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Autor Data 18 de Novembro de 2018 Secção Policiário
[1424] Competição Campeonato Nacional e Taça de Portugal – 2018 Prova nº 10 – Parte I Publicação Público |
MEMÓRIAS DO INSPECTOR AMBRÓSIO Nordi Uma
das figuras mais emblemáticas da polícia, em todas as eras, que ainda hoje
municia as grandes histórias da corporação, chamava-se Ambrósio e nada tinha
a ver com o célebre motorista que adoçava a boca à madame. Este era
ridiculamente minúsculo, enfadonho, sem qualquer rasgo de sabedoria ou de
fanfarronice. Era um verdadeiro “cromo”, que certamente passaria
despercebido, não fosse a intervenção, em contraponto, do agente Lima, um
tipo engraçado, sempre com uma boa tirada a cortar os momentos mais tensos. O
Ambrósio, apesar de tudo, foi um grande “malandro” na sua juventude, nada
parecido com o que se tornou. Contava as suas aventuras, provavelmente com
algumas “inovações” e uma das mais paradigmáticas foi quando terminou a sua
formação na polícia e resolveu ir dar uma volta até Estocolmo, ao volante do
seu carro, Europa acima! O
carro era um velhinho Taunus, pesadão, com mudanças no volante e ainda havia
a gasolina normal e super. Como não havia informação, foi metendo a que
estava mais à mão e daí não veio mal ao mundo, porque acabou por chegar ao
seu destino, depois de passar por Amesterdão e assistir à final dos campeões
europeus que o Benfica, o seu Benfica conquistou e cujo bilhete exibia com um
orgulho do tamanho do mundo. Contou
que ao chegar a Estocolmo, com o passaporte bem carimbado, estranhou quase
tudo, desde o clima até ao feitio das pessoas. Como o trânsito era infernal
em ambos os sentidos da rua em que tinha alojamento e o estacionamento
extremamente complicado, resolveu ir para um parque público assinalado, que
ficava nas traseiras dos prédios e, sempre de forma cautelosa, percorreu os
50 metros que o separavam de um portão onde apenas passava uma viatura de
cada vez, virando então à direita até aproximar a frente à barreira amovível.
Baixou o vidro, rodando a manivela, mas em vez de ficar frente a frente com o
porteiro – cobrador, apenas viu uma parede compacta, branca. –
Raios, pensou, já fiz asneira e da grossa! Este portão é para saída! Furiosamente,
meteu a marcha atrás e começou a recuar, porque os suecos eram uns
cumpridores militantes das regras e quase de certeza que ia saltar uma multa
bem durinha e dolorosa. Tudo o que conseguiu foi ficar com a traseira do
carro a escassos centímetros de uma viatura da polícia que estava a circular
e ficou-lhe na retina a cara carrancuda do agente ao sair do carro, como que
a antecipar o banquete de multas que se avizinhava. Por
gestos, sinais e alguns sons aparentados com a língua inglesa, procurava
explicar que era português, se tinha equivocado e não tivera qualquer
intenção de causar problemas. Logo reparou que o guarda do parque se
aproximava, também ele com ar de poucos amigos, a exigir que desobstruísse o
portão. – De
certeza que te multaram por entrares ao contrário! E foi muito bem feito! –
gozavam os colegas, fartos de ouvirem a história. –
Não, para alguma coisa serviu o crachá! Assim que o agente viu que eu era
polícia em Portugal, mudou logo a carranca e mandou o guarda do parque lá
para dentro! –
Não acreditem! – “picava” o Lima. Um polícia sueco jamais deixaria de multar!
Eles nem perdoam à família, quanto mais a um colega! Houve multa, claro!
Houve, ou não houve? O
Ambrósio assentiu com a cabeça: – É
verdade, houve multa por manobra perigosa, mas ficou suspensa de bom
comportamento até abandonar o país. Acabei por ganhar um amigo, ele
arranjou-me um lugar para estacionar no parque da polícia, mostrou-me a
cidade e foi um camarada. Nunca mais o vi, mas às vezes mando-lhe uma
mensagem e vamos comunicando. –
Que história mais estapafúrdia! – comentou o Lima. Se eu não conhecesse bem o
Ambrósio, diria que era um mentiroso, mas como conheço e já ouvi esta
história milhares de vezes… E
você, caro leitor, acredita? Ou há mais coisas que o Inspector Ambrósio não
contou? Justifique as suas conclusões. |
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© DANIEL FALCÃO |
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