Autor

O Gráfico

 

Data

8 de Março de 1985

 

Secção

Badaladas da T.P.O. [8]

 

Competição

Torneio Sete de Espadas

Problema nº 6

 

Publicação

Badaladas

 

 

A MORTE DO VELHO PEDINTE

O Gráfico

 

O «Ti Zé Churrasco» um pobre ancião com quase 70 anos que costumava mendigar, todos os dias. junto à porta de entrada do restaurante «A Churrasqueira Almadense», foi hoje encontrado morto, por volta das 8 da manhã, no seu poiso habitual. Fiquei desolado quando o vi…

Nunca pensei que fosse possível tal acto horroroso sobre o velhote! Uma bala de arma potente atravessara-lhe o corpo, e incrustara-se algures. No peito notava-se uma ferida enorme, com muito sangue já coagulado. Nas costas a ferida apresentava-se menos horripilante, por ser mais pequena, mas os seus bordos estavam muito negros e chamuscados. Foi doloroso assistir ao fim triste do velho mendigo. Há mais de vinte anos que a vítima, naquele local, costumava pedir esmola. Ali passava os dias mendigando e brincando com os gatinhos da rua, que faziam companhia ao homenzinho. Todavia, era uma pessoa muito respeitável cheia de autoridade, e que me inspirava admiração, quase veneração. Eu próprio passava muitos momentos na sua companhia, ouvindo as suas histórias. Desde os meus onze anos que o conhecia, e já vou fazer 25, e nunca me constou que o velhote ofendesse alguém! Porquê aquela morte Incrível?… Porquê… Não encontro explicação…

Junto do corpo, caído no chão nada se encontrava além da manta velha onde o «Ti Zé Churrasco» se costumava sentar. A parede, onde se encostava horas infinitas, apenas apresentava, ainda alguns cartazes da última campanha eleitoral. Curiosamente, o bom ancião proclamava a toda a gente que tinha um filho muito rico e que este daria metade da sua fortuna a quem presenciasse a morte do pai!…

Alguns transeuntes não acreditavam nesta história e perguntavam-lhe porque razão não ia viver com o filho, deixando a mendicidade… O «Ti Zé Churrasco» sempre respondia que estava habituado às pessoas que lhe davam esmola, preferindo-as à fortuna do filho!…

Talvez por saberem a história do tal filho rico, da vítima, 4 homens de idades que oscilavam entre os 40 e os 50 anos já permaneciam junto do cadáver quando cheguei à porta da «Churrasqueira Almadense». Só me apercebi do ocorrido quando virei a esquina da rua Mendo Gomes de Seabra. A porta do restaurante ainda se encontrava encerrada.

Ao mesmo tempo que cheguei perto do corpo, apareceu, como por encanto, uma carrinha da Polícia, na qual vinha o inspector Rodriguinho. Mal este saiu do carro foi abordado pelos 4 homens, que proferiram em uníssono:

– Fui eu que telefonei, e vi como ele morreu. senhor polícia.

– Calma – proferiu o inspector. – Vamos lá a falar um de cada vez. Disse o primeiro:

– Foi suicídio. Eu ía a passar quando vi o «Ti Zé Churrasco» com uma arma na mão… Encostou-a ao peito e… Pum! Disparou. Caiu logo, coitado. Lamento, mas sou eu quem vai receber metade da fortuna do filho. Fui eu que assisti à sua morte. Pobre homenzito…

– Isso é que era bom – exclamou o segundo. – Quem vai receber esse dinheiro sou eu. Quando eu saía de casa, moro ali perto, vi um carro parar na estrada, aí a uns 5 metros do velhote. Seguidamente um sujeito, de dentro do veículo, disparou um tiro que foi atingir o peito do pobre velho. Logo o carro arrancou… Se não fosse o barulho do disparo nem me tinha apercebido do crime.

– Estão os dois a mentir – interrompeu o terceiro. – O «Ti Zé Churrasco» foi de facto assassinado… Mas só eu vi como foi. Observei um indivíduo chegar junto do velhote, sacar de uma arma e disparar sobre ele. Depois, bem… correu pela rua Capitão Leitão e virou para baixo, à esquina da rua Mendo Gomes de Seabra. O velho caiu atingido no peito. Foi morto com uma bala porque só soou um disparo.

– São falsas as afirmações destes senhores – declarou o quarto. – Eles querem é ganhar o dinheiro do filho do velho. mas fui eu quem ouviu o tiro e assistiu ao crime. Um tipo alto e forte. empunhando uma pistola… observei perfeitamente que era uma pistola a arma do crime… disparou à queima roupa sobre o pobre velho e fugiu através da rua Manuel de Sousa Coutinho. Ainda tentei ir atrás dele, mas como pode ver esta rua fica mesmo em frente da «Churrasqueira», é a subir e eu já não sirvo para corridas.

– Muito bem – comentou o inspector, e dirigindo-se a mim.

– E você não tem nada a dizer?

– Eu não – respondi. – Quando aqui cheguei já cá estavam estes senhores, e ao mesmo tempo que o senhor inspector. Mas se me permite, gostaria de lhes perguntar a que horas se deu a morte do «Ti Zé Churrasco»?

– Aaah… Dois ou três minutos antes do senhor chegar, – Exclamaram todos em conjunto.

O inspector mandou chamar uma ambulância e levou os 4 homens, consigo, para confirmação dos depoimentos.

Embora não tivesse analisado convenientemente as declarações das pseudo testemunhas, facilmente concluí, por dois pormenores comuns a todos eles, que os 4 mentiam, e que nenhum assistira à morte do velho; igualmente podia provar que a morte não ocorrera naquele local.

Concordam comigo os caros policiaristas?

Digam-nos pois:

1) Quais os 2 pormenores, comuns aos 4 depoentes, que indicavam de imediato, que todos estavam a mentir?

2) Quais as circunstâncias salientes no local em que se encontrava o cadáver, que indicavam que a morte não ocorrera naquele lugar?

3) Quais as contradições e mentiras encontradas nas declarações dos 4 declarantes que afirmaram ter presenciado a morte?

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO