Autor

O Gráfico

 

Data

8 de Junho de 2026

 

Secção

Repórter de Ocasião

 

Publicação

Blogue Repórter de Ocasião

 

 

OS 4 PAUZINHOS

O Gráfico

 

Luiz naquele dia juntou-se com mais 3 amigos na barraquinha do senhor Zeferino, no Largo de Burgau, mas o Zé Manel, o mais velho, dos quatro, foi o último a aparecer. Anos 60, na Aldeia de Burgau. Os primeiros a chegarem ao largo de Burgau foram os meninos, irmãos, ligeiramente de menor idade e por isso mesmo ocuparam o banco de madeira, à disposição dos “clientes” da barraquinha. O Joãozinho, com o seu inseparável boné, de camiseta acinzentada, com riscas horizontais e calção cinzento e o Chiquinho, também descalço, tal como o Joãozinho, vestido de t-shirt amarelo-torrado e calção acastanhado. Luiz andava sempre, de vermelho e calção azul-escuro, mas usava uns chinelos que a mãe lhe comprara pelo seu aniversário. Estes três meninos que tinham combinado o encontro na véspera (estavam decididos a procurar novas crónicas, mais histórias, escritas pelo ancião Zeferino) levavam nas mãos papéis enrolados com histórias anteriores que o velho homem lhes emprestara para eles lerem!

Enquanto se cumprimentavam e eram recebidos pelo dono da barraquinha chegou, também de bicicleta, o Zé Manel que a largou, encostada, à idêntica utilizada pelo Luiz, na casa antiga que dava para o mar, situada à direita da barraquinha, onde a gaivota, a “espertalhona”, alcunhada pelos meninos, foi pousar em cima do telhado. Ao longe, no mar, viam-se os barcos, à vela, provavelmente de turistas. O Zé Manel, calçava uns chinelos iguais aos do Luiz vestia uma camiseta de gola, cor bege e tal como os amigos, todos, de manga curta e uns calções castanhos-escuros. Apareceu em cabelo com o boné no bolso, ele que o usava com a pala virada para trás…

 

Feitos os cumprimentos e reunidos os cinco, o senhor Zeferino decepcionou as primeiras perspectivas dos seus “clientes” dizendo-lhes que agradecia a visita, mas que naquele preciso momento tinha de se deslocar lá em baixo, à praia, para comprar peixe para o almoço. Pouco passava das 10 horas e os barcos de pesca já tinham chegado e a lota, no estaleiro, em lances, ia começar! Disse aos meninos que tinha, precisamente, quatro novas histórias, muito interessantes e misteriosas… para lhes mostrar, uma para cada um deles e mostrou-as, na palma da sua mão, enroladas, tipo papiro, com um cordel a prendê-las, mas o assunto ficaria para mais tarde e aconselhou os 4 jovens a lerem, de novo, as crónicas que tinham na sua posse e depois do almoço retomariam o convívio! Zeferino, na parte de dentro da barraquinha, guardou as 4 novas histórias, numa prateleira, à sua frente e perguntou ao Zé Manel se ele queria uma outra crónica para, entretanto, ler e este disse que não… ia dar uma volta de bicicleta! A “espertalhona” cheirou-lhe a mistério… e deu uma volta pelo telhado… mostrando-se atenta aos acontecimentos que ocorriam na barraquinha, no Largo de Burgau.

Os moços, resignados, encolheram os ombros, concordando, e viram que o senhor Zeferino apenas baixou a aba frontal, de abertura, da barraquinha e encostou somente o portão de madeira, de entrada… não trancando, nada, à chave!

Luiz e Zé Manel montaram-se nas suas bicicletas e abandonaram o local. Chiquinho e Joãozinho decidiram, também, ir até à praia, ver a lota, o peixe, mas se não existisse nada de interessante iriam, cada qual, para um lugar diferente, de preferência, uma sombra, para serenamente relerem as crónicas do dia anterior. E assim sucedeu. Rapidamente abandonaram a praia e nunca mais foram vistos. Entretanto o mesmo se passou com Luiz e Zé Manel porque seguiram caminhos variados e naquelas horas, sensivelmente entre as 10 e o meio-dia o largo ficou deserto, pois a população foi para a praia em busca de comprar peixe fresquinho, como era costume na Aldeia, quando os barcos chegavam, de manhã, vindos da faina marítima.

 

A gaivota, “espertalhona” continuou no seu pedestal e ficou surpreendida quando viu que um dos meninos regressou à barraquinha… entrou na mesma, à socapa e saiu com um maço de papéis enrolados! Possivelmente seria uma das novas crónicas...

Mau… isto ainda vai acabar mal…!  – Pensou a gaivota.

 

Na parte da tarde, como combinado, já depois do almoço, evidentemente, os cinco encontraram-se na barraquinha e o senhor Zeferino logo deu pela falta de um dos rolos de papéis e depressa concluiu que alguém tinha surripiado uma crónica! Sem ainda ter colocado o boné na cabeça recebeu os seus habituais “clientes” de largos sorrisos e logo pensou numa estratégia para descobrir quem teria sido o atrevido… que na sua ausência se deslocara à barraquinha para cometer aquele “crime”! Colocou o boné, pegou nos outros 3 rolos e colocando-os na palma da sua mão direita mostrou-os aos meninos e proferiu, sorridente:  

– Bem, meus meninos… parece-me que um de vocês, na minha ausência, voltou aqui e levou consigo, sem autorização, uma das minhas novas crónicas!

Os garotos olharam uns para os outros mostrando surpresa!

– Agora terei de recorrer à magia dos pauzinhos de madeira… para descobrir quem foi o autor de tal façanha e, ao mesmo tempo, todos vão aprender mais uma história de fantasia e o autor do “desvio” será desmascarado, pois esta magia é… infalível e descobre, sempre, o meliante! – Explicou o ancião.

Acto contínuo, o senhor Zeferino mostrou na sua mão 4 pauzinhos de madeira, todos do mesmo tamanho e ordenou aos meninos, enquanto a “espertalhona”, pousada no telhado, não perdia o fio à meada e só ela sabia quem tinha sido o causador do “desvio”:

– Cada um de vocês vai levar para casa um destes pauzinhos e durante a noite o pauzinho do culpado vai crescer 2 centímetros! É assim que funciona a magia desta madeira de uma árvore especial! Amanhã, todos vão trazer-me os respectivos pauzinhos e aquele menino que tiver o pauzinho maior será o culpado do “roubo” e terá de devolver a crónica! – Sentenciou o dono da barraquinha. 

E assim foi feito e todos os meninos obedeceram.

 

Na manhã seguinte, o Chiquinho, pelo sim, pelo não, como dormia no mesmo quarto do irmão, ao ser o primeiro a acordar, trocou o seu pauzinho com o do Joãozinho, mas não valeria a pena… porque juntou-os e estavam, os dois, com o comprimento idêntico!

Já o Luiz, por causa das dúvidas, antes de adormecer, foi medir o comprimento do seu pauzinho e, logo pela manhã, ao levantar-se voltou a fazer a medição e continuou tranquilo, pois como ele esperava, o seu pauzinho mantinha-se com o mesmo tamanho… não tinha crescido… sentiu-se aliviado, não fosse a magia falhar e fazer aumentar o seu pauzinho… nunca fiando!

 

No dia seguinte, tal como ficou combinado, os quatro meninos levaram os respectivos pauzinhos à presença do senhor Zeferino! Estavam curiosos para saber qual o pauzinho que tinha crescido 2 centímetros…! O ancião recebeu-os tranquilamente com um sorriso nos lábios, como de costume. Todos vestiam a mesma roupa e levaram consigo as crónicas antigas na mão, à excepção do Zé Manel que se apresentou com o boné ao contrário e t-shirt azul e branca com riscas verticais. A “espertalhona” nem dormiu… e já lá estava… no cimo do telhado… atenta ao desvendar do mistério… a ver se o culpado batia certo com o mesmo moço que ela viu surripiar a crónica! Dois barcos de turismo recreavam-se, de vela, no mar.

O senhor Zeferino recolheu os 4 pauzinhos, um de cada menino, a gaivota “espertalhona” convidou uma amiga para assistir à cena final e ambas foram pousar no telhado da barraquinha. Um barco de turismo continuava a praticar vela e um barco de pesca estava a chegar da faina nocturna. As bicicletas do Luiz e do Zé Manel estavam encostadas à velha casa com vista para o mar.

E num gesto mágico… o senhor Zeferino sabendo qual o jovem possuidor de cada pauzinho… exibiu os 4 pauzinhos… na sua mão direita e, para surpresa geral… numa espécie de magia e/ou feitiço… um dos 4 pedacinhos de madeira… estava mais pequeno… 2 centímetros! Em vez de crescer… diminuíra… precisamente… 2 centímetros!

Estava descoberto… o autor do roubo! Era a quem pertencia o pauzinho mais curto!

 

Agora, pergunto aos caríssimos leitores e decifradores, solucionistas de enigmas:

1 – Quem voltou à barraquinha e roubou a crónica?

2 – Justifique como chegou a essa conclusão e esclareça o porquê do pauzinho do culpado estar mais pequeno 2 centímetros.

 

SOLUÇÃO

© DANIEL FALCÃO