometido o crime? c)
Que razão encontra para este crime? d)
Segundo a sua lógica, elabore o desenrolar dos acontecimentos, tentando dar
explicações para certos pormenores implícitos no caso. |
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© DANIEL FALCÃO |
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