Autor Data 4 de Janeiro de 2004 Secção Policiário [651] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2003/2004 Prova nº 4 Publicação Público |
O PONTO DESAPARECIDO Nove Os acontecimentos que
relato a seguir ocorreram já há umas dezenas de anos, antes do 25 de Abril de
1974, no tempo em que havia escolas secundárias só para rapazes ou só para
raparigas. Felizmente nem todas. Nessa época os moços e as moças, mesmo os de
17 e 18 anos, não podiam namorar com a mesma facilidade dos dias de hoje.
Recorriam, por isso, a inúmeras habilidades para comunicar entre si. O
presente caso relaciona-se, em parte, com os estratagemas de comunicação
usados pelos jovens de então. Começava o mês de Abril,
com tempo soalheiro. As férias de Páscoa estavam próximas. A dra. Joana Machado, professora de matemática, não ia
poder dar aulas na manhã do dia 5 devido a razões especiais. Como tinha
marcado para essa manhã um ponto de avaliação, importante para as
classificações do período escolar que findava, ela conseguiu que a respectiva aula, ou seja a vigilância da prova, fosse
assegurada pela sua colega do português, a dra.
Berta Mendes. Na sala das professoras, no
dia 2 de Abril, pelas 13h55, a dra. Joana Machado
deu à sua colega Berta Mendes um exemplar do ponto a distribuir e disse-lhe
que as outras cópias, 36 ao todo, se encontravam no seu cacifo do corredor, o
número cinco. Entregou-lhe a respectiva chave,
marcada com o mesmo número, da qual havia, conforme lembrou, um duplicado na
sala das contínuas. A prova de Matemática
decorreu normalmente, salvo um pormenor, talvez sem importância, mas que a dra. Berta Mendes não quis deixar de comunicar à colega.
É que sobraram apenas 6 exemplares do enunciado quando, tendo estado
presentes 29 alunas, deveriam ter sobrado 7. A professora de Matemática
conferira o número de cópias para ter a certeza de que chegariam. A dra. Berta Mendes, por seu lado, estava segura de ter
dado um só exemplar a cada aluna. O incidente seria para esquecer se não
tivesse aparecido a chefe das contínuas a solicitar a chave do cacifo à dra. Joana Machado, alegando a sua falta, desde há uns
dias, no chaveiro da sala das contínuas. Ora nenhuma das professoras fora lá
buscar o duplicado em causa. Soou o alarme! Será que alguém conseguira sacar
aquela chave para depois ir ao cacifo surripiar uma cópia do enunciado? As duas professoras
começaram a averiguar o caso com grande discrição. Primeiro era preciso
descobrir como é que outra pessoa, para além delas, teria sabido que os
enunciados estavam no cacifo, onde, para mais, não
costumavam ficar. Concluíram que a sua conversa do dia 2 podia ter sido
ouvida do exterior. Havia, por motivo de obras, uma pilha de tábuas e uma
escada encostadas a uma parede do liceu, pelo lado de fora, que diversos
rapazes escalaram para ver as moças no recreio. Uma das janelas da sala das
professoras, aquela junto da qual as duas docentes conversaram no dia 2,
ficava muito próxima desse miradouro improvisado. Mas ao chaveiro e ao cacifo
nunca chegaria qualquer rapaz que por acaso houvesse escutado a conversa das
duas professoras. Não passaria da secretaria, onde aliás nem chegaria sem uma
boa justificação. Talvez tivesse sido uma das
contínuas… Uma hipótese pouco provável, por mais de uma razão, mas não
descartável. Quem se teria aproveitado do enunciado desaparecido? Não se
descortinava, pois, curiosamente, as respostas ao exercício não evidenciavam
conhecimento antecipado das perguntas, o que complicava a averiguação. A subtracção
da chave, se realizada por uma aluna, teria ocorrido no decurso de um
intervalo – pensaram as duas professoras –, por ser uma ocasião em que as
contínuas, a cirandar de sala em sala, deixam muitas vezes o seu gabinete
deserto. A ida ao cacifo teria acontecido noutra altura, talvez durante o
funcionamento das aulas, quando não anda gente pelos corredores. Seguindo
esta ideia, as duas docentes procuraram, na turma do ponto em causa, as
alunas que, tendo comparecido à maioria das aulas, não assistiram a alguma,
no todo ou em parte, entre as 14h00 do dia 2 e a hora do ponto no dia 5. Encontraram três moças
nessas condições: Helena Vaz, estudante muito aplicada, com boas
classificações, que faltou à aula das 14h às 14h55 do dia 2; Leonor Hilbert, aluna excepcional, a
mais brilhante que a professora de Matemática conheceu, que não esteve em
parte da aula das 10h05 às 11h00 do dia 4; e Susana Martins,
aluna com algumas dificuldades, nomeadamente a Matemática, que faltou à aula
das 14h às 14h55 do dia 4. As dras.
Joana Machado e Berta Mendes interrogaram estas três alunas, em separado, com
todo o cuidado, pondo-lhes as seguintes quatro questões, uma de cada vez e
pela ordem que se indica: a) O que é que fez durante o tempo da aula a que
faltou? b) O que é que fez no intervalo anterior à aula a que faltou? c)
Alguém soube do enunciado do ponto de Matemática antes de este se realizar?
d) Por que razão não devolveu ainda a chave? A Helena disse que saiu do
liceu para ir fazer um tratamento de recuperação da entorse que contraíra na
ginástica, conforme explicou na justificação da falta. “Regressei cerca de
dez minutos antes do fim da aula de Filosofia, aquela a que tive de faltar. Fiquei
a ler num dos bancos do recreio, até ao intervalo.” Sobre o que se passara
antes da ida para o tratamento também se explicou. “Fui para a cantina logo a
seguir à última aula da manhã. Mal acabei de almoçar saí para o posto de
enfermagem. Ainda não era uma e meia.” Quanto ao conhecimento do enunciado,
afirmou: “Não dei por nada! Claro, houve quem
dissesse ter a certeza de que ia sair isto ou aquilo, como é costume, mas era
só conversa. Penso que ninguém sabia do enunciado.” Ainda a propósito,
acrescentou que a prova não fora fácil, mas que não lhe correra mal porque se
preparara com bastante cuidado. No que respeita à última questão evidenciou
grande surpresa: “Que chave sra. doutora!?
Fiquei de devolver alguma chave? Não estou a perceber. Há aqui qualquer coisa
errada!” A Leonor contou que saiu
vinte minutos antes de acabar a aula de Geometria Descritiva, devido a
indisposição, e que foi direita para os lavabos. “Estive lá até pouco depois
de ter tocado para o intervalo. A Sofia Ferreira e a Cláudia entraram quando
eu vinha a sair. Dirigi-me de imediato para o corredor da nossa sala. Não fui
a mais lado algum. Não me podem ter visto noutro sítio.” Já não se lembrava
bem do que fizera no intervalo anterior. “Devo ter estado à conversa com as
minhas colegas.” Sobre o enunciado, disse que na véspera do ponto lhe pediram
ajuda para diversos problemas e que notou logo que as colegas não estavam a
ver o que ia sair em concreto. “É verdade que eu não esperava aquela terceira
pergunta nem o problema final tão trabalhoso… Em qualquer caso, faria sempre
o ponto todo.” Quanto à chave não escondeu o seu espanto. “Mas de que chave é
que as sras. doutoras
estão a falar? Não estou a perceber onde querem chegar. Mas se é por causa de
alguma chave desaparecida, podem revistar-me à vontade.” A Susana declarou que
esteve numa consulta médica com a mãe e que avisara a professora de Ciências
Naturais da falta que ia dar, cuja justificação entregou ainda nessa tarde.
“Até pedi à Helena Vaz que me emprestasse os apontamentos da aula.” Sobre o
que teria feito no intervalo imediatamente anterior explicou: “Bem, não tive
o que se chama intervalo. Saí logo que acabou o último tempo da manhã,
almocei à pressa com a minha mãe, fomos, como disse há pouco, para o
consultório e regressei ao liceu mesmo em cima das três e cinco. Fui a última
a entrar para a aula.” Em relação ao enunciado do ponto pensou alto. “Dei e
ouvi vários palpites, no geral muito vagos. Acertei quase em cheio na
previsão do primeiro problema de derivadas que, afinal, acabei por não
resolver lá muito bem. Julgo que ninguém sabia ao certo o que ia sair.” Na
resposta à derradeira questão não mostrou menor surpresa do que as suas
colegas. “Mas que chave? Não estou a perceber a pergunta. Eu não tenho
nenhuma chave para devolver.” As duas docentes ponderavam
os resultados deste inquérito quando surgiu algo de novo. Uma professora de
Desenho surpreendeu uma das alunas do então designado 2.º ano (6.º ano de
escolaridade) com um texto criptografado, nada de importante, em princípio,
visto ser habitual as mocinhas entreterem-se com isso. Contudo, o aspecto menos comum do texto levou a professora a pôr
algumas perguntas. A pequena, muito atrapalhada, apressou-se a dizer que
aquilo não era dela, que era do seu irmão mais velho, que andava sempre a
pedir-lhe para trazer e levar bilhetinhos para uma rapariga do 7.º ano (11.º
de escolaridade). Ela não ficava com os papéis, mas por vezes conseguia
descolá-los e copiá-los, para ver se descobria o que eles diziam. Uma vez até
conseguiu! Havia ali três bilhetes
transcritos, o primeiro e o terceiro mandados pelo irmão e o do meio enviado
pela moça do 7.º ano. A professora de Desenho, perante o medo da pequena em
revelar o nome da destinatária, certamente por estar a sentir que já falara
de mais, não a forçou, mas guardou o papel na ideia de pedir ajuda na sua
decifração. Calhou fazer o pedido à colega de Matemática, dra.
Joana Machado. Rezava assim o papel: Beijos. Cacifo e porta.
Chave do meu coração. Cinco alíneas. Esta gaveta situada na aula ponto. Sala
seis. Gorjeta das duas contínuas C. M. Beijos amor. Visto cacifo
fechado. E solta porta? Chave mestra do meu coração. Só cinco alíneas.
Passos? Esta tarde gaveta. Prateleira situada atrás. Na aula ponto? Sala dia
quatro? Parte seis. Gorjeta das duas contínuas C. M. mais S. Amor. Visto cacifo fechado
e solta chave mestra. Só cinco passos. Esta tarde. Prateleira situada atrás
na sala. Dia quatro. Parte das contínuas, mais S. As dras.
Joana Machado e Berta Mendes olharam perplexas para este estranho texto
tripartido, mas pressentiram que ele devia ter algum significado. No dia seguinte já o tinham
decifrado e, depois de juntarem a isso a análise das respostas dadas pelas
alunas interrogadas, viram que haviam descoberto o essencial do enigma que as
preocupava. Fora roubado um enunciado do cacifo e a presumível autora do
furto estava descoberta. Confirmaram então, junto da pequena do segundo ano,
que a destinatária dos bilhetes era de facto a aluna de quem suspeitavam.
Esta, confrontada com as provas recolhidas, não querendo acreditar no que lhe
estavam a dizer e a mostrar, acabou por confessar tudo. Como é que as duas
professoras chegaram à presumível autora do roubo? Que indícios é que
reuniram? Nota: Este caso foi até
agora mantido em segredo e a presente revelação não é ainda total. Isto
porque, felizmente, quase todas as pessoas intervenientes continuam vivas.
Por isso não mencionei os seus verdadeiros nomes, assim como não localizei a acção nem indiquei o ano dos acontecimentos com rigor.
Este facto, contudo, em nada prejudica a análise solicitada. |
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© DANIEL FALCÃO |
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