Autor

Paulo

 

Data

1 de Janeiro de 2026

 

Secção

O Desafio dos Enigmas [229]

 

Competição

Torneio “Solução à Vista!” – 2026

Problema nº 1

 

Publicação

Audiência GP Grande Porto

 

 

A VINGANÇA

Paulo

 

“Eram todos assassinos contratados, responsáveis por terem morto os meus pais e os meus irmãos. Ou, separando-os por géneros: quatro assassinos e uma assassina. Era o crime organizado a exercer o seu poder sobre quem não pagava. Eu escapei e planeei a vingança que pretendia executar. Escondido, vivendo nas sombras, eliminei-os a todos, com requintes de vingança. Muitos tiros em cada cadáver. Primeiro, para fazer doer, aterrorizar; só o último tiro era para matar. Num dos corpos dei quatro tiros, sete noutro, oito num terceiro, e nos outros dois cadáveres ficaram dez e doze projéteis respetivamente. Contei-os um a um em voz alta, olhando os criminosos nos olhos. Vi a dor e o sofrimento, mas soube-me bem. O meu ódio subia acima do terror deles.

Agora, que cumpri a minha missão, posso partir. Nada me prende a ninguém nem a nenhum local, depois de ter realizado todo o percurso que planeei ao pormenor. Todos os detalhes se encontram gravados na minha mente, tanto foi o tempo e as vezes que pensei neles.

Os cinco corpos ficaram espalhados por Portugal. Fecho os olhos e vejo-me a contar um número ímpar de tiros naquele corpo que se contorceu naquele local que eu lhe tinha destinado, que não foi em Beja nem em Gondomar.

Foram anos na procura. Eu sabia os seus nomes. Aqueles pelos quais eram conhecidos. Nomes profissionais. Profissionais da morte.

Recordo o corpo que desmembrei em Sagres, depois de lhe incrustar um número par de projéteis, e que também não foi o da Ana Luísa, a assassina sorridente. Foi o único que levou mais tiros do que o número de letras do nome.

Naquele sofrimento que eu lhes produzia, houve um que avisei antes de começar:

– Vais levar um tiro por cada letra do teu nome. – E assim foi. Certinhos. Eu disparava e depois dizia a letra. Só não ouviu a última.

Em Gondomar deixei um corpo com metade dos projéteis com que enfeitei o João Ramadas. Soube-me bem!

Na vingança que exerci na Maia, deixei no cadáver um número par de balas, apesar de não ter sido o corpo para onde mais disparei. Antes de aí fazer cumprir o destino, já a Ana Luísa e o José Ramos tinham sido eliminados.

Lembro-me com nitidez do Martinho Neto a implorar, de lágrimas nos olhos, enquanto eu ia carregando no gatilho vagarosamente. Foram vários tiros. Quando o matei, os seus apelos faziam-me lembrar palavras semelhantes, de outros assassinos que eu já tinha eliminado antes.

Era apenas mais uma morte. O cumprimento de uma missão. Para cada um dos corpos sobre quem eu disparava, já tinha definido anteriormente a receita que lhe estava destinada.

Que hei de fazer agora? Cumpri o meu destino. Corpos espalhados pelo país, de Sagres a Gondomar, passando pelo Fundão. Nem um escapou, mesmo aquele que mais foi difícil de encontrar, o Ivo Silva. Se calhar, por isso levou menos tiros que todos os outros.

Agora, que já cumpri o caminho que tracei para mim, só me resta morrer.”

Esta foi a carta encontrada junto de um corpo, aparentemente vítima de suicídio, que apareceu numa rua do Bairro do Restelo, em Lisboa, com um tiro na fronte e a arma junto do corpo.

As autoridades abriram a boca de espanto. Havia algum tempo que tinham notado o desaparecimento de alguns profissionais do crime, mais propriamente de alguns elementos que se sabia que tinham por função cometer assassínios, mas nunca tinham percebido o que lhes acontecera. Simplesmente, tinham desaparecido de todas as informações que eram recebidas pela polícia. Parecia que agora tudo estava esclarecido. Tudo fizera parte de uma longa e pormenorizada vingança.

Após o surgimento daquela carta, a Polícia Judiciária ainda tinha um trabalho longo pela frente: tentar encontrar os corpos, e a carta era uma primeira pista.

A partir das informações na carta podem também os leitores dar a sua contribuição para ajudar as autoridades policiais, indicando em que localidade cada vítima foi encontrada e com quantos tiros foi morta…

 

© DANIEL FALCÃO