Autor Data 10 de Novembro de 2024 Secção A
Página dos Enigmas [46] Competição Problema nº 4 Publicação Blogue A Página dos Enigmas |
O MISTÉRIO DAS JOIAS ROUBADAS Paulo Narciso
Morais olhou o relógio que marcava dezassete e dez. Depois, deu uma corrida
desde o carro até à porta da casa, aproveitando o facto do portão que dava para
a rua estar aberto. Tentava, assim, poder fugir à chuva que desde a véspera à
noite insistia em cair. Meia hora antes, quando saíra da sede, o sol tinha
feito uma visita e ele avançara sem guarda-chuva, mas a chuva, na forma de
chuvisco incomodativo, voltara, e agora teria que aguentar com ela sem
proteção alguma. A
casa ficava numa zona relativamente isolada, rodeada por um pequeno muro,
fácil de transpor. A envolver a casa existia um jardim com canteiros bem
tratados, o que decerto traria custos elevados para o proprietário da
vivenda. Da rua até à porta havia um pequeno caminho calcetado com pequenas
pedras de granito, cravejadas no chão de terra. Ainda
antes de bater à porta, Narciso Morais decidiu perder o medo à chuva e
avançar pelo passadiço de grandes pedras, de um tipo inidentificável para
ele, que contornavam a casa junto das paredes da mesma. Do lado direito da
casa, alguns arbustos e canteiros enchiam o terreno, mas, nas traseiras, onde
chegou depois de percorrer a parede lateral, a paisagem era diferente. O chão em terra mexida recentemente, mas perfeitamente liso,
ocupava quase todo o espaço. Provavelmente teriam andado a semear relva. Ao
fundo era visível uma pequena arrecadação com a porta aberta, e no muro
lateral havia uma churrasqueira em tijolo. Encostada à parede da casa estava
uma escada metálica, com a base apoiada na terra e o topo embatendo no
parapeito de uma janela do 1º andar. Via-se bem que se tratava de uma escada
com pouco uso, ainda com o metal brilhante, sem marcas de desgaste ou lixo,
apenas com o brilho embaciado pela água que a cobria. Debaixo
da escada, por sobre o passadiço, viam-se alguns vidros partidos. Olhando
para cima, para a janela, com mais atenção, Narciso Morais notou que estava
aberta, e que era de lá que provinham os vidros. Dirigiu
depois a sua atenção para o terreno escuro onde se viam bem marcadas duas
séries de pegadas, uma no sentido da arrecadação e a outra no sentido
contrário, com a mesma forma e tamanho. Continuando
a contornar a casa verificou a existência de marcas de terra no passadiço.
Junto da esquina, havia um monte de terra maior, como se alguém tivesse feito
um esforço para limpar o calçado, e depois essas marcas desapareciam quando
se virava a esquina. A
outra zona lateral da casa era idêntica à parte que ficava do lado oposto,
pelo que Narciso Morais não se demorou em observações, continuando até chegar
novamente junto da porta da casa. Reparou, então, que não havia campainha,
pelo que lá teve que se meter à chuva novamente, ir junto do portão, na rua,
e carregar no botãozinho mágico. A
porta foi aberta por um indivíduo que se apresentou como Jaime Ramos e
proprietário da casa. Após as apresentações contou o que se passara. –
Sou médico, estava a trabalhar no consultório, quando pelas quatro e um
quarto a empregada me telefonou a dizer que tinha havido um assalto cá em
casa. Tive que despachar o doente que estava a consultar e vim imediatamente.
Reparei que a janela do meu quarto estava completamente aberta e que as joias
que eu tinha aqui em casa, e que eram da minha falecida esposa, (sabe que sou
viúvo), tinham desaparecido. –
Estavam guardadas dentro de algum cofre? Notou-se
algum embaraço de Jaime Ramos a responder. –
Não, não estavam. Sabe, nós pensamos que estas coisas só acontecem aos outros.
Tinha as joias dentro de estojos em gavetas, e nem seguro tinha. Enquanto falavam, foram subindo e, em cima,
dirigiram-se para o quarto onde fora cometido o roubo. –
Quem é que vive nesta casa? –
Eu e o meu filho, que tem 17 anos. É estudante e frequenta o 12º ano. Ainda
não chegou a casa. A
desordem era total, com todas as roupas espalhadas, gavetas abertas e tiradas
dos móveis, e alguns estojos de joias abertos e espalhados pelo quarto. A
janela aberta deixava entrar algumas gotas de chuva, num chão envernizado e
bem limpo. Não
podendo fazer mais nada, enquanto não chegasse o técnico da recolha das
impressões digitais, Narciso Morais pediu para falar com a empregada. De
nome, Margarida, aparentava ter cerca de trinta anos. –
Ainda não me recompus. Estava no hall de entrada a
limpar o móvel que lá se encontra, quando ouvi vidros a partir. Fiquei
atenta, ouvi um novo som de vidros partidos, espreitei na sala, na cozinha, e
depois subi a correr ao 1º andar, embora confesse que foi uma imprudência,
pois podiam matar-me. Só que na altura não pensei nisso. Entrei
logo no quarto do senhor doutor, vi o estado em que ele se encontrava e corri
para a janela. Ainda vi um vulto que acabara de virar a esquina da casa,
depois de ter descido as escadas. Fiquei
muito aflita e telefonei ao senhor doutor. Narciso
Morais pediu para dar uma volta pela casa, o que fez acompanhado pelo médico,
não encontrando nada de relevante. Havia
o quarto do jovem filho do médico com alguns posters
colados pela parede e alguma desarrumação, justificada pelo dono da casa, que
disse que o filho não apreciava muito as arrumações que a empregada lhe fazia
no quarto. Havia
ainda outro quarto, para visitas, que se encontrava com os estores fechados. No
rés-do-chão, havia uma grande sala bem mobilada e com as paredes cheias de
quadros, uma cozinha de tamanho razoável, em estado impecável, e um
compartimento que servia de escritório. No hall de
entrada havia um pano de pó, abandonado em cima de um móvel. Todas as janelas
se encontravam fechadas e era impossível abri-las por fora. Na cave, além da
garagem, existia uma lavandaria, com uma tábua de passar a ferro, roupa
dobrada, pronta para ser arrumada, e um cesto de peças de tecido acabadas de
secar. Existia também uma arrecadação com calçado, onde se encontravam uns
sapatos de mulher completamente encharcados. Embora
fosse conveniente efetuar algumas perícias técnicas Narciso Morais não tinha
grandes dúvidas sobre o que sucedera. A
– O roubo foi efetuado pelo filho do médico, para arranjar dinheiro. B
– O roubo foi realizado pelo médico, pois mente ao dizer que “despachou” um
doente e ficou atrapalhado com a questão sobre as joias. C
– O roubo foi feito pela criada que mente e não conta como os factos se
passaram na realidade. D
– O roubo foi cometido por alguém estranho à casa, pois não há indícios de
que alguém da casa o pudesse cometer. |
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© DANIEL FALCÃO |
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