Autor Data 7 de Abril de 2002 Secção Policiário [560] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2001/2002 Prova nº 9 Publicação Público |
MUITAS BALAS PARA UM HOMEM SÓ Paulo O aspecto do corpo
assustava. O peito e o rosto estavam empastados de sangue. Tinham sido
demasiados tiros para um homem só. Embora habituado a cenários pouco
atraentes, Narciso Morais não conseguiu evitar uma náusea e sentiu enorme relutância
em olhar o cadáver. Teófilo Vasques encontrava-se sentado na confortável
cadeira de braços, recostado para trás e a cabeça pendente sobre o ombro
direito. A cadeira estava por detrás de uma secretária, mesmo em frente da
porta, para quem entrasse. Na parede do lado esquerdo uma larga janela, com
portadas de madeira e cortinados brancos dava para um bem tratado jardim. As
paredes encontravam-se adornadas com quadros, ou estantes onde imensas
lombadas de livros bem encadernados davam um aspecto de grande sobriedade ao
compartimento, que funcionava como biblioteca e local de trabalho do falecido
industrial. O chão, em madeira bem tratada estava marcado por inúmeras
pegadas de lama, que provinham da cozinha, atravessavam o comprido corredor
até ao pequeno escritório, assim como cápsulas de bala, espalhadas pelo
aposento. Apenas as zonas junto às paredes e janela estavam limpas. Em frente
à mesa, encontrava-se uma arma, que o experiente e sabedor olhar de Narciso
Morais não teve dificuldade em identificar como uma Walther PP. Em cima da
secretária, viam-se alguns papéis salpicados de sangue, assim como dois
“bibelots”, de aspecto sóbrio. Quando abandonou o pequeno
escritório, Narciso Morais suspirou de alívio. Dirigiu-se para a enorme sala
de jantar, onde ouviu, à vez, as primeiras declarações das pessoas presentes
no momento do crime. Firmino, o jardineiro e
homem para toda a obra, foi o primeiro a falar: – Eu andava a tratar do
jardim, que este Maio vai chuvoso e ainda se podem plantar muitas flores. Estava
mesmo por debaixo da janela do escritório, quando ouvi perfeitamente oito
tiros, todos seguidos. Fiquei uns segundos pasmado, mas logo percebi de onde
vinha o barulho. Como a janela é um pouco alta, pois a frente da casa
corresponde ao primeiro andar, enquanto, por causa da inclinação do terreno,
do outro lado é rés-do-chão, não consegui ver nada. Então corri pela cozinha.
Abri a porta, nem respondi à Cremilde e corri para o escritório, deixando
tudo cheio de lama, por causa da chuva da manhã – olhava para as botas –, mas
agora já as limpei. Narciso Morais, prestou
atenção às botas que, ainda um pouco sujas por cima, já estavam
suficientemente limpas para não deixarem rasto. Cremilde, mulher de idade
indefinida que poderia ir dos quarenta e poucos aos cinquenta e muitos, falou
de seguida: – Estava na cozinha a fazer
uns bolos e tinha a televisão ligada. Estava a ver a telenovela, que tinha
começado naquele momento, eram três horas, quando ouvi uns ruídos, mas não
percebi muito bem o que eram. Agora sei que foram tiros. Só vi o Firmino a
entrar espavorido pela cozinha, que parecia trazer o demónio atrás dele, e a
deixar tudo sujo. Corri atrás dele até ao escritório e quando vi aquele
horror, acho que desatei a gritar. Bernardo Vasques, viúvo e
irmão do falecido, com quem partilhava a casa, ainda mal refeito do choque,
declarou: – Eu estava no meu quarto, sentado ao sol,
no sofá. Estava de auscultadores nos ouvidos a ouvir música. Ia ouvindo e
dormitando. Sou um apaixonado pela música do século XIX e estava a ouvir
Wagner. Talvez a “Cavalgada das Valquírias” me tenha impedido de ouvir os
tiros. Só me apercebi de alguns gritos aflitos cá baixo. Então tirei os
auscultadores e desci. Eu já tinha dito ao meu irmão que deveria fazer
desaparecer aquela arma, que ele mantinha sempre pronta a disparar. Nunca
percebi do que é que ele tinha medo, mas parece que afinal tinha razão. Vi o que se passava e fui
abrir a porta da frente, que estava fechada, onde alguém não parava de tocar
a campainha. Vi que era o doutor Natálio. A outra pessoa que estava
para ser ouvida era Natálio Vilares, advogado da vítima, homem dos seus
cinquenta anos, vestido como um manequim e de sapatos brilhantes: – O senhor Teófilo mandou
chamar-me pois queria alterar o seu testamento, e deserdar completamente a
família. Dos beneficiários do testamento anterior, só ficavam os criados e eu
próprio, que já o sirvo, ou melhor, servia há muitos anos. Tinha-me mandado estar
cá às três horas. Devido a um furo, atrasei-me. Estava a sair do carro,
passavam um ou dois minutos das três, quando saiu o Jorge, que me disse ir
levantar uma encomenda aos correios, para o pai. Entrei pelo portão, que
estava aberto, e quando me dirigia para a porta ouvi os tiros. Não os contei.
Como não percebi na altura, o que poderia ser, dirigi-me para a porta da
frente. Toquei. Mas ninguém veio abrir, embora se ouvisse um grande alarido
dentro da casa. Eu tenho uma chave da casa, que em tempos o senhor Teófilo me
deu, mas hoje não a trouxe. Finalmente ouvi a chave rodar e o senhor Bernardo
abriu-me a porta. Narciso Morais decidiu dar
uma volta pela casa. Subiu ao andar de cima, onde havia vários quartos. O da vítima estava
perfeitamente arrumado e limpo. Olhou, procurando algum pormenor que lhe
chamasse a atenção, mas nada viu. O quarto de Bernardo
Vasques era semelhante ao do irmão, só que o do falecido dava para a frente
da casa. Lá estavam os auscultadores em cima do sofá, ligados à aparelhagem.
Narciso abriu o compartimento do CD e lá estava um disco a confirmar o que
Bernardo dissera. O outro quarto era o de
Jorge. Via-se que ali havia alguém mais desarrumado. Havia roupas, livros e
discos espalhados. A janela estava aberta e Narciso foi até lá. Olhou para
baixo e reparou que ficava mesmo por cima da janela do escritório de Teófilo. Saiu do quarto. Olhou as
escadas que conduziam às águas furtadas onde ficava o quarto de Cremilde, mas
a audição de algumas vozes agitadas em baixo, fê-lo descer. Era Jorge que
chegara. Aparentava ter pouco mais de 25 anos e o aspecto de quem nada fazia.
Quando se acalmou, pôde
dizer: – Eram quase três horas
quando o meu pai me pediu para ir buscar uns discos novos à estação dos
correios. Peguei no carro e ao sair cruzei-me com o doutor Natálio, que
costuma deixar sempre o carro na estrada. Disse-lhe onde ia e ele referiu-me
que estava atrasado porque o meu pai lhe pedira para estar cá às três.
Disse-lhe para não ligar a isso, porque olhei para o relógio e eram só três
horas e três minutos. Fui buscar a encomenda e depois fui até ao Centro
Comercial. Lanchei lá e cheguei neste momento. Ouvida toda a gente,
Narciso Morais ainda queria observar melhor alguns pormenores. Deixou a
enorme sala e percorreu o impecável corredor, onde quase parecia haver um
repelente de pó, que dava acesso à porta da frente. Estava apenas no trinco.
Abriu a pesada porta de madeira e saiu. Uma escadaria de alguns degraus
conduzia a um empedrado, que se prolongava por algumas dezenas de metros até
ao portão da propriedade, que dava acesso à estrada. Desceu as escadas e
virou à esquerda, dobrando a esquina, entrando na zona ajardinada. Daquele
lado da casa não havia portas. Apenas algumas janelas, entre as quais a do
quarto de Bernardo Vasques. Observando o terreno enlameado debaixo das
janelas, não detectou qualquer pegada. Subiu a ligeira inclinação do terreno
que o levava às traseiras, onde se localizava a porta da cozinha. Eram
notórias as pegadas que se dirigiam à zona empedrada junto à porta, vindas do
outro lado da casa. Nas traseiras, no rés-do-chão, apenas a cozinha tinha
janelas. No primeiro andar, via-se apenas uma varanda, talvez para poupar os
habitantes ao rigor da nortada. Narciso Morais dobrou a
esquina, procurando a origem das pegadas e encontrou-se debaixo da janela do
compartimento onde ocorrera o crime. A janela estava fechada, assim como
todas as outras ao lado. Debaixo das outras janelas, não eram visíveis
pegadas. Junto do canteiro, onde Firmino estava quando ouviu o tiro, estavam
abandonadas umas luvas a cerca de um metro uma da outra. Narciso Morais
recolheu-as com cuidado, guardando-as num saco preparado para esse tipo de
serviço. Olhou mais uma vez a janela
do escritório fatídico que se desenhava por cima da sua cabeça. Voltou à porta da cozinha,
limpou os pés sujos de lama e entrou para comunicar a sua partida. Mais tarde, Narciso Morais
veio a saber que Firmino trabalhava em casa de Teófilo, mas dormia fora.
Bernardo e o filho da vítima viviam pendurados no falecido. Bernardo tinha
dívidas de jogo e Jorge gastava todo o dinheiro que lhe passasse pelas mãos.
Segundo Cremilde, o patrão preparava-se para pôr os dois na rua. Natálio
Vilares também não estava muito bem de finanças, necessitando urgentemente de
dinheiro para cobrir os prejuízos de um negócio imobiliário que tinha corrido
mal. Soube, também, que a vítima normalmente guardava a arma no quarto. A autópsia e análise
balística, demonstraram que a vítima tinha levado oito tiros de calibre 7,65
mm, disparados pela arma encontrada no chão. Foi também provado que as
luvas encontradas tinham segurado uma arma que disparara recentemente,
provavelmente a do crime e que pertenciam a Firmino, que afirmou não as ter
usado naquele dia. Afirmou que havia cerca de uma semana que as não usava,
nem tinha necessitado delas. Perante o exposto, Narciso
Morais não teve dúvidas sobre o sucedido… – Quem foi que cometeu o
crime? Exponha o raciocínio que o levou a essa conclusão. |
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© DANIEL FALCÃO |
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