Autor

O Gráfico

 

Data

15 de Dezembro de 1984

 

Secção

Mistério... Policiário [435]

 

Competição

Torneio Do S. Pedro ao Natal - 84

Problema nº 5

 

Publicação

Mundo de Aventuras [541]

 

 

A CARMEN NA PRODUÇÃO ou FIM-DE-SEMANA EM BURGAU

O Gráfico

Dedicado a CARMEN que não existiu somente na minha imaginação!!…

Certamente que todos vós estais recordados da Carmen. Conheci-a numa das minhas viagens, que anualmente faço ao Algarve, quando me desloco a Burgau, para gozar as férias merecidas! Graças a um problema policiário publicado no «M. A.» / «M. P.», rapidamente fixámos uma verdadeira amizade que se manteve durante muito tempo. Decifrámos em conjunto diversos problemas policiários e obtivemos bons êxitos nos torneios efectuados em «Mistério… Policiário»! Depois de ter falado nela aos meus pais, residentes em Burgau, levei-a à minha querida terra Natal, para conhecê-los. Chegámos num sábado, por volta das 14 horas. As apresentações foram feitas e depois de nos deliciarmos com um óptimo almoço de «lulas cheias», confeccionado pela minha querida mãe, onde recordámos um outro idêntico, cujos visitantes tinham sido o «Sete» e família, conversámos um pouco sobre as «mudanças» feitas em Burgau. Preocupo-me sempre com o evoluir da minha terra. A minha mãe começou por nos contar:

– Olha, filho, a câmara de Vila do Bispo, começou finalmente as obras sanitárias! Já abriram as valas nas ruas e colocaram os canos para os esgotos. A Casa dos Pescadores de Lagos também já construiu a casa para a lota. Temos igualmente, lá em baixo, na praia e próximo da Iota, umas casas de banho para o uso da povoação, só que estas não ficaram muito boas, pois, de vez em quando, falta a água e quando a há os pátios de entrada tornam-se num autêntico «lamaçal» porque a água que entornam não tem saída! Enfim, estamos à espera que resolvam aquilo…

– E o tractor? Não falas do tractor? – interrompeu o meu pai.

– Ah, é verdade, já me estava a esquecer! Foi a Casa dos Pescadores que colocou um tractor na praia para «avarar» os botes esclareceu a minha mãe.

Notei que Carmen se mostrara surpreendida com este «avarar» e logo expliquei que o termo correcto seria «varar», que significa pôr os barcos em seco ou encalhá-los! Entretanto, a minha mãe continuou a contar:

– Mas sabes a melhor, Luís?… Ao princípio, colocaram o tractor no estaleiro com um empregado/condutor, para «avararem» os botes carregados, ou não, com o peixe! Pois, como tu sabes, o esforço humano tornava-se enorme e muito cansativo! É claro, todos ficámos contentes com o feito! O condutor do tractor apenas não trabalha aos sábados e domingos e nesses dias pouca gente vai à pesca! Só que passado algum tempo, o trabalho do tractor, que era de graça, passou a ser pago pelos pescadores ou por quem necessita de «avarar» ou «deitar-um-bote-a-baixo»!! Vê lá tu… Quarenta escudos, cada vez que o tractor faz descer ou subir uma embarcação! Até parece que não «lhes» chegam os descontos que os pescadores fazem!…

– Já baixaram para vinte escudos, Herlinda! – emendou o meu pai.

– Isto não se admite e é uma vergonha! – protestou a minha mãe.

Depois destes pormenores, em relação às novidades de Burgau, aprestei-me para dar um salto até à praia, juntamente com Carmen. Eram 17 horas quando lá chegámos. Surpreendidos ficámos ao presenciarmos um aglomerado de pessoas no estaleiro. Mal tivemos tempo para apreciar a maré que estava vazia, mostrando toda a imensidão de areia molhada que se encontrava lisa (próximo e na direccão do estaleiro) com a excepção de algumas pegadas circulares. Aproximámo-nos das pessoas para sabermos o que tinha sucedido… Verificámos que acontecera um crime!!! Um corpo morto permanecia no meio da multidão, com uma enorme faca de cortar safios e peixe grado espetada no peito!!! Quem foi?… Quem não foi??… Era o que todos procuravam saber… Passados alguns momentos chegou o inspector Rodriguinho da polícia de Lagos, acompanhado pelo seu ajudante Lumafero e uma ambulância que transportou o cadáver para o hospital.

A vítima era de nacionalidade estrangeira e na noite anterior, estivera envolvido numa desordem, na companhia de uns amigos, contra indivíduos da terra. Numa investigação minuciosa e enquanto jogava a sua moedinha da sorte ao ar fazendo-a cair no bolso esquerdo da sua camisa, Lumafero apurou quatro suspeitos e levou-os à presença do inspector para interrogatório. Como éramos conhecidos do Rodriguinho que teve muito prazer em nos cumprimentar, pudemos assistir à inquirição no posto da Guarda-Fiscal de Burgau.

Vejam o que disseram os indagados:

JOÃO NABO (Pescador, 28 anos, alta estatura, pele torrada pelo sol):

– Não sei de nada! Ontem à noite, de facto, estive envolvido numa zaragata com a vítima, juntamente com o CHICO! Só que não passou disso… Hoje, depois do almoço, entretive-me a arranjar umas cavilhas de madeira para serem atadas com ascoma nas bordas do meu barco. Sabe, não uso toletes de ferro porque se tornam muito rijas e desgastam-me os remos!…

CHICO (Também pescador por conta própria, 33 anos, 1,60 m de altura, muito entroncado, com farta barba):

– Eu, também depois do almoço, estive a reunir a minha «caça» e a «arremendar» algumas redes. Por isso, não têm nada p’ra me pegar. Estou inocente…

ZÉ SONO (Outro pescador, 52 anos, barrigudo, baixote, cara enrugada):

– Então os senhores acham que eu seria capaz de matar alguém?… Bem, ontem à noite, ainda assisti à «cacetada» entre eles… mas apenas isso! Hoje, de tarde, vim até à praia dormir uma soneca, como é habitual. Como me dedico à pesca com a «nassa», nunca tenho redes para remendar. Quando os seus sacos de rede se estragam… compro outros, ora!….

TÓ-ZÉ (Igualmente pescador, por conta de outrém, 28 anos, quase dois metros de altura, indivíduo magro):

– Eu não participei na bulha de ontem à noite, porque estava à pesca da sardinha. Como sabem, a sardinha pesca-se bem entre Junho e Novembro e temos que aproveitar porque estamos em Agosto. Além desta pesca, também utilizo pessoalmente o xilréu para pescar lulas e chocos. Quanto ao crime não me apercebi de nada. Por volta das 16 horas ajudei a descer um bote ao mar, porque o tractor não trabalha aos fins-de-semana! Depois fui até casa descansar um pouco e entretanto passei pelas casas de banho novas, onde bebi uns goles de água…

E sobre as declarações era tudo. O Inspector Rodriguinho mandou embora os sujeitos, avisando-os que não podiam abandonar a povoação. Eu e Carmen despedimo-nos e continuámos a passear por Burgau. Eu recordava os lugares onde brincara na infância e ela admirava as casas baixinhas e brancas, além da magnífica praia que é o talismã da aldeia. No regresso a casa passámos pelos lavabos (próximos da lota) e a Carmen ficou impressionada com o asseio dos mesmos! Afinal não avistámos, cá de fora, as águas derramadas que a minha mãe falara…

Mais tarde, quase à noitinha, encontrámos o Inspector Rodriguinho e o seu ajudante Lumafero que se dirigiam para Lagos, levando detido um dos quatro suspeitos. Tinham descoberto o assassino! Nós reflectimos e descobrimos que na realidade só aquele sujeito poderia ter cometido o crime, porque mentira nas suas declarações. Vocês, caros amigos «Policiaristas», com o texto que acabaram de ler, também podem chegar à solução do caso. Respondam às seguintes perguntas:

 

1º – Quem foi o assassino?

2º – Indique todos os pormenores que provam a sua culpabilidade.

 

SOLUÇÃO (não publicada)

© DANIEL FALCÃO