Autor

Paulo

 

Data

Setembro de 2026

 

Secção

O Charadista e o Policiário [1]

 

Publicação

O Charadista [561]

 

 

ASSALTO NA SEDE DO FUTEBOL CLUBE OS SARDINHENSES

Paulo

 

Na sede do Futebol Clube Os Sardinhenses tinha havido um assalto, tendo sido roubada a taça do campeonato que o clube tinha ganhado. O facto foi comunicado às autoridades pelo presidente, única pessoa que, além da polícia, entrara na sede.

No exterior, havia repórteres de todas as televisões e das principais rádios, que entrevistavam quer os passantes, quer pessoas que estavam de permanência no local, os designados mirones, que tinham sempre opinião sobre tudo. Bastava surgir-lhes um microfone pela frente e não paravam de falar, sendo normalmente interrompidos pelos jornalistas, que, regra geral, também gostavam de se fazer ouvir, ou então, recebiam ordens para isso.

Durante toda a manhã, tiveram que trabalhar apenas com o comunicado da polícia, indicando que desde as duas horas da madrugada, hora em que o presidente saíra, até às nove, hora em que entrara novamente na sede, houvera um assalto. O presidente estava incontactável, o que só mostrava inteligência da sua parte.

Quem, daquela rua, esteve em casa, além de ver polícias a entrar e a sair, conseguiu acompanhar o caso pela televisão.

– Então senhor chama-se…

– Jorge. Jorge Esteves.

– E estava aqui de passagem?

– Sim, estava a passar aqui, mas já sei que houve um roubo de madrugada. Só posso dizer que não fui eu.

– Muito obrigado, Jorge Esteves.

– De nada.

– E o senhor, como se chama?

– Marco Gaibrinhas. Tenho estado aqui, a ver o que se passa.

– Então deve ter uma opinião sobre o assalto?

– Claro! Não fui eu! Estava a dormir. Ah! Ah! Ah! Um assalto é sempre mau. Desde que começaram a vir os estrageiros que isto é uma desgraça.

– Muito obrigado, senhor Marco. Agora temos aqui uma senhora, que é…

– Estela Marques

– Então a senhora estava de passagem?

– Não senhor. Eu moro aqui em frente e, quando vi na televisão o que se passava, vim para a rua. Olhe que eu não vi ninguém aqui entrar de madrugada.

– Muito obrigado, senhora Estela.

– Não tem que agradecer. Eu é que agradeço tudo o que estão a fazer por esta rua. É sempre bom surgir na televisão.

– Temos aqui outro senhor. Como se chama?

– Mário Esteves.

– Estava de passagem?

– Não! Vim de propósito para ver. Eu sou um sardinhense e não admito que roubem a taça do único campeonato que vencemos.

– Muito obrigado, senhor Mário

– Passamos agora a mais uma senhora

– Olhe, eu estava de passagem. Moro ali no fundo da rua. Não faço ideia de quem fez o roubo. Eu não fui. Estava a dormir.

– Muito obrigado! Passamos mais uma vez aos estúdios.

Da porta da sede do clube Os Sardinhenses, Cláudia Eustáquio.

Foi assim toda a manhã, até ao início da tarde. Fosse a Cláudia Eustáquio ou qualquer outro repórter, as declarações dos presentes eram quase sempre as mesmas. Inócuas e inúteis.

Às quatro da tarde a polícia comunicou que ainda não tinham qualquer pista. Nada mais disseram. O presidente continuava a não se mostrar em público.

Perante isto, o que têm os leitores a dizer?

 

© DANIEL FALCÃO